terça-feira, 27 de dezembro de 2011

IMPRENSA DE ESQUERDA AINDA PAUTA PELA CULTURA DE CENTRO-DIREITA



Por Alexandre Figueiredo

A imprensa escrita de esquerda ainda vive sob a "síndrome do Jornal Nacional". Nos temas políticos, geralmente estrangeiros, a abordagem é explosiva, crítica, contestatória, informativa. Mas, quando o assunto é cultural, sobretudo no Brasil, a abordagem é completamente oposta, sendo ela mais água-com-açúcar, persuasiva, anti-contestatória, marqueteira.

A comparação remete ao que o JN, nos tempos de Cid Moreira e Sérgio Chapelin, mostrava na sua breve meia hora de duração. Sobretudo no tempo da ditadura militar e sob a vigência do temível AI-5.

Nessa época, o JN contrastava notícias políticas internacionais, que mostravam um mundo em tensão, como se fosse uma panela de pressão permanente. Quando se falava em Brasil, no entanto, era quase sempre na santa paz.

Era o país "que vai (ia) para a frente", de um "otimismo incontrolável" ("Ninguém segura esse país", era um dos lemas da época) e tudo parecia um grande paraíso, um país de sorriso arregalado e ingênuo, dócil e meigo, com um quê de imperfeição e inocência misturados feito café e leite.

Cerca de 40 anos depois, é o que se vê, infelizmente, na própria imprensa de esquerda. A natureza não dá saltos, o Brasil, país capitalista, conservador e ainda sub-desenvolvido, sofreu fortes reflexos de políticas ditatoriais, neoliberais, cheias de demagógicos paliativos econômicos que nem de longe resolveram as profundas desigualdades sociais.

Isso reflete na mentalidade média dos cidadãos. Afinal, não foi em 2002 nem agora que o país e seu povo viraram socialistas. Paciência. Se temos uma mídia de esquerda razoavelmente consolidada, no entanto não é todo o seu público que é necessariamente um público leitor de esquerda, pois em boa parte é ainda um público conservador e direitista moderado.

É só percebermos a formação da intelectualidade média de nosso país. Com menos de 50 anos, os heróis dessa intelectualidade são justamente os que fizeram sucesso durante o regime militar: Waldick Soriano, Odair José, Gretchen, Rita Cadillac, Benito di Paula, Amado Batista.

Mesmo a intelectualidade dita "de esquerda" cai no delírio diante desses ídolos, pois na sua formação elitista de classe média, vivia sua infância ou adolescência felizes diante da TV aberta dos anos de chumbo.

E isso refletiu, também, na agenda temática adotada pela imprensa escrita de esquerda. Da natureza não se dá saltos, repetimos, e o que vemos são três periódicos de esquerda que abocanharam um público dissidente de veículos conservadores como o jornal Folha de São Paulo e a revista Isto É.

Trata-se de um público que, mesmo desiludido com os surtos reacionários dos periódicos conservadores que tanto apreciaram, continuou mantendo os mesmos preconceitos obtidos desde que viam televisão nos tempos da ditadura e quando liam a Folha de São Paulo entre 1984 e 2002.

GRANDE IMPRENSA CAI DO PEDESTAL

Por isso vemos o caminho que a imprensa de esquerda trilhou, e não foi da noite para o dia que vimos de cara periódicos socialistas em pleno vapor.

Em primeiro lugar, as revistas Caros Amigos e Carta Capital surgiram mais tímidas, uma como um Pasquim com menos humor (mas com a charge de Claudius, veterano desenhista conhecido nos anos 50 e 60 nas páginas da revista Manchete) e mais ensaios e entrevistas, e outra como uma Isto É bem menos reacionária e ainda menos tendenciosa.

Quem acompanhou as revistas no começo nota-se que elas ainda não tinham uma linha rigorosamente de esquerda. Era porque o mercado ainda não estava receptivo para uma imprensa esquerdista.

Isso porque, até pouco tempo atrás, uma questão de cinco, seis anos, a velha grande imprensa ainda gozava de sua reputação quase divina. Era a época em que o jornalismo, por si só, era considerado a doutrina salvadora da humanidade, e que muita gente acreditava que a imprensa não estava a serviço da cidadania, mas a imprensa estava acima dela.

