sábado, 10 de dezembro de 2011

QUANTO CUSTA UM "COITADINHO" MUSICAL?



Por Alexandre Figueiredo

Quanto custa reabilitar um ídolo brega-popularesco que, depois de lotar plateias, vender muitos discos e incrementar o êxito da mídia que o divulga, se desgasta naturalmente a ponto de estar ameaçado de entrar no ostracismo?

Eles são injustiçados? Não, até porque seu sucesso comercial lhes deu suficiente sucesso financeiro para que eles pudessem, pelo menos, aproveitar a grana e investir em negócios, por exemplo.

Eles são discriminados? Não, as plateias lotadas e o cartaz na grande mídia confirmam isso. A "discriminação" apenas vem de parte de uns poucos críticos e analistas que põem em xeque o valor artístico deste ídolo.

Realmente o valor artístico desses ídolos é muito duvidoso. E isso é, em parte, culpa dos próprios ídolos. Sobretudo quando se fala da geração de neo-bregas, os arremedos de pagodeiros e sertanejos que fizeram sucesso sobretudo entre 1990 e 1997.

Eles simplesmente ignoraram a MPB e qualquer preocupação de aprimoramento artístico quando começaram a fazer sucesso. Naquela época, eles esnobavam a MPB, dizendo que era "coisa de doutor" ou que "MPB não matava fome nem pagava as contas do mês". Ficavam isolados na sua breguice e nos seus sons "qualquer nota", sem medir escrúpulos de carregar na pieguice ou no grotesco.

Mas, quando veio a Internet e a possibilidade de difusão de novas informações, esses ídolos, com medo de serem passados para trás, mudaram a postura. Uns, oportunistas, passaram a dizer que "sempre gostaram muito de MPB". Outros, mais cínicos, diziam que "apenas faziam uma MPB diferente, com cheiro de povo". E, dessa forma, passaram a se apropriar, de uma forma ou de outra, do cancioneiro da Música Popular Brasileira e de seus intérpretes.

Sem convencer com essa apropriação, feita sobretudo com covers e duetos com medalhões de MPB, com breganejos gravando até Belchior e sambregas gravando até Flávio Venturini, os ídolos que não foram bem sucedidos na empreitada passaram a se posar de "coitadinhos".

É aquela choradeira: "fui vítima de preconceito", "sustentei a MPB com meus discos", "a MPB foi ingrata comigo", "batalho há mais de 25 anos", "passei fome no começo da carreira", todo um dramalhão que chega a destoar até mesmo do sucesso que tais ídolos acumularam no auge da carreira.

Chegam até a esquecer das vitórias que conseguiram, dentro dos limites da "cultura de massa" e, querendo ser levados a sério demais, preferem reclamar e lamentar em vez de agradecer pelo sucesso conquistado.

Aí, só tardiamente eles querem o reconhecimento pela mesma MPB que esses ídolos "populares" desprezaram. E não havia como desprezar, até porque a MPB tinha maior acesso às rádios "populares", nos anos 80 e 90, entre um Wando e um Fábio Jr. se inseria um Milton Nascimento, uma Gal Costa.

Por isso é que os "coitadinhos" musicais, isolados com muito orgulho da MPB quando faziam o maior sucesso, hoje não conseguem um crédito na Música Popular Brasileira. São "populares" porque lotam plateias, porque chamam mais público. Mas, artisticamente, são inexpressivos, porque não produziram algo que realmente acrescentasse à viva e rica cultura brasileira, antes a subtraíssem com diluições estereotipadas de cunho radiofônico.

Mas a intelectualidade dá cartaz a eles, e até dizem, com certa condescendência, que eles "também são MPB, sim", isso quando não forçam a barra dizendo que "são a verdadeira MPB" ou são "MPB com P maiúsculo" (mas, com toda a certeza, com "m" minúsculo).

E por que dá todo esse cartaz, quando a intelectualidade deveria zelar por valores culturais de verdade, e não pelos lotadores de plateias do passado (ainda que um passado recente)?

Simples. É porque esses ídolos custam dinheiro. São sustentados por empresários que controlam o entretenimento "popular" de nosso país, aliados ao latifúndio, às grandes redes regionais de atacados e varejo, às grandes empresas de "talentos", à indústria fonográfica local e às casas noturnas suburbanas e das cidades do interior.

