sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

QUANDO ALI KAMEL COME "PAÇOCA"



Por Alexandre Figueiredo

O que chama a atenção nos artigos de Pedro Alexandre Sanches sobre o brega-popularesco é, sabemos, a presença de muitos elementos do pensamento neoliberal brasileiro e estrangeiro, incluindo até mesmo o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que Sanches diz repudiar mas do qual se inspirou claramente na sua visão de "cultura popular".

Pois até mesmo o jornalista Ali Kamel, conhecido como "o senhor das trevas" das Organizações Globo, está de alguma forma presente nas influências teóricas do famoso crítico musical. Alguma dúvida? Vejamos então as comparações para entendermos melhor a coisa.

Ali Kamel tornou-se conhecido pelo polêmico livro Não Somos Racistas. Criticando a política de cotas para negros nas universidades, ele afirma que o racismo "não existe" no Brasil e que as questões raciais teriam sido "invenção" de cientistas sociais como Florestan Fernandes e um Fernando Henrique Cardoso pré-neoliberal.

Através desse ponto de vista, Ali Kamel tenta esconder a sujeira debaixo do tapete, embora admita que a "pobreza" é o "problema maior do país". Mas tenta dar a impressão de que o país é uma "democracia racial" e, com isso, tenta nos fazer esquecer das inúmeras questões e problemas que os negros e pobres sofrem no cotidiano.

Pois, se "não somos racistas", também "não somos bregas", "não somos medíocres" e "não somos atrasados". Fazendo um paralelo à questão de Ali Kamel, Pedro Alexandre Sanches também quer ignorar os problemas acerca da cultura popular, ultimamente escravizada pelo mercado brega-popularesco.

No último domingo pude, dentro de um ônibus, na volta de uma visita a meus tios na Baixada Fluminense, que carros que tocavam "funk carioca" chegavam a mostrar,nas vinhetas dos CDs, o número do telefone de contato da equipe de som, o que mostra o caráter eminentemente empresarial do negócio.

Algo que ocorre também com o forró-brega. O que prova que essa "cultura verdadeiramente popular" não é mais do que um empreendimento de pessoas que já constituem em elites oligárquicas que trabalham com o entretenimento em todo o país.

Em todos os estilos brega-popularescos, a mediocridade é reinante. Ouvindo os discos, nota-se isso, no canto, nos arranjos, nas letras, e tudo o mais. Mas não podemos discutir questões estéticas, afinal "não somos medíocres".

Tudo isso é "genial", como o "paraíso racial" imaginado por Ali Kamel, artífice de um Brasil ficcional servido para as multidões através da Rede Globo de Televisão, inclusive Jornal Nacional e Fantástico.

Kamel liberou espaços para o "funk carioca", para o forró-brega, para os "sertanejos" e "pagodeiros" de proveta - mas que "brincam de fazer MPB" nos palcos do Domingão do Faustão - e até para o tecnobrega tão querido por Pedro Sanches que entrou no Jornal da Globo abençoado por Kamel, William Waack e de um Nelson Motta convertido em cavaleiro do Instituto Millenium.

Se "não somos racistas", "não somos domesticados pela mídia". O povo pobre "não é infantilizado", o brega "não é caricatura", e assim colocamos o debate público por debaixo do tapete.

O cidadão comum não pode discutir questões estéticas e as grandes questões políticas do país só podem ser discutidas privativamente por "alguns" blogueiros ou por políticos e sindicalistas, enquanto a população é "aconselhada" pela intelectualidade "divinizada" a apenas dançar infantilmente o "pagodão", o "pancadão", o tecnobrega, o brega etc, sendo induzida a acreditar que esse lero-lero lúdico-consumista é "ativismo social" ou "revolução sócio-cultural" do país.

Lamentável o "positivo" preconceito sócio-cultural das elites intelectuais, sejam elas claramente conservadoras, sejam outras pretensamente "progressistas".

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