quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

REDE GLOBO, "FUNK CARIOCA" E SEUS PROPAGANDISTAS



Por Alexandre Figueiredo

É muita ingenuidade alguém acreditar que o "funk carioca" invadiu a Rede Globo e esta se rendeu, vencida, à "força irresistível" desse ritmo.

Primeiro, porque as relações entre os funqueiros e os barões da grande mídia sempre foram muito boas. Segundo, porque a própria velha grande mídia sempre deu espaço para o "funk carioca", estando com as portas sempre abertas para receber seus ídolos.

Deixemos os mitos de lado e vamos para a realidade. A verdade é que a intelectualidade de esquerda acabou sendo enganada pela retórica "socializante" dos funqueiros, e toda aquela aparente unanimidade de intelectuais e educadores "progressistas", traída pelos funqueiros que foram logo cair nos braços dos Marinho e dos Frias, sugere que veículos como Caros Amigos, revista Fórum e Bahia de Fato possam, daqui em breve, expor sua mea culpa diante da credulidade àqueles que hoje rebolam até cair no chão nos pátios da velha mídia direitista.

A direitização do "funk carioca" está avançando. Ninguém deu ouvidos quando este blogue avisou, semanas atrás, que o "funk carioca" é o novo Cabo Anselmo. O desdém pela "baixa visibilidade" deste blog, no entanto, começa a se dissolver, na medida em que ganha sentido o alerta, mediante muitos fatores que comprovam o vínculo dos funqueiros com a velha mídia.

Até mesmo a gíria "é o caldeirão" tão conhecida no meio funqueiro provém de um programa da Rede Globo, o Caldeirão do Huck, apresentado em rede nacional por um Luciano Huck que recebeu, hospitaleiro, o Mr. Catra, pouco antes de uma repórter de Caros Amigos, talvez por pura ingenuidade, tenha escrito que o funqueiro seguia invisível aos olhos das corporações da grande mídia. Como, se ele aparecia, em rede nacional, diante de milhares de espectadores, na maior dessas corporações, as Organizações Globo?

O fortalecimento da campanha da Rede Globo com o "funk carioca", que agora culminará numa série a ser produzida, já é sinalizado pelo sucesso da personagem Solange, da novela Fina Estampa. E pode se estreitar cada vez mais, o que faz com que o lado do preconceito não esteja naqueles que não aprovam o ambicioso ritmo neo-brega brasileiro.

O lado do preconceito está em quem apoia o "funk carioca". Até porque muitos o apoiam sem ouvir, apenas lendo as pregações intelectuais que faziam associações surreais do ritmo a eventos históricos e culturais que nada tinham a ver com ele, nem mesmo indiretamente.

Afinal, não seria preconceito, também, a falta de noção da repórter de Caros Amigos de dizer que Mr. Catra estava fora da mídia, quando ele já estava bem dentro, nas entranhas da maior corporação da grande mídia, as Organizações Globo?

A direita cultural está mergulhando de cabeça no apoio ao "funk carioca". Até o evento Eu Amo Baile Funk, que promoveu o Rio Parada Funk no Largo da Carioca, dias atrás, tem como um dos responsáveis o neto de Ferreira Gullar - poeta concretista há tempos convertido em intelectual direitista - , Mateus Aragão, que deve ter aprendido os princípios da "livre iniciativa" funqueira.

No grosso, só veículos extremistas como a Veja e o Estadão não aderem por completo ao "funk". Mas a Globo e a Folha de São Paulo aderem abertamente, o que é suficiente para comprovar a olhos vistos a associação do ritmo ao olimpo grão-midiático dominante. E o próprio Instituto Millenium já faz o sol do seu logotipo sorrir para os funqueiros.

BRASILIDADE?

Talvez alguém possa explicar quem inventou mesmo o discurso "socializante" do "funk carioca". Quem bolou esse discurso e inventou essa estória de "preconceito" para convencer as pessoas que um ritmo sem muita criatividade "tem muito valor".

