segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

A VELHA MÍDIA E A DIREITIZAÇÃO DO "FUNK CARIOCA"


MC SAPÃO no jornal Extra, das Organizações Globo - O "funk carioca" é muito querido pelas corporações da velha grande mídia.

Por Alexandre Figueiredo

O alerta chegou até o Blog da Dilma, que reproduziu um texto deste blogue sobre a associação do diretor de Tropa de Elite 1 e 2, José Padilha, que recolocou nas rádios o "Rap das Armas" de MC Júnior & MC Leonardo (mas gravada também por MC Cidinho & MC Doca, do "Rap da Felicidade"), com o Instituto Millenium, espécie de "clube intelectual" que reúne o who is who da velha mídia e seus astros simpatizantes.

Agora é a vez da Rede Globo de Televisão anunciar que fará uma série sobre o "funk carioca", com argumento que será escrito por Paulo Lins, autor do livro Cidade de Deus e, portanto, integrante do mesmo meio "intelectual" de José Padilha e Guilherme Fiúza, este também ligado ao Instituto Millenium.

O "funk carioca" sinaliza sua preferência pela mídia direitista, e isso se torna explícito em vários episódios. O presidente da APAFUNK (Associação de Amigos e Profissionais do Funk), o mesmo MC Leonardo do "Rap das Armas", tem coluna no jornal Expresso, tablóide sensacionalista das Organizações Globo.

No entanto, as relações do "funk carioca" com a velha mídia não são recentes. Elas existem desde que o "pancadão" é "pancadão". Há cerca de dez anos atrás, as Organizações Globo e o Grupo Folha, juntos, fizeram toda uma campanha de popularização do "funk carioca", e foram justamente esses veículos das famiglias Marinho e Frias que criaram todo um discurso "socializante" em torno do ritmo.

Portanto, é do interesse da Globo e da Folha que o "funk carioca" seja hegemônico a pretexto de ser o "novo folclore brasileiro", dentro dos clichês de evocação do povo pobre que esconde todo um processo de controle social através da glamourização da pobreza.

INTELECTUALIDADE "COMPRADA"

A associação do "funk carioca" à velha mídia, que se torna cada vez mais evidente, põe em xeque toda a falsa impressão que a intelectualidade "de esquerda" - incluindo a esquerda mais frágil e a centro-direita infiltrada nos seus quadros - , que acreditava ver no "funk carioca" uma revolta popular que misturasse a Revolta de Canudos e a Semana de 1922 num novo contexto.

Até pouco tempo atrás, a intelectualidade era literalmente "comprada" pela indústria funqueira. Educadores chegaram a ovacionar os barões do "funk" quando estes diziam que o ritmo pode substituir o ensino de redação nas escolas. Vários blogueiros conhecidos, uns com colunas ou artigos na revista Fórum e Caros Amigos, também acreditaram tolamente no "poder social" do ritmo carioca.

Mas, em boa parte, essa pregação veio de gente ligada à própria mídia direitista. Mesmo Pedro Alexandre Sanches que, formalmente distante da Folha de São Paulo, continua defendendo o padrão ideológico-cultural do jornal dos Frias. É só ver quem defende o "funk carioca", de Nelson Motta (também ligado ao Instituto Millenium) até Rafinha Bastos, o troglodita lançado pelo CQC da TV Bandeirantes, para ver que o "pancadão" nada tem de esquerdista.

Enquanto o ritmo carioca, de forma mentirosa, dizia que sofria "discriminação das corporações da grande mídia", ele aparecia na maior delas, as Organizações Globo. Chegou-se a um ponto de que todo programa da TV Globo e todo veículo das Organizações Globo (da revista Quem Acontece ao canal Futura) tinha que fazer alguma propaganda do "funk carioca".

Até personagens foram criados, como a patricinha Raíssa, na novela América, e a dupla MC Ferrow & MC Deu Mal, do Casseta & Planeta. O quadro dos cassetas, aliás, mostrava dois funqueiros atrapalhados que serviam de gancho para a "superioridade artística" dos astros do "funk" convidados para as esquetes.

A própria Globo fez de tudo para empurrar o "funk carioca" para a classe média alta. Mesmo que seus diferentes veículos adotem imagens contraditórias, como o Multishow vendendo o "funk carioca" como se fosse "alternativo" e a rádio carioca Beat 98 FM vendê-lo como ritmo de grande sucesso.

