domingo, 25 de dezembro de 2011

O DRAMA DA FAVELA MOINHO E DE OUTRAS FAVELAS



Por Alexandre Figueiredo

"Favela: arquitetura pós-moderna, paraíso de uma prosperidade improvisada, reduto de uma felicidade que não conseguimos compreender. Favela: perfeição da imperfeição, modernidade pós-moderna e além de suburbana, já trans-urbana, onde a pobreza renasce em poesia, e a miséria reluz em novas possibilidades".

Esse parágrafo, tão dócil e sentimental, soa música para os ouvidos de uma intelectualidade "sem preconceitos", situada confortavelmente nos seus grandes condomínios. Mas é ela que mantém sua hegemonia na opinião pública, com sua visão glamourizada da miséria, com sua apologia à pobreza, com sua compreensão do "outro" por demais paternalista, embora ela afirme o contrário.

Pois o drama oculto das favelas, a verdade sombria da pobreza e do sofrimento de não ter uma moradia decente, um emprego digno, não aparece na sorridente pregação dos ideólogos do brega-popularesco. Não aparece no "funk", nem no tecnobrega, nem no "pagodão". Não é essa favela que aparece na música do "injustiçado" Parangolé. Nem no programa Esquenta ela aparece. E nem é essa favela que é exaltada pelas pregações da intelectualidade "divinizada".

Recentemente, um violento incêndio atingiu uma comunidade que vivia na favela Moinho, no centro de São Paulo. Até o momento, dois mortos foram encontrados. A tragédia destruiu residências, estabelecimentos comerciais e outras casas, deixando aqueles que já tinham pouco sem sequer o básico para suas vidas.

É, portanto, um drama que, realmente, a intelectualidade "mais bacana" não consegue mesmo compreender. E que "poesia feliz" é essa? A intelectualidade etnocêntrica, se vier a se interessar em falar nesse assunto - isso quando não se recusam a fazê-lo, porque não faz parte do "espetáculo" - , vai chorar suas lágrimas de crocodilo, enquanto esconde nos seus corações a indiferença com o povo pobre que, neste episódio, não está rebolando até o chão, mas sentados nas sarjetas chorando os seus dramas, sem muito amparo.

O que causou o incêndio? Curtos-circuitos? Especulação imobiliária? Vingança pessoal de algum morador? Ação de grupos criminosos? Pouco importa. O drama está muito mais além disso.

Ele está no fato de pessoas pobres que não têm onde morar, devido aos aluguéis caríssimos de casas e apartamentos, e do descaso das autoridades, que só constroem casas populares por motivos eleitoreiros ou de "dar serviço" a empreiteiras sedentas em "lavar" dinheiro sujo. Por isso a construção improvisada, malfeita e arriscada de casas só pela urgência de alguma habitação para as famílias miseráveis.

A favela já vivia o drama de ficar próxima à Cracolândia. O que significava uma perturbação grande das famílias que veem seus jovens sem futuro sucumbirem ao consumo de drogas, e, sem ter como pagar, pagam eles e quem tiver em casa com as próprias vidas a todas as dívidas que têm com os traficantes.

E vemos o quanto as classes populares sofrem. Outros incêndios aconteceram em São Paulo, em caraterísticas semelhantes, talvez por diversos motivos. Se são "gatos" de energias elétricas ou depósitos irregulares de gás de cozinha, ou se são sabotagens de grupos criminosos ou vinganças pessoais, tudo isso varia conforme o caso.

Mas o que se iguala em todos esses casos é o sofrimento dos moradores e o sentimento de pânico em que essas pessoas se encontravam quando viram explosões e chamas intensas destruírem suas casas, quando até pouco tempo atrás havia, pelo menos, algum sossego relativo.

E tudo isso não é espetáculo. E é irônico isso, cinquenta anos depois de outro incêndio, o do Gran Circo Norte-Americano, em Niterói, em 17 de dezembro de 1961, quando um número nunca esclarecido até hoje e estimado de 323 a 500 pessoas (talvez até mais disso) foi o resultado de uma tragédia que, na época, comoveu o mundo.

Não se brinca com tragédias, sejam elas em circos ou em favelas, em que pese a gíria jocosa que se resultou da tragédia niteroiense no anedotário popular, quando se pergunta a pessoas revoltadas se elas querem ver "o circo pegar fogo". Com toda a certeza, porém, essa favela não é, mesmo de longe, a "poética" favela dos ideólogos da pseudo-cultura "popular" da grande mídia.

A Associação de Moradores da Comunidade do Moinho já fala em 29 desaparecidos. E 300 barracos foram destruídos pelo fogo. Em muitos casos, era difícil até correr para socorrer as vítimas, devido à estrutura de caminhos na antiga favela. Um prédio próximo foi interditado pela Defesa Civil, sob risco de desabamento, e uma linha de trem que passava no local deixou de atendê-lo.

Esse é o outro lado da periferia, que nada tem de espetacular.

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