terça-feira, 13 de dezembro de 2011

"SHOW DA VIRADA": A "DIVERSIDADE CULTURAL", SEGUNDO A VELHA MÍDIA



Por Alexandre Figueiredo

Será o último baile do império brega-popularesco no Brasil? Não se sabe ainda, mas a hegemonia do brega-popularesco, já começando a sentir sinais de abalo, tem no Show da Virada da Rede Globo de Televisão seu último teste de força, depois de um ano que representou infortúnios para a maioria de seus ídolos, de doenças graves, desavenças pessoais até acidentes de trânsito.

O Show da Virada virá com o cardápio de sempre. Alguns nomes do chamado "pop rock" nacional, uns poucos semi-medalhões da MPB autêntica, e muitos, muitos ídolos neo-bregas para "animar o povão" (segundo pensam os barões da velha mídia). Será uma forma da velha mídia mostrar, mais uma vez, o que ela entende como "diversidade cultural".

Ultimamente, o brega-popularesco anda mesmo ensaiando uma aliança definitiva na grande mídia que sempre a criou e sustentou. Aparentemente as relações entre bregas, neo-bregas e a velha grande mídia estavam estremecidas, menos pela divergência de interesses do que pela má reputação que a velha mídia anda recebendo com as críticas severas recebidas pelos comentaristas políticos, conhecidos como "urubólogos" ou "calunistas".

Temendo sucumbir junto aos jornalistas da velha mídia, os brega-popularescos tentaram dar a falsa impressão de que nada tinham a ver com a velha mídia, que só estavam promovendo uma conspiração contra ela e que seu sucesso só se devia às "redes sociais" da Internet, tese "válida" até para ídolos que surgiram antes da Internet. Para todo o efeito, Waldick Soriano só começou a fazer sucesso na vida com o Twitter e o YouTube.

NÃO EXISTE O "OCUPAR VELHA MÍDIA" DO BREGA-POPULARESCO

Mas a tese hilária de "conspiração" não colou. Não existe o "Ocupar Velha Mídia" no brega-popularesco que, despolitizado e com fome de mercado, prefere se aliar à direita midiática do que receber cafuné da intelectualidade esquerdista mais frágil e passar fome. E, ao que tudo indica, em 2012 os neo-bregas mergulharão fundo na aliança com a velha grande mídia, literalmente abraçados às suas famiglias e seus astros.

Se o Instituto Millenium, do "politicamente incorreto" Leandro Narloch e do jornalista da Opus Dei, Carlos Alberto di Franco, já possui uma "embaixada do funk carioca", através de José Padilha, o cineasta que recolocou MC Leonardo nas paradas de sucesso, e os barões do entretenimento há muito encomendaram novamente uma personagem funqueira para uma novela da Rede Globo, então significa que o brega-popularesco nem de longe está discriminado pela grande mídia.

No fundo isso foi uma conversa para boi dormir. É porque a intelectualidade etnocêntrica, só ela, ouvia Tom Jobim, Chico Buarque e a MPB da Biscoito Fino Discos e se enjoou dela. Acha que o brega-popularesco é novidade porque essa intelectualidade nunca colocou um disco de Calcinha Preta, Art Popular e Tati Quebra-Barraco nas suas festas. Por isso acha que o brega-popularesco era "sem mídia", "discriminado", "injustiçado", "ignorado". Puro julgamento etnocêntrico.

Enquanto isso, a MPB que esses intelectuais ouviam era literalmente desconhecida do grande público. Se o grande Luiz Gonzaga, o histórico sanfoneiro, é desconhecido ou desprezível para o público pobre de hoje, é porque algo está errado. E qual nortista do "povão" que ouviu falar de João Donato e Billy Blanco?

MITO DA CAVERNA DE PLATÃO

Hoje, a intelectualidade etnocêntrica cinicamente diz que o povo pobre "quer mesmo" é Calcinha Preta, DJ Reginho, Psirico. Acham que isso está fora da mídia. Não está. Mas a própria intelectualidade foi tão educada pela televisão da época da ditadura - é só notar a faixa etária da maioria deles, nascida depois de 1961 e ainda criança diante da televisão do "milagre brasileiro" - acredita que sim, por dois motivos bem simples.

Primeiro, porque a mídia está tão introjetada nessa intelectualidade que esta não conhece os próprios limites da mídia, para ela a mídia é "o mundo", seus astros "a humanidade", o povo estereotipado por ela é "o verdadeiro povo".

Isso lembra o "mito da caverna" descrito há muitíssimo tempo pelo filósofo Platão. Nesse mito, as pessoas que se encontram prisioneiras numa caverna a veem como seu mundo e as sombras projetadas, a sua realidade. Se alguém sai dessa caverna e olha o mundo lá fora e regressa para comunicar aos demais sobre o que viu, esse alguém é desprezado ou até ameaçado.

Lembra muito a geração de intelectuais que passou a elogiar Waldick Soriano, Leandro Lehart, o "funk carioca", o tecnobrega. A "cultura" que esses intelectuais entendem é o da televisão paulista, a sua caverna, e o que ela transmitia eram as "sombras" desses intelectuais nela vistas.

Quem fosse pensar a cultura fora dos limites midiáticos que esses intelectuais "divinizados" acreditam era visto como "preconceituoso", "invejoso", "elitista", "moralista" ou então ameaçado com muitos palavrões e xingações.

O segundo motivo é que o brega-popularesco só é "novidade" para esses intelectuais. Eles estavam "cansados" de MPB, sobretudo com o humanismo de Chico Buarque, e esses intelectuais "de esquerda", cansados de tantos CPCs da UNE, tantas "patrulhas de esquerda", tantas "vanguardas populares revolucionárias", tantos Lamarcas e Marighellas.

E estavam tão "cansados" - no sentido "movimento Cansei" do termo - que decidiram dissolver em suas "paçocas" digestíveis ideias de Francis Fukuyama, Ali Kamel, Otávio Frias Filho e até Leandro Narloch (descontado o ódio deste aos nordestinos) e servi-los às esquerdas.

Na última hora, a intelectualidade etnocêntrica precisa cortejar Sérgio Ricardo e Geraldo Vandré, na esperança de vê-los abraçados a breganejos e "bregas de raiz". Em vão. Até porque os "bregas de raiz" e seus herdeiros neo-bregas (principalmente os "sertanejos", "pagodeiros" e funqueiros da geração anos 90) pouco estão lixando para a MPB autêntica, só a usam para se apropriar de seu repertório, sem qualquer intenção de resgatar antigos artistas.

E eles, há muito tidos erroneamente como "discriminados pela mídia", sempre receberam apoio dela. Mesmo quando quase estavam para romper a histórica aliança, na medida em que os ídolos neo-bregas tinham medo de naufragar junto com os "urubólogos".

Além disso, o "sertanejo" parece comandar a festa da velha mídia junto com o "funk carioca". E o Som Brasil de Zezé di Camargo & Luciano já lançou Gaby Amarantos em rede nacional. Os funqueiros "de raiz" apareceram semanas atrás nos Altas Horas na esperança de poderem se exibir, um dia, para as famílias que assistem ao Faustão.

E toda essa farra patrocinada com gosto pela Rede Globo, Folha de São Paulo, revista Caras, revista Contigo e até pelo Instituto Millenium e, quem sabe, com a Opus Dei esperançosa em acolher, no futuro, as popozudas de hoje.

A cafonice é a alma da velha mídia.

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