domingo, 11 de dezembro de 2011

O NEOLIBERALISMO CULTURAL DO PROGRAMA "ESQUENTA"



Por Alexandre Figueiredo

A esquerda ainda não entendeu o modelo neoliberal de "cultura popular". Há um paralelismo fácil entre os discursos pró-brega e os discursos do neoliberalismo político-econômico, que numa análise não muito esforçada podem ser identificados um com o outro.

Desse modo, vemos que, enquanto o discurso da direita político-econômica fala em "democracia", a centro-direita cultural fala em "diversidade cultural". Se a direita político-econômica fala em "liberdade de imprensa", a centro-direita cultural fala em "liberdade de expressão". Se a direita político-econômica acusa os oposicionistas de "agitadores", a centro-direita cultural os acusa de "preconceituosos".

Por isso não dá para entender por que a centro-direita cultural consegue penetrar com facilidade na mídia esquerdista. Quem colocou Pedro Alexandre Sanches na revista Fórum e Caros Amigos? A Dinap, do Grupo Abril? Enquanto ninguém responde sinceramente a essa pergunta, vemos as máscaras da centro-direita cultural caindo a cada dia.

O Esquenta, programa de brega-popularesco da Rede Globo, não por acaso escolheu como um dos primeiros políticos entrevistados o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Por sinal mestre maior do produtor do programa, Hermano Vianna, e do supracitado Pedro Alexandre Sanches (apesar dos seus - falsos - ataques a FHC).

Não se trata de julgamento, e sim de constatação. Afinal, Vianna e Sanches usam explicitamente o termo "periferia" com base na dicotomia "centro X periferia" lançada pela Teoria da Dependência de FHC. E Sanches lançou o termo "transbrasileiro" por inspiração no termo "transnacional" que a teoria neoliberal hoje define como "multinacionais".

Não seria coincidência a escolha de Fernando Henrique Cardoso, sob cujo governo a mídia associada investiu pesado no crescimento dos ídolos neo-bregas, antes apadrinhados por outro Fernando, o Collor.

Afinal, a confusa tese "conspiratória" da "rebelião popular" dos brega-popularescos na velha mídia não só perde sentido com a felicidade com que seus ídolos estão na velha mídia como a presença de FHC no Esquenta na temporada passada em nada lembrou uma "inquisição" dos "invasores midiáticos" com seu hipotético algoz.

O Esquenta, que tenta promover uma imagem de "vanguardista", entra na segunda temporada carregando na cafonice, com a dupla "sertaneja universitária" Maria Cecília & Rodolfo atacando de um cover do Só Pra Contrariar, da fase Alexandre Pires (que foi apadrinhado por um casal cubano direitista e cantou para o republicano George W. Bush, além de ser amigo e parceiro dos "cansados" Ivete Sangalo e Zezé di Camargo) como um dos destaques.

Cria-se um discurso de "pluralidade" que não é muito diferente da "opinião plural" de que tanto alardeia a Folha de São Paulo e até o manual de "autorregulamentação" do Grupo RBS (que, sócio das Organizações Globo, retransmite o Esquenta nas suas afiliadas).

Afinal, a mediocridade cultural do brega-popularesco - essa pseudo-cultura "popular" com gosto de ferrugem enlatada pela velha mídia - usa o pretexto da "diversidade" e "pluralidade" para se prevalecer. É como ocorre na visão política conservadora, que também se baseia na "pluralidade de opiniões" para prevalecer.

E a velha mídia não iria deixar que o brega-popularesco, se este fosse mesmo "vanguardista" ou "esquerdista", invadisse seus espaços. Não existe esse negócio de "ocupar velha mídia" dos despolitizados bregas, funqueiros, tecnobregas e similares. Todos estes são, na verdade, serviçais da própria velha mídia, da própria indústria cultural que lhes garante lucro e visibilidade.

Por isso, não dá para confundir "esquenta" com "esquerda". O Esquenta da Globo está mais para a direita pós-tropicalista e pró-tucana.

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