Portanto, era complicado, na época, questionar o papel da imprensa como guardiã da cidadania. O povo comum perguntava para si se eram os deuses jornalistas. Criticar o jornalismo como via única para o exercício da cidadania era um pecado imperdoável, e quem fazia tais críticas era visto como "alienado", "defensor da censura", "inimigo da liberdade de informação" etc.

Era quase uma heresia, vista erroneamente como estupidez, acreditar que a imprensa não podia estar acima da cidadania, da mesma forma que era obrigatório acreditar que a cidadania só existia em função do jornalismo.

Mas vieram os oportunistas e os arrogantes que, tempos depois, passaram a ser conhecidos como "calunistas" e "urubólogos", e muito daquela segura e inabalável aura começou a ser quebrada pelos dois periódicos. A CBN, quase tão sagrada quanto Jesus Cristo, começou a cair do pedestal. E foi um marco quando Carta Capital começava a falar nos barões da grande mídia, nos chefões da grande imprensa.

PRESSÃO DOS DISTRIBUIDORES

Todavia, a evolução da mídia esquerdista só começava o seu caminho. Houve grandes progressos, e, à medida em que Caros Amigos e Carta Capital começavam a definir a sua cara editorial, o Fórum Social Mundial lançava uma publicação derivada, que se tornou a revista mensal Fórum.

Na editoria política ou nos assuntos sobre o status quo midiático - mas ainda preso ao âmbito do jornalismo político - , os três periódicos passaram a desenvolver seus brilhantes perfis, informando a respeito dos movimentos sociais e dos problemas de ordem política, econômica e midiática, dentro dessa perspectiva.

Mas, no que diz à editoria cultural, os três periódicos ainda sucumbem aos seus piores pecados, chegando mesmo a uma abordagem bastante oposta ao de sua linha editorial geral, num caminho inverso à relação entre a Folha de São Paulo e seu extinto caderno literário Mais!.

Para quem não sabe, o Mais! era o único espaço que a FSP reservava para a esquerda intelectual. No cardápio, havia geralmente pensadores estrangeiros de esquerda, cujos temas críticos iam desde a crise da globalização até a hegemonia e a imbecilização cultural do mundo do espetáculo.

Mas tais abordagens eram ideias de fora, e a FSP queria dar a impressão de que o esquerdismo intelectual era um luxo das sociedades européias, cujos pontos de vista eram tidos como "impróprios" para nossa realidade.

Só que a gente até pode pensar se mesmo o Mais! não teria influído na abordagem centro-direitista que vemos na imprensa esquerdista. Em todo o caso, a Folha de São Paulo influiu decisivamente na "direitização" da pauta cultural da imprensa de esquerda, ainda que de forma quase indireta.

Quase, porque o maior astro da centro-direita cultural no momento, Pedro Alexandre Sanches, "cobra-criada" do Projeto Folha, é colaborador da imprensa esquerdista. Quem é que colocou ele lá não se sabe realmente, mas dá para perceber um possível motivo que fez esse crítico musical saltar de pára-quedas na imprensa de esquerda, para pregar sutilmente seus preconceitos de centro-direita.

Talvez a medida tenha ocorrido em função da pressão dos distribuidores. Afinal, existe uma relação direta ou indireta com os distribuidores de jornais e revistas, Fernando Chinaglia Distribuidores e DINAP (Distribuidora Nacional de Publicações S/A) e o Instituto de Verificação de Circulação (IVC) com a velha mídia e com a Associação Nacional de Jornais.

Só um aspecto já aponta uma ligação direta. A DINAP, que distribui Caros Amigos, no entanto é propriedade do Grupo Abril. Pedro Alex Sanches havia colaborado, além da Folha, nas revistas Época (das Organizações Globo) e Bravo (do Grupo Abril). E já fazia suas defesas do establishment do entretenimento brasileiro, aquele supostamente associado à atual cultura popular.

O MITO DA "PUREZA CULTURAL"

Aí voltamos ao Jornal Nacional. A imprensa esquerdista, provavelmente sob a pressão dos distribuidores, passou a criar um contraste surreal entre o explosivo mundo político e o dócil e quase debilóide país cultural que se converteu o Brasil, nessa perspectiva.

