sábado, 31 de dezembro de 2011

RETROSPECTIVA 2011: CRISES ANUNCIADAS


MICHEL TELÓ - Cara nova para salvar fórmulas desgastadas.

Por Alexandre Figueiredo

2011 pode não ter sido um ano de mudanças consolidadas, mas em qualquer parte do mundo se anunciou o desgaste de alguma coisa. Pelo menos foi um ano em que crises foram anunciadas e várias delas já estão em andamento ou em consumação.

No exterior, foi um mundo em completa ebulição. O Wikileaks de Julian Assange fez estremecerem as autoridades que, até pouco tempo atrás, poderiam até confidenciar planos bélicos ou de espionagem. A crise do capitalismo na Europa e nos EUA fez muita gente ir às ruas, nas chamadas "ocupações" que, compondo as "primaveras estrangeiras", fizeram o ano se comparar a 1968, auge da Contracultura.

No Oriente Médio, as manifestações no Egito, na Tunísia e na Líbia mostraram que o povo queria mudanças e as reações contra a tirania de seus ditadores foram de protestos pacíficos e massivos. Mas a Otan meteu-se na Líbia e fuzilou o ditador Muammar Kadafi, em vez de prendê-lo para, ao menos, julgá-lo por crimes contra a humanidade.

Mesmo assim, há sinais de que o Oriente Médio quer mudanças e, no momento, o povo resiste mesmo pelo sacrifício da tragédia contra os arbítrios da Síria. E, para completar, já se sinaliza o projeto de criação de um estado palestino para breve.

CRISE DO PSDB AGRAVADA POR UM LIVRO-DENÚNCIA

No Brasil, a política se destaca pela crise, iniciada pela derrota eleitoral de José Serra em 2010, enfrentada pelos partidos PSDB, DEM e PPS. Os partidos perderam vários de seus membros, e, enquanto o PSDB vive o conflito interno entre seus líderes Serra, Geraldo Alckmin e Aécio Neves, o DEM vive um declínio dramático, que pode fazer o partido caminhar para a extinção. Em contrapartida, o conservadorismo político foi recauchutado pela "ressurreição" do PSD, nas mãos do prefeito paulistano Gilberto Kassab, ex-DEM.

A crise ainda foi agravada pela divulgação de informações sobre um grande esquema de corrupção envolvendo políticos do PSDB, seus amigos e familiares e o banqueiro Daniel Dantas, do Opportunity. O livro-denúncia de Amaury Ribeiro Jr. havia provocado a crise do PSDB apenas quando era uma promessa de lançamento, e, quando lançado, criou uma crise pior ainda, com reflexos na grande mídia que sempre apoiou os tucanos.

Pois a velha grande mídia reagiu ao lançamento do livro com um silêncio que causou barulho. Afinal, a omissão já denunciava a posição pró-PSDB da grande imprensa. Aos poucos, seus "urubólogos" davam o pio, entre eles o "imortal" da ABL, Merval Pereira, incomodado com o trabalho do seu ex-repórter Amaury.

Mas, pelo jeito, não é só a política que vive suas crises nas bases conservadoras. Tivemos também a lenta decadência do Big Brother Brasil (TV Globo), já que o BBB 11 teve o pior desempenho, em audiência, da história do programa. E houve também o comediante Rafinha Bastos, do CQC (TV Bandeirantes) fazendo comentários de mau gosto, um a favor de estupradores e outro em ofensa à gestante Wanessa Camargo. Acabou tendo má reputação.

A Rede TV! vive uma crise financeira e seu programa de maior sucesso, o Pânico na TV, também é atingido pela crise de audiência, pela inclusão no ranking da baixaria e na crise que atinge as musas "boazudas" que não poupou as "paniquetes". Estas, além disso, foram classificadas como "garotas de programa" (eufemismo para "prostitutas") pela ex-colega Dani Bolina e as demais se revoltaram.

A crise atingiu, aliás, o âmbito do brega-popularesco como um todo. Musas, periódicos, ídolos musicais, todo o âmbito da suposta "cultura popular" da velha mídia, ainda que continuem hegemônicos, já começam a sofrer sério desgaste.

E, para completar, a "bruxa" estava solta em vários ídolos popularescos: Alexandre Pires e Ivete Sangalo caíram doentes, Bruno & Marrone, Edson & Hudson e Zezé di Camargo & Luciano tiveram suas crises, Luan Santana e Mr. Catra escapam de acidentes e várias confusões e desastres aconteceram em 2011.