ÍDOLOS MILIONÁRIOS

Geralmente um ídolo "coitadinho" do brega-popularesco foi o mesmo que movimentava, por cada fim de semana de apresentação ao vivo, o correspondente hoje a R$ 1 milhão em ingressos vendidos. Seus discos vendiam uma média mensal de R$ 9,5 milhões. Suas aparições na televisão garantiam à emissora, na pior das hipóteses, um terceiro lugar no Ibope e suas músicas são tocadas por rádios que estão entre as cinco mais ouvidas de sua região.

Soma-se tudo isso ao patrocínio que grandes empresas locais dão a esses ídolos, mesmo em eventos coletivos, como vaquejadas, micaretas e outros festivais e eventos. Isso faz com que esses ídolos nem de longe sejam considerados "independentes", "underground" ou coisa parecida.

Pensar que tais ídolos são "alternativos" ou "indie" é tapear a dor-de-cotovelo de certos críticos musicais - sempre o Pedro Alexandre Sanches, né? - de que no Norte, Nordeste e Centro-Oeste não havia, aparentemente, uma cena musical comparável a de São Paulo, que teve a MPB vanguardista da Lira Paulistana e o rock independente da Baratos Afins.

Os ídolos "coitadinhos" são mainstream e establishment de qualquer maneira, mesmo quando choramingam a situação atual de "abandono" pelo mercado. É porque eles nunca foram abandonados pelo mercado, embora a competitividade que envolve Alexandre Pires, Belo e Thiaguinho não ofereça espaço para Netinho de Paula, que migrou para a política, Vaguinho, que virou evangélico, e Leandro Lehart, que é o que investe na campanha do "coitado da hora", vendo o êxito que Waldick Soriano e os funqueiros tiveram na choradeira brega.

A própria pose de vítima é, na verdade, um marketing antecipado de ídolos que, vendo apenas uma ameaça ainda não concretizada de ostracismo, capricham no dramalhão pessoal para voltarem triunfantes ao sucesso. E chegam a usar a mídia de esquerda como trampolim para sua choradeira. Quando conseguem o que querem, deixam a mídia esquerdista de lado e voltam à velha mídia aos abraços e beijos nos Marinho, Frias e Civita.

A VERDADEIRA DISCRIMINAÇÃO

Mas os "coitados" musicais acabam mesmo é causando a discriminação aos verdadeiros artistas populares que não veem a luz do sol midiático raiar sobre eles. São músicos sambistas verdadeiros, que não saem dos morros e nem gostam da diluição feita pelo chamado "pagode romântico", que mais parece um pastiche de soul music tocado com instrumentos de samba. Ou são músicos caipiras autênticos que não gostam de ver a música rural brasileira empastelada por "mauricinhos" vestidos de caubói e que se acham o máximo só porque veem MTV.

Isso sem falar dos verdadeiros sanfoneiros hoje só lembrados como fenômenos sociológicos remanescentes. Ou então os músicos de rua que correm o risco até de perder as ruas onde tocam seus instrumentos. E isso sem falar de verdadeiros artistas que estão por trás de outros profissionais, como taxistas, dentistas, diaristas, jardineiros.

Eles não podem ser confundidos com os "artistas populares" apadrinhados por latifundiários, empresários do atacado e varejo e barões da grande mídia, nacional ou regional. Estes fazem apenas um simulacro de "cultura popular", baseado em estereótipos até mais caricatos do que aqueles atribuídos a pequenos-burgueses universitários quando fazem seus arremedos de ritmos populares.

E chega a ser estranha tanta choradeira desses ídolos brega-popularescos tidos como "vítimas de preconceito". É muito dramalhão para pouco drama. Eles não podem romper os limites de seu comercialismo musical, até porque, quando lhes convinha, era essa a sua posição.

Afinal, os "coitados" do brega-popularesco nunca quiseram saber de MPB quando começaram suas carreiras e fizeram seus primeiros sucessos. Nessa época, sempre viram a MPB como algo distante e alheio a eles.

Só recorreram à MPB quando viam que estavam em desvantagem, mas a verdade é que, bem antes desses ídolos acusarem a MPB de ter preconceito contra eles, eles é que tinham preconceito contra a MPB.

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