OS ADEPTOS DAS POPOZUDAS MORREM DE MEDO QUE LARISSA MACIEL SIRVA DE EXEMPLO PARA AS MOÇAS DA PERIFERIA.Por Alexandre Figueiredo
A direita dente-de-leite tenta dizer que existe um país perfeito. Lembra o que Renato Russo cantou em "'Índios'", sucesso da Legião Urbana: "...e acreditar que o mundo é perfeito e que todas as pessoas são felizes".
Enquanto ocorre a imbecilização cultural que a mídia impõe ao povo brasileiro, garantindo de um lado a domesticação das classes populares necessária para a manutenção do sistema de privilégios e de desigualdades sociais, a direita tenta dizer que tudo está bem.
Aí certos internautas inventam que "todos somos inteligentes", "todos somos esquerdistas", "todos somos democráticos", "todos somos tudo de bom", "tudo é apenas diferente", tentando a todo custo dar a impressão de puro perfeccionismo na sociedade, na mídia e na indústria do entretenimento do país.
No caso das popozudas, então, chega a ser triste que pessoas tentem dizer a todo custo que elas não representam o machismo. Tentam negar o que se mostra de forma evidente, óbvia, escancarada. Fazem verdadeiros malabarismos de discurso, seguindo a lição de seus mestres da imprensa direitista. São os bons alunos da escola do professor Tavinho (Otávio Frias Filho).
"Você é moralista", "Você é preconceituoso", "Você não conhece a popozuda tal", "Elas ganham seu dinheiro sem depender de homem", são os argumentos patrulheiros desses direitistas enrustidos, que daqui a dez anos vão defender coisas piores, como a prisão perpétua aos manifestantes sem-terra e a privatização das universidades federais com participação obrigatória de "no máximo" 30% do capital estrangeiro.
Claro, eles hoje são jovens, não despertam a menor desconfiança. Até são de "esquerda", tadinhos, mas ficam pentelhando tanto a esquerda que a querem tão podada, mas tão podada, que possa fazer um líder operário parecer ideologicamente com o José Serra, o antigo socialista católico que no decorrer dos anos foi podado para ser o neoliberal doentio que é hoje.
DISCURSO "CIVILIZADO"
Esses direitistas dente-de-leite acham que as chamadas popozudas ou boazudas não podem ser tão cobradas pelas atitudes que tomam ou deixam de tomar. E acham que, quando há alguma cobrança, ela vem das mentes daqueles que fazem críticas a elas.
Nada disso. Não sou eu que faço tais cobranças, é a vida que faz.
A vida não é o eterno recreio brega-popularesco, não é a ilusão alegre de glúteos rodopiantes, de cantores e músicos patéticos, de jornalistas brucutus, de celebridades que se lambuzam demais do caviar da burguesia.
As tempestades dos últimos dias mostram o que o espetáculo brega-popularesco não mostra. Até porque essa "cultura popular" que está aí na grande mídia nada tem de humana, nem de edificante. Moralismo? Preconceito? Não. É realismo.
A cultura popular autêntica, hoje, está marginalizada, enquanto seu arremedo pasteurizado, domesticado e infantilizado, está aí nas rádios FM e na TV aberta. A direita enrustida acha ótimo, porque "na mídia está o povo na sua melhor expressão". Acha que quem fala mal do brega-popularesco é que "tem nojinho de povo pobre".
Errado. Quem tem
nojinho de povo pobre são justamente aqueles que elogiam essa pseudo-cultura que oficialmente se "atribui" ao povo, mas é trabalhada nos escritórios da grande mídia e da indústria cultural.
Porque para esses defensores do brega-popularesco, o povo é melhor quando desempenha aquele comportamento infantilizado - "Ih, lá vem sua paranóia de infantilizado, rapaz!", tentam desmentir tais direitistas em seu discurso "civilizado" - , quando dão seus sorrisos desdentados nas plateias do Fausto Silva. Aliás, hoje eles defendem o Fausto Silva, amanhã vão defender o Ali Kamel e pedir a canonização deste, em vida, pelo Vaticano.
QUANDO UM HOMEM QUESTIONA VALORES MACHISTAS...
Em relação às mulheres, está mais do que óbvio que as chamadas popozudas expressam os valores machistas de exploração da imagem sexual da mulher. Ou seja, essas mulheres adotam procedimentos machistas, são mulheres-objeto, e mesmo quando tentam fazer "algo mais" é sempre dentro dos limites determinados pelo machismo moderno, que já permite que a mulher trabalhe fora.
