terça-feira, 27 de dezembro de 2011

O "MODERNISMO DE BUTIQUE"


A INTELECTUALIDADE "DIVINIZADA" AINDA NÃO ENTENDEU AS LIÇÕES DE MÁRIO DE ANDRADE.

Por Alexandre Figueiredo

A intelectualidade etnocêntrica, "divinizada" e cheia de visibilidade, "sem preconceitos" mas dotada de muitíssimos preconceitos, apenas quer brincar de Modernismo. Corteja, dentro de perspectivas pós-tropicalistas diluídas, apenas clichês da ideologia modernista, aliados a conceitos mais recentes relacionados à indústria cultural, tomados de empréstimo do movimento concretista e do Tropicalismo.

No entanto, são conceitos que acabam distorcendo. Utopias que se criam e que não trazem efeito prático algum. É um pós-tropicalismo e um pós-pós-modernismo míope, de um verniz pseudo-esquerdista com a consistência de uma tinta guache, que se desmancha com o ar.

Vendo as pregações ideológicas desse pessoal, e o caráter dualista com que cortejam seja a cultura musical de qualidade - como os nomes "difíceis" da MPB, como Itamar Assumpção, Quinteto Violado e Sérgio Sampaio, para não dizer o "mais fácil" deles, Wilson Simonal - , seja a de gosto duvidoso - a "ditabranda do mau gosto" do brega-popularesco, de Waldick Soriano, Tati Quebra-Barraco, Leandro Lehart, Mr. Catra e Gaby Amarantos - , dá para perceber o quanto há de ingênuo em muitas dessas abordagens.

Pois é um "modernismo de butique", onde a salvação da cultura brasileira está atribuída ao mesmo cardápio musical das rádios FM, ou aos valores transmitidos por veículos "populares" da TV aberta e da imprensa. Uma utopia que faz com que a pasmaceira, a mesmice popularesca, na medida em que se "consolida" - às custas de muito jabaculê e muito marketing - , se "cristaliza", na visão desses intelectuais, na "verdadeira cultura popular".

Essa utopia se alia a uma outra, que é a de manter o povo pobre na sua "pureza selvagem". Diferentemente dos analistas do exterior, que fazem duras críticas aos processos de manipulação do povo pela indústria cultural, os brasileiros costumam louvar a indústria cultural, na ilusão de que ela "modernizaria" as periferias através de seus valores e celebridades.

Para essa intelectualidade que tenta se impor como "unanimidade", não é válido lutar pela qualidade de vida do povo pobre. Ele "já o tem", através de medidas políticas paliativas e de mecanismos de inclusão no mercado de consumo. A qualidade de vida, da forma como pregam os analistas mais críticos, iria macular aquela "pureza", aquela "inocência do grotesco" que faz o povo pobre simpático para o paternalismo não-assumido desses intelectuais.

Só que isso cria muitos problemas. Para começar, a preocupação em "não macular" a "inocência" do povo das periferias, deixando-o no "grotesco puro", e fingindo acreditar que aquilo é um "outro tipo de beleza no qual não conseguimos compreender", não isenta a intelectualidade de culpa pelo processo midiático de domesticação das classes populares.

Muito pelo contrário, essa "pureza" do grotesco acaba por permitir que se legitime todo o processo de domesticação, de estereotipação das classes pobres. Um processo claramente etnocêntrico, onde o "outro" (a população pobre) é "embelezado" pela velha mídia, na qual a intelectualidade é uma cúmplice não confessa.

A "positivação" do "outro" pelo "eu" não significa que justiças possam ser feitas desse modo. Em outros aspectos, essa "positivação" pode soar um consentimento com a inferioridade do "outro", apenas "zelado" pelo docilmente cruel paternalismo das elites intelectuais, que sempre no final das contas leva a melhor na contemplação do "outro" pobre, "salvo" pela "cultura de massa".

