quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

O DIREITISMO OCULTO DE PEDRO ALEXANDRE SANCHES (Parte 2)



COMENTÁRIO: Esta é a segunda e última parte do texto sobre o direitismo oculto no trabalho de Pedro Alexandre Sanches, intelectual pretensamente esquerdista e badalado por setores médios da opinião pública.

Por Alexandre Figueiredo

"COLISÃO" COM ESQUERDISTAS

O discurso de Sanches também mostra contradições comparativas. Tudo o que ele escreve sobre o brega-popularesco - "funk carioca", tecnobrega, "sertanejo"m "neo-forró" etc etc - é corroborado com todas as letras e pontuações, da forma mais explícita possível, com o que se escreve sobre a mesma coisa na velha mídia. O próprio exemplo do "funk carioca" comprova isso de forma contundente, derrubando violentamente a tese de que o ritmo não tem espaço na grande mídia.

Por outro lado, nota-se que tais abordagens entram em violento choque quando comparadas com os supostos "irmãos de causa". Enquanto Pedro Alexandre Sanches falava na "luta do funk contra o preconceito", José Arbex Jr. havia escrito, anos antes, um texto criticando duramente o mesmo ritmo.

Emir Sader, Rodrigo Vianna e Venício Artur de Lima, só para citar uns exemplos, também sinalizam divergências inconciliáveis com Pedro Sanches quando, em suas críticas às baixarias midiáticas, citam o exemplo da cultura. Rodrigo Vianna, por exemplo, disse, numa palestra para blogueiros progressistas, que a "cultura dos anos 90" era o último legado da Era FHC que continuava resistindo.

Se levarmos em conta a visão ideológica de Pedro Alexandre Sanches, iríamos sucumbir a incoerências profundas. Sobretudo no caso do tecnobrega, ritmo defendido pelo colunista. Se acreditarmos em Sanches, o jornalista e blogueiro progressista Lúcio Flávio Pinto seria tido como "preconceituoso", já que ele definiu o tecnobrega como um "lixo".

Já o grupo O Liberal, sócio da Globo e maior grupo midiático do Pará, seria considerado "pequena mídia independente", já que apoiou o tecnobrega nos seus primeiríssimos momentos. O que conclui que Pedro Alexandre Sanches acha que a voz dos Maiorana e a voz da maioria são literalmente a mesma coisa.

Sanches não conseguiu explicar sua posição na Folha nem em relação à "cultura dos anos 90" (definida pela hegemonia dos ídolos neo-bregas).

Primeiro, Sanches se enrolou quando dizia que seu trabalho na Folha, feito "boboalegremente", ou era uma forma de "higienismo cultural", ou usava a axé-music para "combater FHC", num tempo em que a Folha apoiava FHC e a axé-music era patrocinada pelo maior aliado do então presidente, o então senador ACM (Antônio Carlos Magalhães).

Segundo, porque Sanches tentou "admitir" que a "cultura dos anos 90" (como sabemos, eufemismo para a hegemonia brega-popularesca de mais de 20 anos) era "mercadológica", mas que "contraditoriamente" trouxe as condições que favoreceram (sic) a "diversificação cultural" dos anos 2000-2010. Isso é o mesmo que dizer que Henry Ford foi o mentor da Revolução Cubana.

DIREITISMO ENRUSTIDO

O presente blogueiro, quando fazia o sítio Preserve o Rádio AM, já alertava sobre outro caso de direitismo enrustido, o do baiano Mário Kertèsz (espécie de síntese local de Paulo Maluf, Fernando Collor e Silvio Berlusconi), apadrinhado por ACM e filiado originalmente à ARENA, o "partidão" da ditadura militar.

Convertido em "intelectual de esquerda", sem ser intelectual e muito menos esquerdista, Kertèsz havia lançado a Rádio Metrópole FM, espécie de "Rede CBN de porre". Ele tentou comprar quase toda a intelectualidade média de esquerda, que elogiava o ex-prefeito de Salvador, já como dublê de radiojornalista, uma espécie de sub-Bóris Casoy que pensa que é Mino Carta.

Quando a intelectualidade festejava o "esquerdismo" de Kertèsz, eis que o astro-rei da Rádio Metrópole passou a disparar ataques violentos a tudo que é esquerda, do PT (que o ex-prefeito "apoiou" por influência do amigo Duda Mendonça) ao PCO, passando pelo MST e chegando mesmo a atacar os jornalistas Emiliano José e Oldack Miranda no ar, numa campanha furiosa que fazia Veja parecer fichinha.

Tudo isso ocorreu pouco depois de Preserve o Rádio AM alertar do conservadorismo latente de certos astros midiáticos.

Pois o que se vê agora é através de Pedro Alexandre Sanches, que diverge do "caro amigo" José Arbex Jr. até na época em que a Folha de São Paulo virou "cracolândia" (metáfora para o reacionarismo atroz do jornal paulista). Arbex Jr. já dizia que o "Projeto Folha" foi uma farsa que causou a demissão dos jornalistas de esquerda mais antigos da FSP. Mas que depois treinou o então "foca" Pedro Sanches.

Este, no entanto, só afirma que a FSP virou reacionária em 2007, ano de sua saída, quase vinte anos depois da data atribuída por Arbex Jr. (no grosso, o começo dos anos 90).

Pedro Sanches sinaliza alguns pontos direitistas em suas abordagens. Sendo de uma geração que viu a televisão comercial feliz da vida entre 1970 e 1974 - os defensores da música brega e seus derivados têm uma formação midiática do "milagre brasileiro" - , não é preciso analisar para ver que sua visão de "cultura popular" é a mesma trabalhada pela velha grande mídia.