DESGASTE DO BREGA-POPULARESCO

Enquanto isso, a música brega-popularesca sofria um sério desgaste. A onda agora não era mais dos neo-bregas que "brincavam de MPB" e batiam ponto no Domingão do Faustão, mas de pós-bregas que apenas reciclavam, com pequenas alterações, o mesmo neo-brega de 1990-2002 que, com pequenas alterações, dava nos subprodutos que vieram a compor a geração pós-brega: tecnobrega, "sertanejo universitário", tchê music, arrocha e a fase atual do "funk carioca" e do "forró eletrônico" (ou forró-brega).

Aliás, para coroar a fase pós-brega, um ritmo foi escolhido para ser a síntese ou, talvez, o canto do cisne do brega-popularesco que não tem mais o que (re) inventar: o "sertanejo pegação", que, com roupagem breganeja, junta todos os elementos bregas, neo-bregas e pós-bregas possíveis, numa unificação desesperada de mercados em crise.

Seu maior ídolo, Michel Teló, foi escolhido diante do desgaste de Luan Santana (hoje um "dinossauro" diante da velocidade extrema dos modismos). No entanto, Michel Teló é tão somente uma cara nova a serviço das velhas fórmulas recicladas da Música de Cabresto Brasileira.

Através de Michel Teló, lançado como hype primeiro em Portugal - como estratégia de forjar uma "novidade" - , o "sertanejo pegação" permite que sambregas, breganejos, axézeiros e outros neo-bregas e pós-bregas possam entrar em mercados antes "difíceis", como o sambrega no Norte do país, o forró-brega em Porto Alegre, a axé-music em Florianópolis e o breganejo em Salvador.

Mas até esse "sertanejo pegação" já começa a ter gosto de velho. Afinal, como todo brega-popularesco, uma "cultura popular" com o gosto estragado da velha mídia, suas "novidades" envelhecem muito rápido, e em dois anos tudo já se torna muito velho. Não é à toa que seus ídolos, depois de uns três a cinco sucessos, praticamente só passam a gravar CDs/DVDs de "grandes sucessos", raramente lançando álbuns de estúdio com inéditas.

Por outro lado, o brega-popularesco sofre a blindagem dos intelectuais. Chamados de etnocêntricos, por verem o povo pobre de forma fantasiosa, eles até resistem na sua alta visibilidade que os faz ainda "divinizados", numa aparente unanimidade.

Mas, a partir de informações pesquisadas para este blogue, contradições diversas comprometem a reputação dessa intelectualidade, que certamente levaria bronca de gente como Umberto Eco, Noam Chomsky ou mesmo de veteranos brasileiros como Emir Sader e Venício A. de Lima. E mostram o quanto a intelectualidade pró-brega, embora se diga "sem preconceitos", tem preconceitos piores do que aqueles que diz combater.

Essas contradições põem em xeque o ativismo de nomes como Paulo César Araújo, MC Leonardo e sobretudo Pedro Alexandre Sanches, que parece ter achado uma boa ideia uma queixa que o colega Ricardo Alexandre fazia de músicos e internautas: "defender uma visão de direita com discurso de esquerda".

Mas Sanches não conseguiu provar que os "sucessos do povão" que tanto defendia estavam fora da mídia, já que a velha grande mídia os recebia de braços abertos. Da mesma forma, Sanches também se atrapalhou quando tentou explicar seu passado na Folha de São Paulo para os leitores de Caros Amigos, sem esclarecer direito se estava ou não a serviço do "higienismo" ideológico.

O "funk carioca" foi o que mais sofreu com as revelações deste blogue sobre a centro-direita cultural de que faz parte Sanches e companhia. Toda vez que se divulgava um texto associando o ritmo carioca à velha mídia, ninguém aparecia para desmentir, reinando um silêncio comparável ao da grande imprensa diante de A Privataria Tucana.

Nem mesmo a presença de José Padilha, o cineasta que "redescobriu" o "funk de raiz" (do qual fazia parte MC Leonardo, da APAFUNK), no mesmo Instituto Millenium de gente como Merval Pereira, Reinaldo Azevedo, Otávio Frias Filho e da igreja medieval Opus Dei, fez os funqueiros reclamarem da revelação, que praticamente coloca em xeque-mate o pretenso "esquerdismo" associado ingenuamente ao "funk carioca", por parte da intelectualidade média.

Enfim, 2011 é um ano sem muitas mudanças, mas com crises que fazem com que os "longos anos 90", neoliberais, anti-éticos e cafonas, comecem a perder terreno num mundo em transformação, de uma Europa em crise econômica, de um Brasil em evolução e de um Oriente Médio em transformação.

2012 promete surpreender. Mas vamos esperar o ano chegar para vermos como ele será.

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