quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

O "LIVRE MERCADO" COM SABOR ARTIFICIAL DE PAÇOCA


FELIPE CORDEIRO, cantor que lançou o disco 'Kitsch Pop Cult'

Por Alexandre Figueiredo

Com a mesma paciência com que li a coluna de Merval Pereira do último domingo, intitulada "A ficção de Amaury", li os dois textos que Pedro Alexandre Sanches escreveu, um para a revista Fórum, intitulado "Entre 'monstros' e 'produtos'", e outro para Caros Amigos, intitulado "Beethoven, Baden Powell e Beto Barbosa no Bordel".

Sanches é o PiG que deu certo. Dá para imaginar o quanto Merval Pereira, Eliane Cantanhede, Reinaldo Azevedo e outros sentem falta da capacidade de convencimento e de elaboração discursiva de Pedro Sanches, capaz de, com base no famoso ditado "o rei morreu, viva o rei", anunciar a morte e a ressurreição do "deus mercado" sem despertar qualquer desconfiança no intelectual médio de esquerda.

No texto da Fórum, Sanches expressa sua relação de amor-e-ódio com os músicos do Lee Jackson, depois convertidos em "executivos agressivos", no dizer do referido texto, sobre o livro Uma Banda de Milhões, de Tom Gomes (Editora Nova Leitura).

A resenha de Sanches revela a ascensão de músicos pós-Jovem Guarda que gravaram em inglês e que depois se tornaram executivos que tanto promoviam "monstros" (os medalhões da música brasileira) e os "produtos" (ídolos investidos pelas manobras do mercado), "heróis" que viraram "vilões" até às vésperas do que Sanches entende como "declínio da indústria fonográfica".

Sanches cita até mesmo o episódio com o grupo É O Tchan. Aparentemente, não demonstrou alguma postura, embora creditasse o executivo Marcos Maynard, um dos ex-Lee Jackson, como "vilão" da história. Como executivo da então Polygram (atual Universal Music), Maynard impôs ao grupo baiano a composição da "Dança da Bundinha", alegando que não havia um grande sucesso no segundo LP do conjunto, produzido pelo ex-Som Livre Max Pierre.

O texto, correto, passaria até dentro das perspectivas da mídia cultural de esquerda, não fosse o "otimismo" de Pedro Sanches de que a indústria fonográfica "está morrendo", como se o capitalismo, na música, não pudesse articular forças de reação, tal qual se vê na política, economia e mídia jornalística. Aparentemente, Sanches anima a plateia, terminando o texto dizendo que os executivos estrangeiros da indústria fonográfica eram piores do que os "agressivos" brasileiros.

Mas a "festa" mesmo foi armada para os leitores de Caros Amigos, quando o etnocêntrico jornalista mais uma vez evoca um "paraíso cultural" para Belém do Pará, isolando a capital paraense num contexto de crises sócio-políticas que, no interior, reflete nos conflitos de terras.

O "Oriente Médio" brasileiro, desse modo, viveria o contraste entre o explosivo Pará sócio-político, sangrento e tenso, com o calmo e paradisíaco Pará-Iso, a Disneylândia nortista e boboalegre das pregações "seguras" de Pedro Sanches.

Seu método é o preferido, usar músicos "performáticos" para justificar seu utópico desejo de unir MPB e brega-popularesco, transformando a cultura brasileira numa "deliciosa gororoba". O entrevistado em questão é o músico Felipe Cordeiro, filho do músico popular paraense Manoel Cordeiro. Felipe, no seu "disco-manifesto" Kitsch Pop Cult, é ovacionado por Sanches por representar a "união" entre Arrigo Barnabé e Alípio Martins, conhecido cantor brega paraense.

Para que não digam que nossas críticas são desprovidas de algum fundamento, vamos reproduzir os parágrafos decisivos da postura ideológica do colonista-paçoca, que deixa vazar, com muita sutileza, posturas anti-esquerdistas e claramente influenciadas pelo neoliberalismo de Fernando Henrique Cardoso, o mesmo ex-presidente "hostilizado" por Sanches, sobretudo em tempos em que o ex-presidente é um dos vilões da moda graças a A Privataria Tucana.

Aqui estão os parágrafos, dotados de um forte conteúdo etnocêntrico:

"Se existisse um lugar improvável onde se encontrariam os sons de Arrigo Barnabé e de Alípio (Martins), o nome desse lugar seria Belém do Pará.

Pois bem, esse lugar existe, e nem é só um - algo parecido está acontecendo ao mesmo tempo em diversas cidades de muitos estados de todas as regiões do país. Os muros de Berlim que separaram a MPB academicista da música realmente popular brasileira não param de desmoronar após a derrocada da indústria fonográfica brasileira".


Embora evocasse uma "derrota capitalista", como no caso da suposta derrocada da indústria fonográfica brasileira, Sanches assume uma postura anti-esquerdista, por achar que o senso crítico é "preconceito" e que em função dele haveriam os "muros de Berlim" que separam a "MPB academicista" e a "música realmente popular brasileira".

É como se, para Pedro Alexandre Sanches, a missão da esquerda tenha que ser de obediência aos "livres ventos" do mercado. Sanches é o teórico do "livre mercado cultural", e associa qualquer senso crítico de esquerda, equivocadamente, a posições autoritárias típicas do stalinismo, maoísmo e similares. Para Sanches, esquerdista é para ficar calado e aplaudir a "cultura de massa" feito focas de circo. Daí o seu fã-clube de bobos-alegres intelectuais.

