domingo, 4 de dezembro de 2011

O "PENSAMENTO ÚNICO" NA CULTURA BRASILEIRA



Por Alexandre Figueiredo

A intelectualidade etnocêntrica e os arautos da direita cultural que juram de pés juntos que "também são intelectuais de esquerda" usam as páginas de Caros Amigos e da revista Fórum como se estivessem escrevendo para os leitores da Folha de São Paulo, Caras, Época e Veja.

O pensamento único da direita cultural havia encontrado brechas que a intelectualidade esquerdista, sem definir mesmo o que é uma cultura popular de esquerda - parece que esqueceram que um dia existiram os CPCs da UNE - , deixou em seu pensamento. E aí a cultura de direita se fantasiou de esquerdista para enganar a esquerda menos crítica direitinho, ou melhor, "esquerdinho".

Os barões do entretenimento que estão por trás do "funk carioca", do tecnobrega, da axé-music e outros estilos brega-popularescos, nem estão aí para defender a regulação da mídia. Na verdade, a repudiam como repudiam gente como William Waack e Reinaldo Azevedo, por exemplo. O discurso desses donos da diversão popular nem de longe contraria os interesses da grande mídia, e não só isso é verdade como o discurso chega mesmo a coincidir com o que pensa a velha mídia.

Que diferença faz Pedro Alexandre Sanches escrevendo para Fórum e Caros Amigos (e, como mero colaborador, em Carta Capital), com o que Caetano Veloso escreve para O Globo? Nenhuma. Sanches deixa claro que o tropicalista inspirou claramente seu estilo de escrever. E, tal qual Caetano no passado, Sanches também vive seus dias de "semi-deus" da intelectualidade média brasileira.

Mas isso envolve quase toda a intelectualidade etnocêntrica, uns ingenuamente esquerdistas - mas não o suficiente para desconfiarem quando um dirigente funqueiro diz mil maravilhas do "funk carioca" - , outros envergonhadamente direitistas. E todos eles a serviço da ditadura midiática que fingem querer derrubar.

Esse "pensamento único", cheio de muitos referenciais do pensamento de direita, mais parecem próximos das palestras "sacerdotais" do Instituto Millenium do que dos debates abertos do Fórum Social Mundial, por exemplo.

É o pensamento de que a cultura brasileira só será salva com sua submissão ao "deus mercado". Mas esse pensamento não se expressa claramente, ele precisa ser nebuloso para parecer convincente conforme as circunstâncias. Por isso exalta-se o brega-popularesco enquanto se mente que essa pseudo-cultura "popular" não tem a ver com os ditames do mercado mais voraz.

Uma "cultura meio brasileira", feita para não assustar o "povão" que assiste passivamente aos enlatados da televisão, sem uma musicalidade forte mas apenas com "linhas de montagem" musicais, para que os ídolos bregas e neo-bregas possam se moldar ao gosto do freguês, parecendo ridiculamente cafonas no começo da carreira para depois fazerem de conta que são "também grandes nomes da MPB".

A intelectualidade etnocêntrica sai em defesa desses ídolos porque ela também está atrelada ao mercado. Ela precisa de visibilidade, ganhar passagens grátis, com todas as despesas pagas, para qualquer evento cultural ou mesmo pseudo-cultural ocorrendo no Brasil.

Pode ser um evento respeitável como o PercPan de Salvador, Recife ou São Paulo, como pode ser um evento canhestro como o Salvador Fest ou o Festival de Barretos, como também pode ser um "meio-termo", um evento que mistura alhos com bugalhos que é o RecBeat, também em Recife.

A intelectualidade "divinizada", santificada pelos seus amiguinhos, também entrou na era do jabaculê, e a direita cultural que comanda esta festa ainda estufa o peito para dizer que é "de esquerda" só porque seu discurso é aparentemente positivo em relação às classes populares.

Mas esse discurso só é positivo pela forma. Ele é sentimentalóide demais para ser realmente solidário ao povo, como é dotado de certas "urubologias" quando nos atrevemos a ver irregularidades nos fenômenos musicais "populares" que dominam o mercadão brega-popularesco.

Aí eles nos chamam de "preconceituosos" e "elitistas", entre outras acusações. Eles é que sabem de tudo, eles é que julgam a verdade, eles é que "não" idealizam, "não" fantasiam a cultura, "não" estereotipam nem deturpam.

Eles até alternam comentários sobre MPB autêntica e brega-popularesco. De repente eles passam a só falar de MPB autêntica. Até mesmo nomes difíceis como Itamar Assumpção, Sérgio Sampaio, Quinteto Violado, Antônio Adolfo, tudo o mais.

Parece maravilhoso e "generosamente esquerdista", mas é apenas um recurso para a intelectualidade etnocêntrica dizer que "saca tudo de MPB". Uma forma de dizer "como eu entendo de MPB mais antiga, tenho moral para falar que o brega e o neo-brega são o máximo". É também um meio de seus intelectuais falarem para eles mesmos, porque o povo das periferias não tem a menor ideia de quem são esses artistas genuínos.

Isso é feito para dar a impressão que caíram na real, até depois eles soltarem a franga novamente e exaltar o novo brega-coitado da temporada que usa as esquerdas como trampolim para a volta à velha grande mídia.

E, para que sua ojeriza a Chico Buarque desse efeito, "isolam-no" de músicos com a mesma atitude como Sérgio Ricardo e Geraldo Vandré, o primeiro porque, embora de origem bossanovista-cepecista, pode se encaixar no contexto comportamental tropicalista, e o segundo, porque sua "Disparada" está no repertório de MPB autêntica que os medalhões do breganejo, sambrega e outros neo-bregas pós-1990 vampirizam para disfarçar a esterilidade artística ocasional.

E continuam felizes, esses intelectuais "de esquerda", achando que, embora haja gente lembrando do direitismo de Waldick Soriano, oficialmente continua sendo "de esquerda". Criaram uma tese digna da revista Veja, em que Chico Buarque não era mais do que um aproveitador cultural, enquanto Waldick Soriano é que era a "vítima da ditadura". No plano político, é isso mesmo que a mídia reacionária faz.

Mas a intelectualidade associada ou integrante da centro-direita cultural continua com seu "pensamento único". Acha que suas ideias equivocadas continuarão prevalecendo. Herdeiros de última hora da ditadura midiática, acham que podem sobreviver até depois da regulação midiática.

Acreditam que seu pensamento continuará hegemônico, que continuará sendo servido para as esquerdas em geral só porque faz cafuné com o povo das periferias. No entanto, o direitismo latente de uma forma ou de outra se mostra, seja quando elogia o "general-tropicalista" (?!) Emílio Médici, seja quando seu discurso de defesa do "funk carioca" é o mesmo pregado por Ali Kamel e Otávio Frias Filho.

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