O discurso engenhoso em prol do "funk carioca" faz o ritmo parecer irmão mais novo de Fernando Collor, outro "mito" criado pela Globo e Folha (mas aí com a revista Veja participando). Mas, na verdade, o "funk de raiz" foi apadrinhado pelas mesmas rádios e pelos mesmos jornais "populares" que apoiaram apaixonadamente a eleição de Collor para a Presidência da República.

O "funk carioca" nem de longe representa a brasilidade cultural de nosso país. O ritmo também não representa aquela outra brasilidade revitalizada pelo processo que Oswald de Andrade define como "antropofagia cultural". Isso porque a via de assimilação dos elementos estrangeiros não é de baixo para cima, como na antropofagia, mas de cima para baixo, pela imposição midiática.

O próprio som do "funk carioca" não é muito diferente do miami bass da Florida, o Estado "latino" dos EUA. Se o "funk carioca" teve que moldar-se, foi pelo tendenciosismo, sobretudo de caráter turístico, afinal tinha que se vender como um "ritmo popular" para turista ver. A própria inclusão do "tamborzão", som de bateria eletrônica que imita batuques de candomblé, sinaliza essa necessidade puramente mercadológica.

O miami bass da Florida foi conhecido pelo seu esquema mafioso e pelos bastidores de arrepiar que nem é melhor mencionar aqui. E foi alimentado pelo jabaculê radiofônico que promovia cantores e grupos controlados com mãos-de-ferro pelos seus empresários, os verdadeiros chefões de toda uma cena.

No Rio de Janeiro, é certo que o aspecto mais lucrável, e nem sempre honesto, do miami bass, tinha que ser introduzido. Mas seus chefões foram mais espertos, comprando quase toda uma intelectualidade e uma mídia esquerdista para que estas não investigassem nem contestassem os funqueiros.

Obtido o apoio, os funqueiros apunhalam as esquerdas pelas costas e voltam para os braços da grande mídia. E vão relançar todo aquele marketing de contratar atores para fazerem propaganda do "funk carioca", dentro daquela "espontaneidade" que muitos viram nos atores que fizeram campanha contra a hidrelétrica de Belo Monte.

Aí estará a questão para a mídia progressista. Afinal, o "funk carioca" glamouriza a miséria e, a pretexto de defender a "cultura das periferias", deixa as periferias na mão, reduzidas, estas, a meras massas de manobra e consumismo do mercadão funqueiro, enriquecendo dia a dia os DJs que "humildemente" investem no ritmo.

EVITAR OS EFEITOS DA "PRIMAVERA ESTRANGEIRA"

O "funk carioca" está com tudo na agenda global - leia-se Organizações Globo - e isso tem um grande propósito para a velha grande mídia. É o de forjar um "movimento sócio-cultural" para que os efeitos dos verdadeiros movimentos sociais que varrem o mundo afora não sejam refletidos aqui.

O "funk", um mero entretenimento que não incomoda sequer uma mosca que sobrevoe os estúdios, redações e escritórios da velha grande mídia, é a opção certa dos barões da grande mídia para distrair o povo, seja ele das periferias ou da classe média engajada, diante da urgência que a "Primavera Estrangeira" - a "primavera árabe", o Ocupar Wall Street, as revoltas na Europa e as da Argentina e Chile - traz como ameaça à hegemonia do mercado.

Esse alerta não é percebido por muitos porque os próprios ideólogos do "funk carioca" criaram uma série de inverdades e mentiras, com uma pregação "positiva" que, mesmo com roupagem "científica" em monografias, documentários e outros recursos, elaborou uma abordagem confusa, que só tem um único sentido: o da persuasão publicitária.

Pois o "funk carioca" é isso: marketing, tão somente. Como criar um discurso intelectualóide para vender um produto. E, agora que as esquerdas estão sossegadas com essa propaganda enganosa, os funqueiros vão agora oficializar o casamento com a velha grande mídia.

Mas aí a intelectualidade esquerdista mais frágil verá horrorizada MC Leonardo, Mr. Catra, Valesca Popozuda e outros funqueiros abraçados a Luciano Huck, Otávio Frias Filho e, quiçá, da "galera irada" do Instituto Millenium.

É esperar para ver.

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