Desse modo, Sanches se equivoca seriamente, porque a tal "música realmente popular" é, na verdade, a "cultura de massa" brega-popularesca, "cultura" de proveta, e que a aliança entre a "MPB academicista" e o brega-popularesco não contribui para derrubar esse "muro", antes isolasse cada vez mais a classe alta (a se apropriar das relíquias da MPB autêntica) enquanto as classes média e baixa, embora em tese pudessem usufruir tanto da MPB quanto do brega-popularesco, são jogadas ao consumo prioritário desse "popular" midiático.

Pois Sanches imagina que o mercado "morreu" e que os chefões da indústria fonográfica estão impotentes de qualquer reação ou mudança de atitude. Os analistas políticos de esquerda não chegam a tanto, pois mesmo quando A Privataria Tucana faz o maior sucesso, ninguém pode assegurar que os políticos do PSDB estão definitivamente derrotados.

Sigamos com outros trechos:

"Para quem tem 20 e poucos anos, não fazem mais sentido os preconceitos estéticos que separaram estilos musicais, classes sociais e modelos de comportamento (...). O nome Kitsch Pop Cult sintetiza a transformação e abraça conceitos provavelmente adquiridos mais no quintal da casa que na faculdade de música ou filosofia". (as escolas de filosofia e música são a formação acadêmica de Felipe Cordeiro)

O desconhecimento das questões estéticas e a "livre" opção de misturar tendências no contexto brega-popularesco é até negativo para as gerações mais jovens, desestimuladas de garimpar informações aprofundadas e de desenvolver uma visão crítica da realidade.

E, enquanto Sanches mais uma vez nos convida a esquecer qualquer questão estética, o intelectual Mário de Andrade (1893-1945), um dos maiores da História do Brasil, nos convidava para a pesquisa estética permanente, o que não prescinde a livre expressão do senso crítico, que só é "preconceito" para Sanches e seus consortes.

Segue outro trecho:

"'Como ser original a partir de sucessivos processos de cópia', questiona Felipe. 'A luz para mim veio do tecnobrega, música original que nasceu da radicalização dos processos de cópia que a inclusão digital permitiu. Essas contradições expunham uma condição criativa da música do Pará, que sempre se evoluiu do kitsch como condição de criação.

Prossegue o raciocínio, mostrando que não é nem se pretende ser inventor de pólvora alguma: 'O curioso é que a música brega em geral está na moda e é considerada 'moderna' no circuito 'cult' das classes médias brasileiras'. Foi um prato cheio para mostrar que brega não é caricatura e aqui virou uma potência de criatividade e uma expressão dos afetos autênticos de um povo".


Através desse trecho, notamos a manobra ideológica de Sanches, através do depoimento de Felipe Cordeiro. Tanto no depoimento quanto na concordância do colonista-paçoca, nota-se a preocupação de ver o brega-popularesco sendo consumido pelas classes médias, além de apostar na visão esquizofrênica de que um fenômeno de "cultura de massa" só se legitima como "verdadeiramente popular" através do reconhecimento do público de classe média.

Mas neste trecho, seja o depoimento de Felipe e a posição concordante de Pedro, nota-se uma clara influência da Teoria da Dependência de Fernando Henrique Cardoso. O ex-presidente, através dessa teoria, afirmava que o desenvolvimento do Brasil e a efetivação de sua soberania se dariam de forma dependente aos padrões de democracia e de conduta econômica determinados pelos Estados Unidos.

Em outras palavras, o Brasil utilizaria, segundo FHC, de matérias primas obsoletas, de tecnologia de segunda mão e na utilização de valores dominantes da cultura estadunidense como condições necessárias para seu desenvolvimento, sem representar uma ruptura nas estruturas dominantes presentes.

Na cultura, é exatamente o que Pedro Alexandre Sanches e seus congêneres pensam: o desenvolvimento cultural brasileiro se daria pela "cópia", ou seja, pela assimilação subserviente de referenciais transmitidos pelo rádio FM e pela TV aberta e, a partir disso, as periferias "recriariam" sua "cultura".

O Brasil de Pedro Alexandre Sanches é, desse modo, o Brasil de Fernando Henrique Cardoso. E a utopia da "luz" trazida pela música brega - sobretudo o tecnobrega amado (pelos Maiorana, famiglia midiática paraense) e odiado (por Lúcio Flávio Pinto, blogueiro de esquerda) no Pará - mostra o que Karl Krauss, jornalista austríaco citado por Eric Hobsbawn em A Era dos Extremos, atribui à psicanalise: "É a doença cuja cura ela pretende ser".

Desse modo, vemos o contraste que Pedro Alexandre Sanches faz com os verdadeiros pensadores de esquerda. Estes, citando Octavio Ianni - ironicamente, um colega de FHC quando este estava longe de seus devaneios neoliberais, reduzido a um estudioso de Max Weber - , questionam a metamorfose midiática da "mercadoria em ideologia, do mercado em democracia, do consumismo em cidadania".

Pois no "livre mercado" com sabor artificial de paçoca, a "galera" dos 20 e poucos anos não possui o discernimento necessário entre mercadoria e ideologia, entre mercado e democracia e entre consumismo e cidadania. E é pena que discerni-los seria, para certos pensadores badalados, sinônimo de "preconceito estético", "moralismo", "elitismo" e "higienismo".

Pedro Alexandre Sanches, a Sônia Francine de amanhã, é o ideólogo-maior do "livre mercado" associado à "cultura de massa".

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