GLAMOURIZAÇÃO DA POBREZA

O "funk carioca" é um engenhoso processo de controle social, na medida em que glamouriza a pobreza, traveste os valores morais baixos pelo pretexto da "liberdade popular" e promove a dominação social das classes pobres, sobretudo pela mídia e pelos empresários-DJs do "funk".

Essa dominação se dá através do mito do "orgulho de ser pobre" que se baseia na resignação do povo pela pobreza e a restrição das melhorias sociais a paliativos relacionados principalmente ao consumo. O sentido de "cidadania" é deturpado, concentrado no consumismo e feito para não representar ameaças aos privilégios das classes dominantes.

A campanha ideológica, além de manter o povo na miséria e no comportamento grotesco, defende valores retrógrados, sobretudo os que são relacionados ao machismo e à exploração da mulher como objeto. Há também, nos chamados "proibidões", alusões à criminalidade, à pornografia e às drogas.

FUNQUEIROS CONTRA A ESQUERDA E A REGULAÇÃO DA MÍDIA

Nos bastidores do "funk carioca", o que há é um grande desprezo de seus militantes, DJs e MCs com as esquerdas, vistas como "um bando de trouxas". Os comentários que se ouve dos funqueiros é que os esquerdistas são "radicais", ou às vezes são "crédulos", e mesmo o apoio tendencioso de alguns intelectuais ao ritmo não é visto de forma confiável pelos funqueiros.

Para o "funk carioca", a campanha de regulação da mídia seria um grande perigo, porque colocaria limites à sua expansão mercadológica e à difusão de seus valores. Oficialmente, os dirigentes funqueiros se dizem "favoráveis" à regulação da mídia, mas o "apoio" se baseia na crença de que o processo se limite à letra morta e não mexa um dedo sequer no padrão comercial dominante na velha mídia.

O falso apoio também se baseia na retórica que se diz "sempre favorável ao desenvolvimento da cidadania". Os funqueiros usam esse discurso para aliciar educadores e ativistas sociais. Mas essa retórica "pró-cidadania" não poderia mesmo ser verdadeira, porque a velha mídia, é que oferece maiores condições para a expansão do "funk carioca" no mercado.

INTENÇÃO É SÓ DE EXPANSÃO DO MERCADO

O "funk carioca" sabe que é a velha mídia direitista que lhes garante melhores condições de expansão mercadológica. Os defensores do ritmo não querem outra coisa, senão fortalecer seu mercado.

O discurso de "cidadania" não é mais do que uma estratégia de marketing e as esquerdas servem tão somente como um trampolim para o "funk" se passar por "ecumênico" e, assim que chega ao mainstream da grande mídia, deixam os esquerdistas de lado, como quem chuta uma pedra de um lado para outro da calçada. Com toda a vontade de fazer das páginas de Caros Amigos e Fórum seus papéis higiênicos, com exceção das que evocam o "funk" e toda a coluna do MC Leonardo.

Isso é muito lógico. Afinal, os DJs só querem isso. Ganhar mais dinheiro e ficar mais tempo em evidência. O esquerdismo lhes faria passar fome e nem sempre conseguir o que querem. A velha mídia, dotada de muito dinheiro, é que garante parcerias maiores. Por isso o "funk carioca", vendo a mina de ouro que a Rede Globo significa, aos poucos começa a dissolver o jogo duplo midiático e mostra de que lado está realmente.

MAURICINHOS E PATRICINHAS

O "funk carioca" já é tocado nas festinhas dos condomínios de luxo em várias partes do país. E pretende oficializar esse vínculo com os consumidores jovens da classe C com a série a ser organizada pela emissora dos irmãos Marinho.

Isso já mostra o quanto o "funk carioca" usa seu discurso "social" como mero marketing. Não se trata, realmente, de evocar as classes pobres, que na prática se tornam reféns do mercado funqueiro. Trata-se, sim, de usá-las como suporte para sua pregação ideológica para tentar comover a intelectualidade mais frágil, para assim garantir o crescimento de seu mercado.