A deturpação dos conceitos modernistas faz essa intelectualidade, tal qual criancinhas puxando as calças dos pais quando pedem presentes, apelar até para os "titios" Oswald de Andrade e Mário de Andrade para a defesa dos "brinquedinhos culturais" do brega-popularesco.

Daí a "antropofagia" ou a "cultura de raiz" ou qualquer outra alegação para defender os brega-popularescos de críticas negativas. Só que o único elemento que une modernistas e a linhagem de bregas, neo-bregas e, agora, pós-bregas, é apenas o fato de que foram vaiados. Mas, fora isso, não existe qualquer semelhança que possa equiparar uns e outros. Muito pelo contrário, os fatos mostram que eles nada têm a ver.

Afinal, o brega-popularesco nunca representou o novo. Nova é sua "embalagem", mas seu conteúdo é sempre velho. Os bregas olhavam para trás, os modernistas para a frente. Da mesma forma, os neo-bregas olham para trás, os pós-bregas também. Os tropicalistas, em que pese a guinada neocon deles (exceto Tom Zé e o falecido Torquato Neto, porque sempre foram a "esquerda" do movimento), olhavam para a frente.

O brega-popularesco, aliás, começou a ser falsamente ligado ao Tropicalismo quando um Caetano Veloso já desfeito de suas ousadias foi fazer um dueto com Odair José no festival Phono 73, há 38 anos. O dueto rendeu vaias ensurdecedoras. Mas a intelectualidade etnocêntrica, criança nessa época, achou o episódio "divertido" e "desafiador", e daí para fazer comparações com as vaias encaradas pelos modernistas é um pulo.

Aí tudo virou desculpa para ser "genial". A vaia tornou-se um "aplauso às avessas" e criou-se um maniqueísmo entre "sucesso de público" e "fracasso de crítica", sem saber mesmo que público e que crítica realmente são, ou se esse "fracasso" não seria superestimado.

Afinal, dependendo do caso, as vaias podem vir de uma "multidão de moralistas" ou de uma "minoria de preconceituosos". E as críticas vem de uma "classe" ou de um "seleto grupo" de intelectuais.

E o "sucesso"? De números colhidos das listas dos mais vendidos, dos mais vistos etc? E que plateia é essa? Muito provavelmente, é o "gado" popular da velha mídia. Mas a intelectualidade etnocêntrica mal sabe defini-la como o "povo das periferias" ou "as simpáticas elites" que contemplam os ídolos da "cultura de massa".

Isso sem falar que o ídolo brega-popularesco - como os medalhões do "sertanejo" e do "pagode romântico", por exemplo - se torna, aos olhos etnocêntricos da intelectualidade "divinizada", um "verdadeiro artista popular" numa estranha equação que junta uma capacidade de exprimir luxo e pompa e uma facilidade de lotar plateias.

Nos dois casos, a ideia de "artista popular" acaba sendo falsa. Primeiro, porque a técnica de luxo e pompa é apenas uma forma de fazê-lo "mais aceitável" para plateias mais elitistas. Segundo, porque lotar plateias é uma questão de quantidade de pessoas, que nem sempre têm consciência exata daquilo que estão apreciando. E fala-se em consciência crítica, e não o simples fato de gostar ou não gostar daquilo que aprecia.

Portanto, não há como definir a pseudo-cultura "popular" como verdadeira cultura popular. Também é inútil utilizar-se de argumentos modernistas, só por causa da rejeição. Afinal, a vaia é apenas uma parte menor de cada espetáculo, como outros aspectos como o uso de guitarra elétrica.

Nada disso transforma o ídolo da mediocridade cultural dominante num "gênio", embora usar vaias, guitarras elétricas, lotação de plateias e coisa e tal servisse como um bom marketing para recolocá-lo nas rádios e na TV aberta. Mas aí é só marketing, seu valor artístico-cultural continua sendo muito, muito duvidoso.

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