terça-feira, 20 de dezembro de 2011

O DIREITISMO OCULTO DE PEDRO ALEXANDRE SANCHES (Parte 1)



COMENTÁRIO: Este tópico, dividido em duas partes, é um alerta sobre o caso de intelectuais que, formalmente alinhados à esquerda, no entanto defendem ideias de cunho direitista, ainda que com sutileza. Dividido em duas partes, a segunda será publicada amanhã neste mesmo horário.

Por Alexandre Figueiredo

Este mês, as revistas Fórum e Caros Amigos, mais uma vez, chegarão as bancas com suas poucas páginas dedicadas ao centro-direitismo cultural, sem que seu leitores médios tenham consciência real disso.

Quem não tem cão, caça com gato. Sem uma agenda própria de temas culturais e sem um crítico realmente especializado nela, a mídia esquerdista toma emprestado da centro-direita cultural um dos críticos badalados da atualidade.

O jornalista Pedro Alexandre Sanches, no entanto, demonstra que seu perfil nada tem a ver, realmente, com a abordagem cultural de esquerda, mas tão somente um nome dotado de muita visibilidade na imprensa cultural paulistana.

Seu histórico, suas abordagens e mesmo suas posições são muito estranhas para quem deseja ser conhecido como "principal crítico cultural de esquerda". E aqui vamos fazer um resumo da trajetória de Pedro Alex Sanches na mídia.

Ele é originário do "Projeto Folha" tão criticado por José Arbex Jr.. E não fez parte da "debandada" da Folha que incluiu Arbex Jr., Marilene Felinto e Juremir Machado da Silva, só saindo da Folha por volta de 2007.

Pedro Alex Sanches, como gosta de ser conhecido, trabalhou também na Época e na Bravo, entre outros periódicos. O que indica que Sanches, além de ter servido aos Frias, serviu também aos Civita e Marinho.

Tudo bem, se fosse só isso. Afinal, nem todo mundo que trabalha na velha mídia compartilha de sua linha ideológica, apenas cumprindo o trabalho que lhe convier. Mas não é o caso de Sanches, que mostrou que até hoje continua seguindo as lições aprendidas e claramente compartilhadas pela velha mídia.

MATAR O "DEUS MERCADO", PARA DEPOIS RESSUSCITÁ-LO

Pedro Sanches cometeu inúmeros procedimentos estranhos para um autoproclamado (e festejado) crítico musical de esquerda. Em resumo, é um jornalista que, no primeiro parágrafo, em letras explícitas, mata o "deus mercado", para depois, no segundo parágrafo e de forma mais sutil, ressuscitá-lo de forma triunfante.

Defensor da música brega-popularesca, dentro daquela perspectiva "alhos com bugalhos" - ou seja, a MPB "difícil" com os facílimos neo-bregas - já lançada por Hermano Vianna, mas com uma orientação pró-brega que remete a Paulo César Araújo, Sanches, com os dois citados, forma a "santíssima trindade" da intelectualidade etnocêntrica, "divinizada" e de muita visibilidade.

Sanches tem uma manobra discursiva que tenta desmentir o óbvio, sem medir escrúpulos de cometer inverdades e desinformações. Seu discurso em prol do brega-popularesco se baseia em creditar os "sucessos populares" presentes na velha grande mídia como se os mesmos estivessem ainda "alheios" a ela. É uma manobra, muitas vezes cheia de mentiras, que no entanto tomou de surpresa uma intelectualidade desprovida de senso crítico aprofundado.

Pedro Sanches é capaz de defender um "fenômeno" ultracomercial como o É O Tchan como se fosse uma "rebelião revolucionária", mas inserindo sutilmente tais comentários em reportagens aparentemente dedicadas a grupos performáticos de vanguarda.

Entrevistando tais grupos, ele despeja sua "choradeira", e através desse discurso, que literalmente mistura alhos com bugalhos, ele já defendeu Fábio Jr., Calcinha Preta, Banda Calypso e outros nomes muito queridos pela velhíssima grande mídia.

Sanches já fazia propaganda do brega-popularesco quando trabalhava na Folha de São Paulo (numa época em que o jornal dos Frias defendia com maior radicalismo os políticos do PSDB), e nessa época ele publicou a famosa entrevista com a funqueira Tati Quebra-Barraco.

Imagine se ele, a pretexto de entrevistar performáticos da Escola de Teatro da UFBA e do Circo Picolino (localizado em Pituaçu, orla de Salvador), enfia uns parágrafos chamando o É O Tchan de "grupo multimídia" e de "projeto concretista-bolivariano"? O colonista-paçoca é "mestre" em tais armadilhas.

