sábado, 3 de dezembro de 2011

RENOMEAÇÃO DE RUAS FAZ PAULISTANO PERDER PARTE DE SUA HISTÓRIA



COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: a renomeação de ruas de São Paulo, em períodos de homenagens tendenciosas de figuras políticas, comprometeu seriamente a tradição cultural da cidade, quando ruas eram nomeadas segundo a serventia social e não pela bajulação política. A pesquisadora Alessandra Cirrincione fez um estudo sobre essas alterações, e comenta o caso em entrevista dada ao portal SPressoSP.

Renomeação de ruas fez paulistano perder parte da sua história

Em estudo sobre o Brás, Bexiga e Barra Funda, pesquisadora afirma que a escolha dos nomes de logradouros passou por cima do espontâneo e do popular, tornando-se objeto de manipulação política

Por Sâmia Gabriela Teixeira - do Portal SPressoSP - Reproduzido também no sítio da Revista Fórum

A linguista e pesquisadora da USP Alessandra Cirrincione publicou um estudo analisando as mudanças de nomenclatura que as ruas do Brás, Bexiga e Barra Funda sofreram durante o período republicano. Para ela, isso resultou em uma perda de parte do patrimônio cultural do paulistano, sendo que, atualmente, as escolhas dos vereadores se guiam em geral por “motivações de caráter político e econômico” que nem sempre respeita a tradição local.

Qual é a importância dos nomes das ruas da cidade de São Paulo como patrimônio cultural?

Alessandra Cirrincione – É importante por se tratar de elementos linguísticos e socioculturais da construção da identidade de um grupo étnico, que participa das mesmas origens, tradições e patrimônio cultural, que constitui a herança transmitida oralmente de geração em geração, de pai para filho. As denominações geográficas ou aquelas dos logradouros de uma cidade são um bem cultural intangível, construído ao longo de gerações, que engloba inúmeros aspectos linguísticos e histórico-culturais.

Qual é o impacto das mudanças dos nomes de logradouros antigos da cidade?

A. Cirrincione – É exatamente a perda de elementos do registro sócio-linguístico da comunidade. Os primeiros núcleos de portugueses, por exemplo, que se fixaram no Brás e no Bexiga/Bela Bela Vista, adotaram alguns hábitos dos nativos, a língua e a toponímia deles por razões de adaptação à nova terra, que envolvia sobrevivência e locomoção. Na época das bandeiras, os paulistanos caracterizavam-se por um estilo de vida peculiar, desvencilhado-se dos parâmetros comportamentais da pátria de origem, influenciado pela cultura indígena e direcionado à descoberta do sertão. O aparecimento de topônimos urbanos comemorativos da terra portuguesa (rua Coimbra, rua Luzitânia, rua Luis de Camões) remonta a épocas posteriores ao bandeirismo.

Os grupos de europeus residentes no Brás, no Bexiga/Bela Vista e Barra Funda nos séculos XVI, XVII e XVIII, empregaram o tupi (língua geral paulista) nas comunicações diárias, mas não fizeram dele o meio de construção do inventário toponímico que foi se formando aos poucos. No século XVIII, a toponímia tupi foi desaparecendo por efeito do desaparecimento da sociedade e da língua indígena. Os topônimos tupi remanescentes se configuram como língua cristalizada, termo empregado pelos toponimistas para definir denominações provenientes de línguas não mais faladas, que testemunham a existência ou simplesmente a passagem de grupos humanos no território.

Quando esta descaracterização teve mais força?

A. Cirrincione – No final dos Setecentos, quando houve um exacerbamento do processo de antroponimização, mas o fator principal e definitivo foi o papel do denominador republicano, que se caracteriza como agente político, dando ênfase a personagens importantes, perdendo a dimensão de mediador simbólico da realidade. Os vereadores da Primeira República, dispostos a homenagear personagens de relevo, esqueceram-se de homenagear os fundadores do bairro do Bexiga/Bela Vista: Mariano Vieira, José Leite Braga, Fernando de Albuquerque e Eugênia Pereira, viúva de Leite Braga, casada em segundas núpcias com Fernando de Albuquerque. É importante notar que no século XIX e nas primeiras décadas do XX desenvolveu-se uma nova forma de nomear. A acentuada tendência de homenagear ainda em vida “personalidades de importância” passou por cima do espontâneo e do popular no inventário toponímico do Brás, do Bexiga/Bela Vista e da Barra Funda, tornando-se a prática que pautou as motivações dos denominadores a partir da Proclamação da República e com o tempo foi se fortificando como objeto de manipulação política.

Como é o processo, hoje em dia, para nomear uma rua?

A. Cirrincione – A denominação dos logradouros é hoje competência específica das Câmaras Municipais. Em São Paulo, até o século XIX, as denominações eram espontâneas e de origem popular. Os habitantes denominavam as ruas e a Câmara simplesmente ratificava os nomes. A cidade era pequena e todos se conheciam. Alcântara Machado em Vida e Morte do Bandeirante, consultando Inventários e Testamentos, verificou que “nos processos mais remotos não se mencionava a situação exata do imóvel”. Os nomes das ruas não eram oficializados e edifícios religiosos e nomes de proprietários ou locatários da casa serviam de referência para a movimentação dos moradores da cidade. As ruas começaram a ser denominadas oficialmente apenas em 1809, após a chegada de D. João VI ao Brasil (1808), que exigiu o cumprimento de uma antiga lei nunca respeitada, relativa à arrecadação de impostos sobre os bens imóveis. Assim foi providenciada a numeração dos prédios e a inscrição nos locais públicos dos nomes pelos quais eram conhecidos. A escolha dos locativos passou então a ser de competência dos vereadores da prefeitura e, com o advento da República Velha, a nomeação das ruas adquiriu perfil comemorativo.

O nome é definido com algum cuidado de pesquisa sobre o local, sobre a história da região?

A. Cirrincione – Eu acredito que visto os resultados atuais, os vereadores há muito tempo só se deixam guiar (em função do papel da República que desestabilizou a toponímia dos 3 bairros que estudei) por razões político-econômicas de comemoração e perpetuação de nomes de personagens de relevo da comunidade de São Paulo. Considerando a nossa origem indígena, o ambiente natural era a fonte dos nomes próprios de pessoas e crianças. As mulheres recebiam nomes de pássaros, peixes e frutas, mantendo-os durante toda a infância e na idade adulta. A denominação de lugares é sempre função da motivação de um ou mais indivíduos que denominam os lugares. Portanto, parece-me que os nossos denominadores (vereadores) deixam-se guiar – como já disse – por motivações de caráter político e econômico, e a única motivação é a política ou a economia, ou melhor, a homenagem a pessoas. A lei, porém, é clara em propósito: hoje (ao contrário do tempo da República Velha) nenhum ser humano em vida pode ser homenageado com nome de rua.

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