Ou seja, de que adianta a loira do Tchan cursar faculdade se, nos palcos, ela faz sempre o papel de mulher-objeto? De que adianta essas popozudas não terem maridos, noivos ou namorados (ou pelo menos, escondê-los para evitar "problemas profissionais"), se elas seguem ordens de outros homens, que lhes empresariam e que as obrigam a se autoafirmarem através de glúteos e peitos siliconados?
A polêmica das popozudas assusta a direita dente-de-leite porque os comentários contra essas mulheres partem corajosamente de um homem. É demais que homens acostumados com valores machistas, que eles não admitem como tal, sejam questionados por um outro homem, já que, no machismo, há a ilusão de que todos os machos são solidários entre si.
Daí o reacionarismo desperta tal qual o reacionarismo demotucano nas eleições de 2010. E, sobretudo, numa época de preparação para o Carnaval, já que muito dinheiro é investido para colocar cada popozuda na respectiva escola de samba. O Carnaval é a vitrine dessas musas marcadas tão somente por glúteos e peitos siliconados.
Aí é demais para um reacionarismo só. A patrulha de Adrianos, Thiagos, Márcias e tantos outros reaças enrustidos, como traduções cada vez mais pop de Diogo Mainardi (que já é um Olavo de Carvalho mais pop), surge furiosa contra qualquer contestação, uma patrulha que se acha mais realista que o rei.
Só que, mais do que o medo de alguém contestar o sucesso das popozudas nas vésperas do Carnaval, ou de que os valores machistas (ainda que enrustidos) sejam contestados por um outro homem, é o medo de que o foco de exemplos de mulheres para serem seguidos ou apreciados pelas jovens moças da periferia se altere completamente.
É a mesma lógica se, por exemplo, tivéssemos de substituir os policialescos do jornal Meia Hora ou de programas de Wagner Montes, José Luiz Datena e similares, pelo Método Paulo Freire de alfabetização, um programa educacional que também inclui entretenimento e vivências pessoais e que apavorou as elites golpistas pelo seu perfil transformador para as classes pobres.
Pois a juventude que diz que as popozudas são "feministas", falando na mesma "liberdade" que marcou os discursos da direita "amadurecida" mais manjada, está com muito medo, um pavor doentio, fascista, um sentimento paranóico de que outras mulheres, mais marcadas pela inteligência, sirvam de exemplo de vida para as moças da periferia.
"NOJINHO DE POBRE" É DE QUEM DEFENDE O BREGA-POPULARESCO
Então, onde está o "nojinho do povo pobre"? Está em reprovar a imbecilização cultural das mulheres-frutas na TV aberta, ou está no medo de que mulheres como Larissa Maciel e Leandra Leal, conhecidas por sua inteligência e discrição, além do inegável talento e de terem muito o que dizer nas entrevistas, sejam admiradas e seguidas pelas moças jovens da periferia?
Onde está o "nojinho do povo pobre"? Está em reprovar uma Solange Gomes e Valesca Popozuda por procedimentos lamentáveis, como odiar ler livros ou botar mais silicone nos glúteos, ou na chance das moças da periferia lerem livros de Clarice Lispector e ouvirem músicas de Sílvia Telles?
Aí é que pega nos direitistas enrustidos em geral. "Peraí, não é bem assim", "não podemos generalizar", escrevem eles numa retórica raivosa que mal consegue disfarçar o medo. Afinal, o maior medo deles é que suas ideias equivocadas sejam superadas por outras mais realistas, mais substanciais e cujo nível de inteligência não está na vaidade de ser inteligente, mas no esforço de ampliar os conhecimentos.
Eu não me gabo em ser inteligente ou coisa parecida. Pelo contrário, tenho muito o que aprender. Se eu sou um intelectual, não é porque tiro onda, mas porque fiz por onde, lendo livros por um lado e compreendendo o mundo à volta por outro.
E conheço muito mais a periferia do que muito carinha trancado em seu apartamento de luxo e que se acha um "grande defensor das classes pobres do Brasil".
Claro, o cara acha o máximo ver a periferia tão somente nas telas da Rede Globo, dizer que "respeita o povo pobre", mas é esse cara que tem medo de pobre, nojo de pobre, não quer que o pobre tenha qualidade de vida, quer é que o pobre fique ocupado com seu lazerzinho brega-popularesco.
Os direitistas dente-de-leite poderão argumentar. Mas um dia serão desmascarados. Até porque eles não poderão ficar por muito tempo tentando desqualificar o argumento dos outros, impondo a "superioridade" do seu argumento em prol do estabelecido pela grande mídia.
Um dia só lhes sobrará a revolta. Mas, sendo ela impossível, só resta a esses reacionários chorarem, quando o outro Brasil do qual eles sentem "nojinho", trilhar o seu caminho.