Por isso mesmo ele foi escolhido pelo mercadão da intelectualidade "vendida" para ser o porta-voz da apologia à domesticação sócio-cultural das classes populares, uma vez que Paulo César Araújo criou problemas sérios com a biografia não-autorizada de Roberto Carlos, irritando os fãs do cantor capixaba e sendo vítima de processo judicial, e Hermano Vianna ficou "queimado" com sua associação profissional às Organizações Globo.

ESCOLA REVISTA BIZZ

Pedro Sanches, então, tornou-se o "intelectual limpinho" para a mesma missão dos outros dois, "queimados" pelas circunstâncias. E capaz de convencer a opinião pública com um discurso confuso e contraditório, capaz de muitas pegadinhas que escondem inverdades.

Foi ele, por exemplo, que empurrou Zezé di Camargo & Luciano para os "retratos capitais" de Carta Capital, quando os breganejos, definidos como "MPB", eram alardeados como eleitores de Lula, embora tenham votado em Ronaldo Caiado, que, como latifundiário, é hostil ao Movimento dos Sem-Terra.

Sob sua influência, se "plantou" em Caros Amigos a "informação" que o funqueiro Mr. Catra "seguia invisível às corporações da grande mídia". A essas alturas Mr. Catra já tinha sido vista, em rede nacional, num dos programas de maior audiência da maior emissora da maior corporação da grande mídia (as Organizações Globo), a Rede Globo de Televisão, o Caldeirão do Huck (cujo nome inspirou uma gíria funqueira).

Sanches também influiu para colocar na capa da revista Fórum uma Gaby Amarantos brincando de Beyoncé Knowles, sob o pretexto de apavorar a velha mídia. Mas Gaby, menos de um ano depois, já era cortejada pela mesma velha mídia que nem de longe ficou com medo dela. Até a ultrareacionária Veja, hostil a quase todo mundo, foi gentil com ela, que em 2011, contratada pela Som Livre, fez sua estreia na Globo num tributo a Zezé di Camargo & Luciano.

A maior virtude de Pedro Sanches é seu currículo de entrevistas com artistas de MPB. Sua escola é a revista Bizz de 1987-1990, e é inegável sua experiência dentro dessa perspectiva. O maior problema é quando ele quer ser um misto de militante de esquerda com pesquisador das periferias, e é aí que estão seus maiores erros, comparável a um Hermano Vianna que quer pesquisar o folclore brasileiro sem o espírito crítico do modernista Mário de Andrade, que não iria misturar os alhos folclóricos com os bugalhos da indústria cultural brega-popularesca.

É aqui que ele sucumbe aos seus maiores equívocos, quando tenta se associar a uma linha ideológica na qual demonstra não ter qualquer identificação, enquanto sua compreensão sobre cultura das classes populares continua sendo a mesma da velha grande mídia.

DISCURSO CONTRADITÓRIO

Sanches, como dublê de crítico de esquerda, se limitou tão somente a "plantar" citações esquerdistas, como as palavras-chaves "Che Guevara" e "reforma agrária no ar" (sobre rádios comunitárias), além de ter escrito artigos primários e quase infantis sobre a política petista.

Por outro lado, se comportava como se estivesse "acima das ideologias" - uma vez, perguntou a Lobão se ele era de direita - , e fazia falsos ataques à direita política e midiática, incluindo desde "astros" como Marcelo Tas e Eliane Cantanhede até "o velho estilo Folha e Veja".

No entanto, cometia muitas inverdades como dizer que o forró-brega (que ele denominou como "neo-forró") não tinha espaço na grande mídia e nem na Globo. Mas o Calcinha Preta havia aparecido em trilha de novela, a Banda Calypso apareceu até no Casseta & Planeta (ao lado de Marcelo Madureira e tudo) e o Fausto Silva e Luciano Huck estavam carecas de tanto receber os ídolos do estilo em seus programas. Sem falar que o grupo midiático Som Zoom, embora regional, já constitui num poder midiático avassalador no Norte-Nordeste, sendo uma grande mídia dentro daquelas áreas.

Outra incoerência é Sanches acreditar que a revista Caras só mostra os ídolos sofisticados da MPB autêntica. Engano dele. Nomes como Chitãozinho & Xororó, Alexandre Pires, Chiclete Com Banana, Ivete Sangalo, Zezé di Camargo & Luciano e Banda Calypso já são figurinhas fáceis na revista, não raro aparecendo até nas capas de suas edições.

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