domingo, 11 de dezembro de 2011

O "ESOTERISMO" TEÓRICO DA INTELECTUALIDADE PRÓ-BREGA



Por Alexandre Figueiredo

No livro A Era dos Extremos, 1914-1991, o historiador Eric Hobsbawn fala da tendência de intelectuais interpretarem a cultura de massa de maneira que ele classifica como "esotérica", onde o sentido da arte não está mais na visão do emissor e nem da relação entre ele e seu receptor, mas basicamente na interpretação do receptor.

Eu percebi exatamente isso quando li alguns trechos do texto de Pedro Alexandre Sanches, A índia negra branca do Pará, em que o colonista-paçoca tenta interpretar o tecnobrega na visão do receptor, ou seja, ele mesmo, que, dentro do seu julgamento pessoal, "positivamente" etnocêntrico, atribuiu o "fenômeno" paraense a uma suposta assimilação da teoria antropofagista de Oswald de Andrade.

Evidentemente não vamos detalhar aqui que os tecnobregas desconhecem completamente esse tal de "seu Osvaldo" ou o que eles imaginam que esse senhor esteja fazendo hoje (ele faleceu há 57 anos), mas a verdade é que o texto só serviu para dissolver os fenômenos de mídia numa abordagem "mística", "esotérica".

E é exatamente isso que faz o "funk carioca" ser glorificado pela intelectualidade através de um discurso cuja sofisticação inexiste no "fenômeno". O "funk" que os intelectuais falam dá a falsa impressão de que é um ritmo muito mais sofisticado e culturalmente mais rico que a Bossa Nova, ou politicamente muito mais engajado que a Revolução Cubana.

Tocando o CD, porém, os ouvintes dotados de senso crítico logo percebem que toda a retórica fascinante da intelectualidade mais influente em torno do "funk carioca" não passa de um grande lero-lero, de conversa para boi dormir.

Até porque o "funk" está cada vez mais repetitivo e chato, com o mesmo som do scratch "pocotó", um MC dizendo baixarias e um outro balbuciando algo como "tchuscudá-tchuscu-tchuscudá". Pode ser o MC fulano falando de sexo ou MC sicrano reclamando da polícia que dá tudo na mesma.

É essa retórica "esotérica" da intelectualidade que faz com que Pedro Alexandre Sanches sirva teorias dignas do pensamento de Ali Kamel, Fernando Henrique Cardoso e Francis Fukuyama para um público de esquerda sem que este se dê conta desse perigo. Vai que Pedro Sanches concorde quando um entrevistado diz que Emílio Médici era um líder carismático e, de revisionismo em revisionismo, Sanches devolve a direita política ao poder.

A cultura envolve teatralidade, disfarce, fantasia. Mas isso é levado para a retórica intelectual de forma mais equivocada possível. O sociólogo baiano Milton Moura escreveu um monte de bobagens sob o título Esses Pagodes Impertinentes, ensaio lançado há 15 anos atrás, mas a própria intelectualidade aplaude, porque há interesses escusos por trás disso.

Da mesma forma, Paulo César Araújo lançou teses meramente conspiratórias para tentar dizer que a música brega que, explicitamente, era apoiada e amplamente difundida por rádios que apoiaram a ditadura militar, era "vítima desse regime". E PC Araújo, na maior cara-de-pau, tentou creditar os ídolos cafonas como "cantores de protesto", mesmo dizendo que os mesmos eram despolitizados. E tudo isso por conta de interpretações "ocultas" da música "Eu Não Sou Cachorro, Não", de Waldick Soriano.

Paulo César Araújo, apesar das teses estranhas - e "esotéricas" - , virou um "deus sagrado" para a intelectualidade, um totem irretocável, um sacerdote situado no seu templo divino. Mas ele, no fundo um historiador medíocre, quase que um equivalente de Merval Pereira, Demétrio Magnoli e similares na abordagem da cultura popular, só comprou briga com Roberto Carlos (embora este seja também conservador) e anda com medo de escrever o prometido livro sobre a "MPBzona".

Mas faz sentido essa intelectualidade endeusar os Araújos e Sanches, ou os Mouras da vida. É uma intelectualidade relativamente jovem, com menos de 50 anos de idade, sem referências culturais sólidas, seu relativamente amplo conhecimento cultural se deve mais às pesquisas acadêmicas e não pela vivência social, e eram crianças felizes que viam a televisão dos tempos da ditadura.

E mesmo o "esquerdismo convicto" de alguns intelectuais - que, na abordagem de defesa aos bregas, neo-bregas e pós-bregas, convive com direitistas enrustidos como Sanches e Araújo - é algo muito recente, quando ser "de esquerda" virou um modismo que atraiu milhares de oportunistas e até farsantes.

Por isso há a falta de senso crítico numa intelectualidade que apenas quer fazer propaganda de bregas e neo-bregas, só de de uma maneira "diferente", sob roupagens "científicas" e "objetivas" que, mesmo assim, não impedem que esses intelectuais adotem visões delirantes e confusas.

Daí o "esoterismo" que elimina todo o sentido real da indústria cultural brasileira, na medida em que, para esses intelectuais, o alho é igual ao bugalho, o joio é parte integrante do trigo e outras teses surreais.

Para um país ainda cheio de analfabetos e mesmo de alfabetizados de pouco senso crítico, fica fácil convencer a plateia com visões desse porte, além de transformar ideólogos em "divindades" intocáveis.

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