segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

PORTAL TERRA DISTORCE NO TÍTULO SENTIDO DE EXPERIÊNCIA CIENTÍFICA



Por Alexandre Figueiredo

O Portal Terra, através de sua sessão sobre ciência, distorceu o sentido da reportagem da Agência France Presse sobre uma experiência com peixes numa universidade norte-americana.

Precipitado, o portal permitiu que um tradutor intitulasse a reportagem como "Estudo com peixes aponta que 'alienados' favorecem a democracia", sem observar que a experiência não está necessariamente ligada à influência das decisões dos "desinformados" numa democracia. O título soou mais "publicitário" que informativo, distorcendo o sentido do artigo da agência noticiosa.

Recentemente, foi divulgado o resultado de uma experiência com peixes feita por cientistas da Universidade de Princeton, em Nova Jersey (EUA), comandados pelo escocês Iain Couzin, que demostra que indivíduos considerados "desinformados" podem influir nas decisões de um grupo.

Os pesquisadores realizaram a experiência com peixes da espécie carpas douradas (Notemigonus crysoleucas), treinados para um teste com prêmios de comida. Um grupo foi treinado para dar preferência à isca colocada num invólucro de cor azul, e outro grupo, em menor quantidade, foi treinado para preferir o invólucro de cor amarela.

A equipe viu nesta espécie de peixes uma oportunidade de testar psicologicamente os efeitos psicológicos com animais, numa alternativa a ratos e macacos. Isso se deu principalmente pela facilidade de treinamento dos peixes, que permitiu a execução do teste em questão.

Ao juntarem os dois grupos, os cientistas perceberam que a minoria influía no poder de decisão, optando pela cor amarela. A minoria teria influído mais por ter maior carga emocional na sua escolha.

Mas o resultado acabou mudando quando foram incluídos peixes da mesma espécie que não receberam qualquer treinamento. Neste caso, a interferência deste grupo fez com que a maioria optasse pela cor azul, neutralizando as decisões da minoria.

POSSÍVEL CRÍTICA À TECNOCRACIA

Depois de cálculos matemáticos no computador e de comparações com o comportamento da espécie humana, os cientistas concluíram que pessoas consideradas desinformadas ou não-especializadas poderiam, assim, dar o voto influente para a maioria da população.

Num certo sentido, isso pode representar uma crítica à tecnocracia, já que a decisão das elites tecnocráticas, mesmo num contexto de forte oposição, acaba muitas vezes prevalecendo, não como experiência necessariamente bem-sucedida, mas que vale pelo teor de poder do grupo minoritário, dotado de forte teor emocional (a ânsia de que seus pareceres técnicos sejam vistos como "a verdade", por mais que fracassem).

Daí a crise que vemos na busologia fluminense, onde a decisão, minoritária, de autoridades, tecnocratas e empresários fez com que a inesperada e incômoda padronização visual dos ônibus cariocas acabou prevalecendo, mesmo com seus transtornos que prenunciam seu fracasso.

Mas a "padronização" prevalece pela adesão tendenciosa dos busólogos - um grupo especializado - motivados pelo "grande otimismo" dos tecnocratas que lançaram a medida. Só que, se houvesse a consulta popular, dos "desinformados", como os diversos extratos das classes populares, a decisão da minoria de tecnocratas teria sido neutralizada e vetada.

Daí a decisão de padronizar visualmente os ônibus ter sido feita sem qualquer consulta popular, através de votação secreta na Assembleia Legislativa por políticos partidários do prefeito carioca Eduardo Paes, famoso por suas medidas antipopulares.

RELATIVIZANDO

O Portal Terra errou porque, em que pese a pertinência de sentido dos parágrafos acima, a situação nem sempre se relaciona com a democracia, devendo relativizar a possibilidade conforme o contexto, em vez de dizer que os "alienados" favorecem a democracia. Eles podem favorecer, como poderiam no caso acima citado, mas nem sempre isso é assim.

Como na hipótese de grupos de extrema-direita se ascenderem ao poder e que interferem numa polarização política entre direita tradicional e centro-direita flexível, ou entre centro-direita e centro-esquerda.

Outro problema é definir em que sentido alguém é "alienado" ou "desinformado". O caso não seria analisar em que perspectiva alguém está informado ou desinformado de alguma coisa?

Os tecnocratas podem ser especializados em cálculos matemáticos, mas são alienados, muitas vezes, em relação ao interesse público. Por outro lado, há muita gente nas classes pobres que possui uma vivência que as elites não possuem.

No brega-popularesco, uma minoria de executivos que impõe um ritmo ou estilo é especializada em publicidade, e uma minoria de intelectuais que defende seus ídolos é dotada de muita visibilidade e um forte apelo emocional para influir na opinião pública.

Mas eles são alienados, no sentido do que realmente é a cultura popular e do que são as reais vivências do povo que eles entendem ser "das periferias". Sua especialização é meramente livresca-televisiva, sem a informação do que realmente vive a população pobre de cada região.

CAUTELA

É preciso também ter muita cautela com as interpretações. Afinal, dizer tão somente que um alienado favorece a democracia pode permitir que incompetentes prevaleçam na decisão da maioria, simplesmente porque desconhecem o assunto.

Daí mais um equívoco provocado pelo portal Terra, o que pode criar uma euforia ao seu público médio, que já se serve, na sessão de diversão do mesmo portal, de notícias tolas envolvendo ídolos brega-popularescos e também notícias mal redigidas que investem sem necessidade em metáforas, como no caso de títulos como "Chiclete incendeia plateia em show no Nordeste".

Portanto, a descoberta científica deve ser interpretada com cautela para que evitemos transformar a verdadeira democracia num triunfo da burrice e da estupidez. Até porque a burrice e a estupidez, num outro sentido, favorecem, sim, a decisão das minorias, quando a condição permite a supremacia de decisões elitistas e dominadoras.

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