DJS E EMPRESÁRIOS RIQUÍSSIMOS

Os DJs de "funk carioca", donos e sócios de equipes de som, já são há muito tempo pessoas riquíssimas, e há até quem diga que vários deles compraram fazendas, puxando o exemplo de nomes do brega-popularesco como o astro da axé-music Bell Marques (Chiclete Com Banana) e as duplas Zezé di Camargo & Luciano e Chitãozinho & Xororó, todos eles latifundiários.

Embora não haja uma investigação a respeito do assunto, é a fortuna dos empresários do "funk" que faz com que até mesmo MCs funqueiros obscuros façam turnês pela Europa, já que os DJs-empresários vivem nadando em dinheiro.

A riqueza deles também lhes dá maior poder, e vários deles são donos e tutores dos intérpretes de "funk carioca" que gravam seus discos. E há mesmo rumores de que muitas composições atribuídas a esses jovens ídolos do "funk" - sobretudo muitas popozudas - na verdade sejam composições dos próprios DJs que as empresariam.

"SOMZOOM" À CARIOCA

O "funk carioca" periga se tornar, no Sudeste e no Sul brasileiros, como uma espécie de "praga" equivalente à da axé-music na Bahia e ao forró-brega no Norte-Nordeste em geral. Ambos também usaram discurso "socializante" - que, no contexto deles, usava como pretexto o suposto preconceito sofrido no Sul e Sudeste - e alçaram seu crescimento mercadológico através do apoio da velha grande mídia local e, no âmbito nacional, pelos grupos Folha e Globo.

Era o mesmo discurso evocando à "expressão das classes pobres" feito para seduzir a intelectualidade e o público de classe média. E o resultado foi um mercado totalitário e predatório, com o claro patrocínio dos barões do entretenimento locais, que controlam casas noturnas e empresas de "talentos", além da associação com o latifúndio e com grandes indústrias de atacado e varejo e com os poderosos distribuidores de cerveja nos respectivos Estados.

O "funk" já faz "parcerias" com os "cartolas" do futebol carioca e paulista e com os contraventores que controlam boa parte das escolas de samba dos dois Estados. Com a aliança cada vez mais selada com as Organizações Globo, o ritmo favorecerá ainda mais o poderio econômico e político dos empresários-DJs funqueiros, que já possuem "braços" parlamentares no Rio de Janeiro e em Brasília.

NENHUM PROGRESSO SOCIAL

A retórica "socializante" do "funk carioca" tem cerca de dez anos. Desde então, a periferia, tão exaltada por esse discurso, foi a que menos foi beneficiada. O povo pobre se reduziu a uma massa de consumidores acostumada com o ritmo, e quando muito alguns desses pobres são recrutados para fazer o papel que os empresários-DJs lhes confiam fazer.

Mas toda a retórica, enriquecida pelos delírios teóricos e metodológicos da intelectualidade mais influente - sobretudo por parte do antropólogo Hermano Vianna, mas também através de Pedro Alexandre Sanches, Bia Abramo e da cantora Fernanda Abreu - , nada favoreceu o povo pobre, que na prática permaneceu a mesma.

Não houve progresso de cidadania nem as condições melhoraram, de forma definitiva. Se houve melhoras, nenhum militante do "funk", que, quando lhe interessa, se acha o paladino do progresso social e da cidadania plena, no entanto fez.

Pelo contrário, o que se viu, como no sábado retrasado, foi a selvageria com que frequentadores de um "baile funk" na Zona Leste de São Paulo reagiram a um ataque de mal súbito de um motorista estressado pelas pressões do tecnocrático sistema de ônibus de São Paulo.

Sem se interessar pelo drama do motorista, lincharam ele depois que o ônibus causou um acidente. Ainda depredaram o veículo e assaltaram alguns passageiros. Isso é que é a noção de "civilidade" que o "poder educativo" do "funk carioca" faz para a população.

Se o discurso do "funk" fosse realmente sério, o ritmo teria influído, sim, nas melhorias sociais e culturais da população. Seus DJs-empresários têm dinheiro de sobra para investir nisso. Mas, sendo o "funk carioca" definido pelas baixarias sonoras, pela mediocridade artística e pela pregação do grotesco, dá para perceber que esse discurso "socializante" não passou de conversa para intelectual dormir.

E agora, nossa intelectualidade "esquerdista" terá que aguentar ressoar nos seus ouvidos a vinheta: "Rede Globo...FUNK!!".

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