domingo, 4 de dezembro de 2011

OS "ALI KAMEL" DE BOTEQUIM



Por Alexandre Figueiredo

"Luan Santana morto a tiros". "Fátima (Bernardes) abandona (William) Bonner e vai fazer programa". As duas pegadinhas, de um certo mau gosto, poderiam passar por humorismo se seus veículos fossem pelo menos desse gênero.

Mas, pasmem, nas classes D e E também rola "jornalismo de esgoto". E, embora, na hora do aperto, o jornal Meia Hora se autoproclame "jornal de humor", oficialmente ele é anunciado no mercado como um "jornal sério", voltado ao "noticiário investigativo". Isso está claro no filão que tais periódicos se apresentam para os anunciantes.

Só que, mesmo quando se considera um jornal desses como "um periódico de humor", ele se equipara não a periódicos de fina inteligência como o Pasquim e a Última Hora, mas ao pior de nosso humorístico atual, sobretudo o igualmente cínico CQC (TV Bandeirantes).

As duas notas mostram o quanto o sensacionalismo da velha mídia, definido por José Arbex Jr. como showrnalismo, atropela o seu dever de informar bem, principalmente para uma população pobre carente de escolaridade e informação, principalmente de qualidade.

Pois a primeira nota se refere não ao falecimento de um jovem cantor breganejo, mas a um xará dele assassinado no interior do Paraná. E a segunda nota não se refere a um divórcio de um casal de jornalistas nem ao refúgio de uma charmosa jornalista à prostituição, mas às já bem divulgadas mudanças no telejornalismo da Rede Globo, quando Fátima Bernardes deixa de apresentar o Jornal Nacional com o marido - que, na bancada, fará dobradinha com Patrícia Poeta - para comandar um programa de entrevistas.

Aliás, sabe-se, desde ontem, que esse programa poderá ser nos moldes que, até pouco tempo atrás, a apresentadora Oprah Winfrey fazia na televisão norte-americana, retransmitido em vários países do mundo, inclusive o Brasil.

Infelizmente, o jornalixo para as classes D e E é deixado passar por uma intelectualidade permissiva e preconceituosa, por mais que se autocelebre "sem preconceitos". Porque os abusos da mídia, para essa intelectualidade, só são condenados quando estão diante dos salões de estar da classe média alta, seja Gisele Bündchen bancando a mulher-objeto e José Luiz Datena exibindo carnificina na tevê.

Mas, do lado de baixo, a "urubologia" corre solta, mas como tudo é "alegria", tudo é "espetáculo", deixa-se passar. As "popozudas" fazem coisas piores do que os "micos" de Gisele Bündchen e ninguém fala. Pelo contrário: a intelectualidade "sem preconceitos" acha isso divertido e até a burrice das mulheres-frutas é algo "admirável" e "lindo de se ver".

Pois para essa intelectualidade, que cada vez mostra seus preconceitos de classe, o povo pobre é "maravilhoso" quando cumpre seu papel de bobo-da-corte da burguesia. Aí, tudo é "lindo", é a "cultura da periferia", mas o que está por trás disso é um perverso processo de manipulação e controle social que permite o sossego burguês dessa intelectualidade que se diz "progressista" e "altruísta", mas não passa de um ninho de filhotes da "urubologia" da velha mídia.

Na imprensa dita "popular", também há os equivalentes de Ali Kamel, os "Ali Kamel de botequim", que por serem bons de papo não são criticados de forma devida. Portadores dos mesmos preconceitos de Ali Kamel, Bóris Casoy e Otávio Frias Filho, eles no entanto controlam as rédeas das rações informativas fornecidas para as classes pobres, sem qualquer desconfiança da intelectualidade tida como influente em nosso país.

Imagino até esses jornalistas de Meia-Hora, Supernotícia, Massa e outros veículos do "jornalixo" popularesco conversarem sobre o povo nas rodas de botequim, com chope a rodízio.

- Cara, você sabe que o povinho é assim mesmo, só quer sangue, escândalo e bunda? - diz o editor um.

- Pois é, povo é muito burro mesmo. Só quer baixaria mesmo. A gente botou uma notícia sobre a sogra que nasceu com bilau enorme...

- Tudo mentira.

- ...pois é, e aí o jornal vendeu que nem água mineral em terminal de ônibus. A gente depois faz pega uma vagabunda para tirar foto com o bumbum em close, a gente dá um photoshop para aumentar a coisa e aí a gente joga ela na primeira página do jornal e pronto. Vai vender como bala de padaria!

- E os intelectuais, não vão chiar não?

- Que... Já sou amigo de vários deles. Pago chope todo mês para antropólogo achar que a gente faz jornalismo pós-moderno. Os caras até nos compararam com o Pasquim, que é muito caviar para nossa dobradinha...

- Pô, se até eles são muito trouxas para ver que nosso jornalismo é coisa fina, então nós 'tamos ricos.

- Até eles compram nosso jornal. A gente põe qualquer baixaria, não tem ética, não tem princípios, a gente joga toda m... no jornal que todo mundo compra. Até doutor.

Ah, mas não existe "jornalismo de esgoto" nas classes D e E. Jornalixo é privilégio de classe média alta, grande mídia só é aquela que tem escritório na Avenida Paulista e, quiçá, algum outro em Nova York. Na periferia, tudo é o paraíso dos paraísos, acredita a intelectualidade "divinizada" de totens intocáveis.

Mas é justamente para um povo de pouco poder aquisitivo e baixa escolaridade que são lançadas as piores manipulações da velha mídia. Tudo parece "positivo", "divertido" e "alegre", mas a estupidez, a cafonice, a baixaria e a grosseria explícitas se expressam de forma que não cabe fazer relativismos. Isso não é a "cultura de alto nível das periferias". É a manobra das elites para promover a imbecilização sócio-cultural das classes populares.

Mas essa é a intelectualidade "cultural" que domina nosso país e se infiltra até na mídia esquerdista. E temos os Ali Kamel de botequim, a promover cinicamente o grotesco como se grotesco não fosse.

E, assim como Ali Kamel disse "não somos racistas" para acobertar os problemas raciais ainda existentes, como um médico que quer ocultar uma doença em vez de diagnosticá-la e tratá-la, temos uma intelectualidade que, acobertando a imbecilização sócio-cultural de nosso país, tenta dizer que "não somos grotescos", "não somos cafonas" e "não somos alienados".

E ainda por cima esses intelectuais se acham no direito de nos acusar de "preconceituosos".

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