quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

A PERIFERIA DE CONTOS-DE-FADAS


O PROGRAMA ESQUENTA, QUE RECEBEU ATÉ FHC, APOSTA NA IMAGEM ESTEREOTIPADA DO POVO POBRE.

Por Alexandre Figueiredo

A intelectualidade "sem preconceitos" é bastante preconceituosa. Nunca viu pessoalmente, de fato e com atenção, um subúrbio na vida. Vivem nos seus apartamentos confortáveis, embora se achem os juízes maiores das classes populares, só porque usam muito a Internet ou pesquisam para trabalhos acadêmicos ou artigos de imprensa.

No entanto, é essa intelectualidade que aposta numa periferia de contos-de-fadas. Tentam tirar o corpo fora, juram que "abominam" a domesticação sócio-cultural e a infantilização do povo pobre, acham que "não idealizam" a cultura popular e apostam na cultura das classes populares em "seu estado puro".

Mas tudo isso são apenas balelas. O que eles fazem é exatamente aquilo que tentam não assumir no discurso. Defendem o "deus mercado" que eles matam no lide e ressuscitam no sublide de seus textos. Defendem ídolos e referenciais que, na verdade, simbolizam, sim, a domesticação sócio-cultural, a infantilização, a mediocridade.

A argumentação engenhosa, persuasiva e apelativa, não obstante chorosa, desses intelectuais pode até seduzir setores médios da opinião pública e transformar seus pontos de vista em aparente unanimidade. Mas ela não consegue esconder suas inúmeras falhas, suas gritantes contradições.

Essas contradições vão desde a postura ideológica - visões ditas "de esquerda" mas dotadas de ideias claramente afins ao pensamento neoliberal mais conservador - até mesmo à forma como as populações pobres são mostradas.

Certamente a intelligentzia brasileira sente um forte desdém pela crítica dos intelectuais europeus à "indústria do espetáculo", e aqui essa mesma "indústria" é servida de uma forma romântica, apologista, condescendente e sentimentalóide por aqueles que deveriam usar seu poder formador de opinião para trazer algum questionamento.

Pois o que vemos é o contraste entre a periferia que existe na realidade, e que inexiste nas abordagens intelectuais dominantes sobre "cultura popular", e justamente a "periferia" usada nessas abordagens, uma periferia de contos-de-fadas, uma Disneylândia do grotesco.

É uma periferia "boboalegre", "sorridente demais", que serve para o deleite esnobe e politicamente correto da intelectualidade de classe média alta. Esta, que se diz "sem preconceitos" e diz combater os "preconceitos" dos outros, na verdade estabelece seus próprios e gravíssimos preconceitos, porque para essa intelectualidade, o povo tem que se manter domesticado, sim, e deve se comportar de maneira infantilizada.

Claro que tentam desconversar, dizendo "não é bem assim". Tentam dizer que "odeiam" a domesticação e infantilização do povo pobre, mas na verdade é isso que querem. O povo pobre, para esses intelectuais, só pode desempenhar seu papel de bobos-da-corte da classe média alta que assiste à televisão, com sua imagem "exótica" e "festiva".

O maior preconceito oculto nessa intelectualidade "sem preconceitos" é que, para ela, o povo pobre só tem sentido quando faz seu entretenimento alegremente, indo obedientemente ao galpão de mega-eventos mais próximo para consumir os ídolos das FMs e da TV aberta.

Se o povo deixa de cumprir esse papel "simpático" e "admirável" e passa a fazer protestos pedindo coisas que vão desde uma passarela numa rodovia até a reforma agrária, causando engarrafamentos para chamar a atenção (porque, de outra forma, isso seria impossível, ante o descaso das autoridades), a intelectualidade não gosta.

E aí, vemos cientistas sociais e críticos musicais adeptos do brega-popularesco despejando a pior urubologia. "Ah, não, passeata de sem-terra? A polícia devia prender esses desocupados!", diz a cientista social "de esquerda" que outrora havia expresso seus amores à "periferia do funk". "Cara, povo pobre pedindo reforma agrária é muito chato", diz outro intelectual de "ideias esquerdistas" que pouco antes havia comparado o forró-brega a um misto de Revolta de Canudos com Revolução Cubana.

Até quando essa intelectualidade vai exercer sua hegemonia na opinião pública, endeusada ao máximo por seus pares e tida como pretensamente "progressista", não se sabe. Mas certamente a população pobre que eles só conhecem "a fundo" através de documentários estrangeiros (provavelmente mais esclarecidos sobre a pobreza popular que muito "pensador" metido a bacana neste Brasil) vai muito aquém dessa imagem "generosa" que tem muito de idealizada, sim.

Isso porque, na periferia fantasiosa, a Disneylândia do grotesco, a mcdonaldização da cultura brasileira, não aparecem problemas habitacionais, desemprego, violência, deslizamentos de terra, nem mesmo os incêndios que devoram favelas inteiras.

Na periferia de mentirinha da intelectualidade "divinizada", o que aparece é uma "favela" promovida a "arquitetura pós-moderna", numa verdadeira zombaria àqueles que, na falta de uma habitação, improvisam casas em qualquer lugar (mesmo os arriscados) por falta de dinheiro para alugar uma residência.

Na periferia de mentirinha o povo é despolitizado, mesmo quando é "politizado" pelas manobras midiáticas. O "Rap da Felicidade" mais parece hino do ufanismo brasileiro, até porque faz apologia da pobreza.

Mas só o pobre da periferia de mentirinha quer ser reconhecido pelo "direito de ser pobre". O pobre da vida real quer superar sua pobreza, quer ter Educação de qualidade e não somente tomar água de coco em Copacabana e entrar no Barra Shopping de bermudão sujo e chinelos.

Por isso devemos contestar essa intelectualidade "sem preconceitos" e sua pretensa unanimidade, porque esses "pensadores" não estão a serviço da verdadeira cultura popular, e sim a serviço de um mercado que representa o braço "cultural" da mesma ditadura midiática que tal intelectualidade finge combater.

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