Sanches tenta dissimular essa visão, achando que o brega-popularesco "está fora da mídia". Mas seus conceitos envolvem desde uma visão de "cultura popular" integrada (ou entregue?) à "cultura de massa" - ecos da Teoria da Dependência de Fernando Henrique Cardoso - , a "superação" da MPB sofisticada dos anos 70 - ecos de Francis Fukuyama e seu "fim da história" - e do fato de Sanches não achar que os bregas e neo-bregas sejam "cafonas" ou "medíocres" - ecos do "não-racismo" do jornalista da Globo, Ali Kamel.

Em outros momentos, Sanches sugere posturas típicas de "esquerdistas à beira do remorso", quando em vários de seus artigos critica os "excessos" das esquerdas nos anos 60. Sob o pretexto de reprovar o "purismo" das plateias que vaiavam os tropicalistas, cria todo um discurso ideológico que, juntando as peças, mostra que, nos anos de chumbo, quem não prestava mesmo eram as esquerdas e que a história da MPB terminou, no grosso, em algum cantinho dos anos 80.

Mas o sinal de alerta veio quando, numa entrevista com o jovem escritor Gustavo Alonso - que, por ter só 31 anos, não vivenciou os "anos de chumbo" - , este, se achando um "esquerdista com direito de criticar certas esquerdas", dentro daquele perfil alertado por Eduardo Guimarães da "esquerda ávida em atacar as esquerdas e omissa diante dos direitistas", elogiou o general Emílio Médici, dizendo que ele era "um líder tão popular quanto Lula".

Sem levar em conta os mecanismos de persuasão da mídia associada na época, Sanches e Alonso parecem felizes em elogiar o carisma do general sob cujo governo houve intensa repressão e tortura, que por pouco não tiraram a vida da hoje presidenta Dilma Rousseff.

Sanches e Alonso também parecem ansiosos na desconstrução da imagem de Chico Buarque. A escolha desse cantor, usado por Alonso como "algoz" no maniqueísmo adotado para reabilitar Wilson Simonal, ocorre pelo fato de Chico, associado a uma concepção musical sofisticada, é "difícil de ser imitado" pelos ídolos bregas e neo-bregas que se apropriam do cancioneiro da MPB.

Desse modo, dá para se apropriar da MPB autêntica menos "incômoda" ou mais acessível, até mesmo quando um cantor de "pagode romântico" não consegue sequer imitar a poesia engenhosa de Djavan (e, para isso, o mercado teve que recorrer a Jorge Vercilo, espécie de "Djavan para iniciantes").

Mas Chico, não. Ele tem posições artísticas e políticas complicadas, até mesmo para uma imitação caricata. E, além disso, os ataques tendenciosos a Chico, espécie de equivalente cultural aos ataques que se faz, no âmbito político, ao nacionalismo varguista, escondem um ataque cada vez maior a uma geração de intelectuais modernistas que pensaram o país entre a década de 1930 e 1964.

Chico Buarque, portanto, é um dos poucos elos, talvez o principal deles, que as gerações mais jovens têm para a intelectualidade representada pelo pai dele, Sérgio Buarque de Hollanda, e outras figuras como Darcy Ribeiro, Caio Prado Jr., Lúcio Costa, Rodrigo de Melo Franco, Mário de Andrade, Tom Jobim, Vinícius de Moraes etc. Sem essa "ponte", os mais jovens ficam dificultados de encontrar um referencial atual que os levasse a conhecer os grandes mestres do passado.

Por outro lado, a intelectualidade de Pedro Alexandre Sanches, "messias" designado para representar o "deus" Paulo César Araújo enquanto este sofre a via crucis no calvário rogado pelos súditos do "Rei", tem mais a ver com Fernando Henrique Cardoso e a intelectualidade neoliberal que, em vez de construir o Brasil, o desconstrói ao sabor do FMI. E o neoliberalismo fica mais "gostoso" quando está na forma digestível do "pop comercial", fonte do mercado "transnacional" da "cultura transbrasileira".

A IMAGEM "VIRTUAL" DO INSTITUTO MILLENIUM

Um aspecto curioso é que a repercussão da foto-montagem acima, com Pedro Alexandre Sanches sob um cenário virtual do Instituto Millenium - reduto da direita intelectual brasileira - em nenhum momento representou qualquer reação dele e de seus adeptos quanto à sugestão de direitismo latente do jornalista.

Mas Sanches já está no estágio dos "comunistas arrependidos", "incomodado" com os "excessos" das "patrulhas" de esquerda. Há tempos se fala de seu perfil neocom. Mas nosso blogue não tem a visibilidade necessária para a repercussão desses alertas.

E olha que Sanches nunca teve momentos de sincero esquerdismo, como tiveram em outros tempos Arnaldo Jabor, Marcelo Madureira ou mesmo José Serra. O que se teme é que, embora muitos esquerdistas tenham sido pegos de surpresa com exemplos como os de Fernando Gabeira e Sônia Francine, tenham que sofrer o violento choque quando Pedro Sanches voltar ao direitismo midiático.

Ele já arrumou "terreno" para isso, segundo a lição de MC Leonardo (já "abrigado" nas Organizações Globo), quando a esquerda midiática não lhe interessar mais para sua promoção publicitária.

Outro alerta para o direitismo de Pedro Sanches foi quando, a pretexto de uma campanha contra o fim de um programa da TV Cultura, Sanches reencontrou Gilberto Dimenstein - conhecido por sua postura contrária aos professores das escolas públicas - numa verdadeira confraternização de caros amigos. E só certos "protocolos" não permitem que Sanches reencontre seu patrão-colega e mentor Otávio Frias Filho.

Muita coisa vai rolar. E o futuro nunca é uma xerox do presente. E "paçocas" com gosto de jabaculê podem causar efeitos colaterais futuros.

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