sábado, 24 de dezembro de 2011

INVERDADES E MENTIRAS DA CULTURA DE DIREITA



Por Alexandre Figueiredo

Sabemos que a intelectualidade de esquerda é refém da centro-direita cultural que domina o mercado. Mas, infelizmente, poucos blogues dão conta desse quadro que cria uma situação tipicamente kafkiana em parte da intelectualidade de esquerda.

Não falo de intelectuais mais veteranos, que sabem muito bem as armadilhas da chamada mass media, mas de gerações mais recentes que foram apresentadas à televisão nos tempos da ditadura militar e por isso acham que a mass culture brasileira é o "legítimo neo-folclore das periferias".

O tom kafkiano está portanto na série de inverdades e mentiras transmitidas para defender o brega-popularesco, e que mostram o quanto a direita cultural se infiltra nas esquerdas aproveitando as brechas que a intelectualidade média deixa para ela.

Em primeiro lugar, a intelectualidade cultural esquerdista média acaba assimilando valores de direita e hostilizando valores de esquerda. Graças a pregadores como Paulo César Araújo, MC Leonardo e Pedro Alexandre Sanches, a intelectualidade média de esquerda acaba por inverter as coisas e valorizar nomes mais conservadores, em detrimento de nomes progressistas.

Desse modo, a intelectualidade média, através dos "mestres" da centro-direita cultural, acaba "aprendendo" que nomes como Chico Buarque, Luiz Gonzaga Jr. e Elis Regina são "deploráveis" porque adotam posturas "radicais". E que José Ramos Tinhorão, ícone da esquerda intelectual dos anos 60, seria um "velho chato e antiquado".

Em contrapartida, nomes bastante conservadores como Waldick Soriano (machista e pró-ditadura), Odair José, Dom e Ravel e Benito di Paula - que, em pleno período da repressão, cantava "Tudo está em seu lugar / Graças a Deus, graças a Deus" - são tidos como "rebeldes", até superestimando a rejeição que receberam, não por serem "polêmicos", mas por serem justamente associados à mediocridade cultural que interessava à velha mídia que apoiava o regime militar.

Essa intelectualidade média, dotada de ranços pós-tropicalistas mesclados com o ideal do "livre mercado", acaba se rendendo à centro-direita cultural com um estranho entusiasmo, e acaba indo em séria contradição com suas abordagens quanto a temas políticos e jornalísticos. E, pasmem, ainda ficam felizes em se acharem "contraditórios"!

VERDADE HISTÓRICA, SIM, EXCETO PARA O WALDICK

Só um episódio bastante ilustrativo dessa postura da intelectualidade média de esquerda sob influência da cultura de direita é quanto à defesa da chamada verdade histórica, que é a revelação da memória oculta brasileira durante os anos de chumbo da ditadura, sobretudo entre 1969 e 1974.

Pois quando o âmbito é político, todos querem que se revelem documentos, reportagens censuradas e outras denúncias sobre a repressão do regime militar e onde estariam os mortos cujos corpos até hoje não foram encontrados, como os do antigo deputado petebista Rubens Paiva, pai do jornalista Marcelo Rubens Paiva.

Neste caso, todos querem a verdade histórica, a revelação dos "podres" da ditadura militar. Mas, quando o assunto é cultural, a posição da intelectualidade média muda completamente.

Aí, ninguém gosta que se revelem verdades sobre o "querido" Waldick Soriano. Quando se fala que ele foi uma figura muito conservadora e até machista e que defendia a ditadura militar, a intelectualidade média chega a chorar. "Não falem assim do meu Waldick, que tanto sofreu e que amo tanto!", dizem, aos prantos.

E ainda tomam como "verídica" a acusação de subversão atribuída à música "Tortura de Amor", que, para quem não sabe, é de 1962, quando Jango ainda estava no poder e sob um governo parlamentarista. Mas oficialmente a música é tida como "uma crítica" ao regime militar, uma mentira lançada pelo "mestre" Paulo César Araújo, o primeiro menestrel dos coitadinhos "culturais" da velha mídia.

MENTIRAS PAÇOQUIANAS

A situação ganha mais contornos sutis quando o ideólogo passa a ser o jornalista Pedro Alexandre Sanches, que a mídia de direita escalou para jogar na mídia esquerdista, fazer gols contra e pontuar para os direitistas.

Pois Pedro Alexandre Sanches difundiu mentiras e inverdades na mídia de esquerda, deixando a intelectualidade média, desprevenida, embasbacada. Tudo isso para defender o mesmo brega-popularesco que segue tranquilo abraçado aos barões da grande mídia.

Ele empurrou para a esquerda a dupla "global" Zezé di Camargo & Luciano só pelo pretexto deles terem votado em Lula e serem o foco do dramalhão biográfico Os Dois Filhos de Francisco. Inverdade. De fato, os dois votaram em Lula, mas o "líder" dos dois, Zezé, foi para o lado oposto no movimento Cansei, e além disso os dois votaram no coronelista Ronaldo Caiado, que ideologicamente está no lado oposto ao Movimento dos Sem-Terra.

