sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

"SERTANEJO PEGADOR" SÓ "RECICLA" O VELHO BREGA-POPULARESCO



Por Alexandre Figueiredo

O brega-popularesco nunca foi marcado pela verdadeira criatividade. O seu "valor criativo" era apenas um apelo publicitário travestido de "parecer etnográfico" de intelectuais etnocêntricos dotados de muita visibilidade e que incluem críticos musicais e cientistas sociais badalados pela mídia.

Para essa intelectualidade, o povo pobre (tido como "emissor" dessa pretensa "cultura", mas na verdade é mero receptor da mesma, ou, quando muito, "canal" entre os interesses do mercado e do consumidor de "sucessos populares") só é "criativo" quando "recria".

Para esses intelectuais, "sem preconceitos" mas muito preconceituosos, o povo pobre é "capaz" de recriar o que rola no rádio, enquanto é "incapaz" de fazer coisas melhores, até porque para esses "pensadores", fica feio surgir um novo Jackson do Pandeiro, um novo Zé Kéti, um novo Tonico e Tinoco mandando ver na música brasileira.

Daí a campanha pelo brega-popularesco, presente nos artigos de Pedro Alexandre Sanches mas também em altíssima cotação entre os colonistas "culturais" da velha grande mídia. Sob o pretexto de defender a tal "cultura das periferias", eles na verdade defendem apenas o establishment do mercado popularesco.

E se o brega-popularesco já deu o que tinha que dar em 2002, com a saturação total das tendências bregas e neo-bregas brasileiras, vigentes no establishment do entretenimento pelo menos desde os anos 70 e hegemônicos desde 1990.

Mas, depois que veio aquela choradeira de "vítimas do preconceito", que prolongou a hegemonia brega-popularesca e até a intensificou, sufocando a MPB autêntica que a cada dia perde seus espaços, então o brega-popularesco, sem ter o que fazer, teve que criar seus paliativos para enganar seus fãs e a intelectualidade em geral.

PÓS-BREGA

Esses paliativos se dão quando os medalhões bregas e neo-bregas, em sua maioria, passaram a gravar discos revivalistas disfarçados em "CDs/DVDs ao vivo", enquanto vendem a falsa imagem de "grandes criadores da nossa música" nas telas da Globo e nas páginas de Caras.

Estes são justamente aqueles medalhões do "pagode romântico", "sertanejo", axé-music da safra 1990-1997 ou outros ídolos dispersos (tipo Latino e Frank Aguiar) que, supostamente sofisticados, deitam na cama de seu sucesso regravando os mesmos sucessos antigos diante de frágeis novas músicas de trabalho, além da parasitagem dos sucessos mais manjados da MPB autêntica.

Mas outros paliativos vêm à tona, quando as tendências neo-bregas de outrora - que juntavam as tendências cafonas de 1964-1979 à "MPB burguesificada" de 1979-1988 - , ao se esgotarem, se converteram em derivados que só reciclavam seus elementos, numa combinação limitada que só varia em alguns aspectos.

Aí vieram os pós-bregas. Gente que não cria coisa alguma e só "remolda" as tendências bregas e neo-bregas sob novos rótulos. É dessa tendência o tecnobrega, o arrocha, a tchê music o "funk carioca" pós-2002, o forró-brega pós-Calcinha Preta e o "sertanejo universitário", entre outras tendências também ditas "universitárias".

Não mais se cria, apenas se costura uma tendência e outra. O tecnobrega junta o forró-brega com o brega de Odair José. O arrocha é uma versão eletrônica do brega de Amado Batista. A tchê music mistura elementos do breganejo e do sambrega com o apelo juvenil da axé-music. O forró-brega pós-Calcinha Preta e o "funk" pós-Bonde do Tigrão apenas revisitam os mesmos estilos com o apelo comportamental do É O Tchan.

E agora tem o "sertanejo pegação", derivado do tal "sertanejo universitário", que, no grosso, mistura o som "emo" com o breganejo da geração 1990-1997, e sua inauguração se deu com o dueto entre Fresno e Chitãozinho & Xororó. O dueto abriu caminho e mercado para nomes como Luan Santana e Victor & Léo, além de criar um nicho que favorece até a formação de duplinhas do gênero nos apartamentos de luxo das grandes cidades, sem precisar de diploma de graduação de ensino superior.

O "sertanejo pegação" já costura elementos do forró-brega, sambrega e "funk carioca". E, como o forró-brega, já começa a falar de "valores elevados" como o alcoolismo e a violência. Aliás, é no empréstimo de um sucesso do grupo de "neo-forró-brega" Garota Safada, "Eu Vou Zuar e Beber", que esse tema entra no cardápio do "sertanejo pegação".

Essa tendência do breganejo só tem como novidade a busca por novas reservas de mercado para o tal "sertanejo". Os ditos "universitários" já cobiçavam mercados que lhes eram hostis, como Rio de Janeiro e Porto Alegre (neste caso "ajudados" com uma mãozinha da tchê music), e o "sertanejo universitário" tinha até um ídolo carioca, João Gabriel, como prova desse fordismo-toyotismo musical.

Pois se os neo-bregas eram fordistas - reproduzidos em série - os pós-bregas, sem deixar a lógica-logística do fordismo (o que mostra que Henry Ford está mais presente na música brega do que qualquer modernista ou tropicalista), aderem à diversificação funcional do toyotismo, daí o "ecletismo" do tal "sertanejo pegação".

Pois este estilo, defendido pelos então meros concorrentes de Luan Santana, os cantores Michel Teló (que se lançou como um hype em Portugal, para voltar como outro hype no Brasil) e Gustavo Lima (já com um nome parecido com o de um cantor "universitário" de "pagode romântico", Gustavo Lins, que já "pegou" a MC Perlla uma vez), se vale na aliança com outras tendências para fins claramente de mercado.

Pois juntando o breganejo - já na sua vertente "universitária", ou seja, com a fusão com o emo - o "sertanejo pegação" investe no sambrega (Exaltasamba, sobretudo), forró-brega (Garota Safada, aliás um genérico do forró-brega pós-Calcinha Preta dos Aviões do Forró), "funk carioca" (da linha da "dança do quadrado") e axé-music (principalmente alimentado pelo dueto de Ivete Sangalo com Luan Santana).

Ou seja, nada se cria nesse "universo" sem criatividade. É tudo linha de montagem do mercadão popularesco. Apenas se embaralham as peças, e delas se faz mais do mesmo. São modismos travestidos de "cultura das periferias". E que não estão fora da velha grande mídia, mas, antes de mais nada, se encontram à vontade e felizes da vida dentro dela.

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