Por influência de Pedro Sanches - e também de MC Leonardo - o funqueiro Mr. Catra foi tido, numa reportagem de Caros Amigos, como "invisível às corporações da grande mídia". Mentira da grossa. A essas alturas ele já era figurinha fácil do Caldeirão do Huck, do portal Ego e da Quem Acontece, e, depois, do Multishow, todos veículos ou programas ligados à maior das corporações da grande mídia, as Organizações Globo.

Outra mentira, desta vez com Pedro Sanches apenas corroborando "informações" dadas por Ronaldo Lemos e Oona Castro no livro sobre o tecnobrega. A de que o tecnobrega sofria boicote da grande mídia.

Nem em sonhos, caros amigos! Na primeira hora, o tecnobrega sempre contou, no seu Estado de origem, o Pará (que teve sua proposta de divisão rejeitada semana passada em plebiscito), com o apoio da maior corporação midiática de lá, o grupo O Liberal, da famiglia Maiorana, sobretudo na rádio O Liberal FM.

E, nesse caminho todo, o blogueiro progressista e hostilizado pelos Maiorana, Lúcio Flávio Pinto, definiu o tecnobrega como lixo - contradizendo a euforia dos esquerdistas médios para com o tecnobrega - , os ídolos tecnobregas apareceram fácil, fácil no Domingão do Faustão, toda a velha mídia divulgou favoravelmente o estilo e Gaby Amarantos foi entrevistada por Veja e apareceu no especial de Zezé di Camargo & Luciano na... Rede Globo de Televisão, para milhões de telespectadores.

Por isso, o mito de que essa "cultura popular" não aparece na velha mídia é fruto só da "imaginação" de Pedro Alexandre Sanches & cia.. E a desculpa de que o brega-popularesco aparece na velha grande mídia na forma de uma "invasão rebelde" é tão ridícula que não rende maiores comentários, a não ser que os ídolos "populares" estão lá felizes ao lado dos porta-vozes da grande mídia.

Foi o caso, por exemplo, da Banda Calypso aparecer até ao lado do "bobo da corte" do Instituto Millenium (a "academia" dos demotucanos), o casseta Marcelo Madureira. Vendendo uma falsa imagem de "cultura indie" e de "ativismo de esquerda", a Banda Calypso construiu sua carreira até com boatos de que teria sido indicado ao Nobel da Paz - mentira que nunca colou e ficou por isso mesmo - , entre outras artimanhas astuciosas para construir seu sucesso comercial.

Sanches também tentou trocar as bolas, chamando de axé-music a boa música baiana marginalizada pelo mercadão carnavalesco, como meio de confundir as coisas. Isso porque o termo axé-music foi lançado originalmente, de forma pejorativa, pelo jornalista baiano Hagamenon Brito e se dirigia diretamente ao mercadão carnavalesco de "ivetes", "asas" e "chicletões". E que, depois, o próprio mercadão se rendeu ao nome, vendo o potencial comercial da denominação.

O próprio "funk carioca" se valeu por essa mentira da "discriminação da grande mídia". Mas o ritmo sempre se valeu pela aliança aos barões da grande mídia, e as Organizações Globo sempre mantiveram as portas abertas ao gênero.

E, agora, a coisa torna-se mais explícita, com MC Leonardo escrevendo para o jornal Expresso, da famiglia Marinho, seu padrinho José Padilha colaborando para o supracitado Instituto Millenium e a Rede Globo prometendo uma série sobre o "funk carioca". E até o William Waack dá todo o apoio aos funqueiros no seu Jornal da Globo. Coincidência?

POR QUE A MENTIRALHADA?

Por que as inverdades? Por que a mentiralhada? Certamente, usa-se como pretexto a postura das elites intelectuais de centro-direita "favoráveis" ao povo pobre, mas tudo dentro de uma exploração domesticada e caricatural de sua imagem, que no entanto não desperta suspeitas da intelectualidade média de esquerda, porque esta é de gerações mais jovens que não perceberam vivamente as questões mais complexas acerca das classes populares. Além de seu saber sobre periferia ser praticamente meramente livresco e televisivo.

Isso faz com que a intelectualidade média seja presa fácil de pregações tendenciosas que, mesmo dentro de um contexto aparentemente de esquerda, veicula valores direitistas atribuídos, em tese, à cultura popular, mas que escondem interesses mercadológicos que há muito enriquecem as classes dominantes e, do contrário que se pensa, em nada apavoram os barões da grande mídia.

Daí ser preciso um questionamento maior e mais cauteloso. Porque a centro-direita cultural, através de suas pregações, quer mesmo é que a direita política volte ao poder, reconduzida pelas "simpáticas" crenças da estereotipada "cultura da periferia" trabalhada e patrocinada, com gosto, pelos barões da velha mídia.

Assim, até José Serra pode dormir tranquilo.

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