Criou-se uma visão oficial e dominante sobre "cultura popular" que, embora se autoproclame "sem preconceitos" e se diga "solidária" ao povo pobre, esconde conceitos que, de forma bem explícita, também são os mesmos divulgados por veículos "flexíveis" da mídia direitista, que é o caso da própria Folha de São Paulo e da Rede Globo de Televisão.

É muito estranho que se trata de uma visão cultural que não represente qualquer ruptura com a visão difundida pela velha mídia. É como se a cultura popular fosse vista como um processo de "pureza", dissociada do âmbito social, político e econômico, e o povo pobre sendo visto como crianças dóceis e inofensivas.

Através de Pedro Alexandre Sanches, estabelece-se um discurso ideológico que, à maneira de Ali Kamel, joga-se por debaixo do tapete quaisquer questões sobre manipulação cultural das massas pela chamada indústria cultural.

Juntamente com Sanches, outro que colabora para a propaganda do establishment brega-popularesco é MC Leonardo, funqueiro "redescoberto" pelo cineasta José Padilha, que colabora no Instituto Millenium junto com jornalistas e militantes demotucanos. O funqueiro, por sua vez, também assina uma coluna no jornal popularesco Expresso, das Organizações Globo, famosa pelo seu apoio explícito ao "funk carioca", que muitos se recusam a admitir.

No entanto, esse discurso, pelo seu tom sentimentalóide e pela promessa, falsa, de "ruptura com os preconceitos", praticamente conquista o apoio de setores medianos da opinião pública, e acaba invertendo os conceitos de "preconceito", numa verdadeira discriminação do senso crítico.

Pois se ouvirmos dez, cem ou mil vezes a música brega-popularesca e continuarmos rejeitando, por mais que tenhamos ideia precisa do que isso se trata, somos tidos como "preconceituosos". Mas se nunca ouvirmos seus ídolos e nem ter ideia exata de quem eles são, mas os aprovamos incondicionalmente, então "não temos preconceitos".

Muitos equívocos sérios dessa abordagem "sem preconceitos" são descritos neste blogue, e nesse discurso ideológico feito por Sanches e por outros intelectuais da "panelinha" - Paulo César Araújo, Hermano Vianna, Bia Abramo, Ronaldo Lemos, Oona Castro, Rodrigo Faour, Milton Moura e outros - , nota-se vestígios das mais diversas abordagens do pensamento neoliberal mundial, de Auguste Comte a Francis Fukuyama, passando pelo próprio ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

Coincidência? Afinal, essa pretensa "esquerda" intelectual simplesmente se inspira no pensamento conservador da centro-direita, nos seus mais diversos aspectos. Ninguém assume nem desmente essa constatação, mas o silêncio da intelectualidade etnocêntrica - assim chamada por ver o povo pobre de forma paternalista, ainda que "positiva" - diz tudo.

Por isso a mídia esquerdista começa a sentir as cobranças da opinião pública diante da agenda temática cultural de centro-direita. Não dá para tapar o sol com a peneira, e dizer que aqueles "sucessos populares" que rolam até no Domingão do Faustão estão "fora da mídia" ou "não tem a ver" com o mercado.

O caso da associação do "funk carioca" com as Organizações Globo - realidade da qual muitos literalmente têm medo de aceitar - é sintomático. Como o é também quando "coitados" da temporada, seja o falecido Waldick Soriano, sejam nomes como Banda Calypso e Gaby Amarantos, facilmente têm acesso à velha grande mídia.

Da mesma forma, chama a atenção a própria inversão ideológica dessa intelectualidade, que, mesmo se dizendo "de esquerda", assume sua preferência para nomes claramente conservadores como Waldick e Benito di Paula, em detrimento de verdadeiros esquerdistas como Chico Buarque, a verdadeira vítima de preconceito, por ser um artista de classe média que não pode defender a cultura popular.

Com isso, a imprensa de esquerda encontra-se num sério dilema, que é de rever sua editoria cultural. Ou então terá que engolir as gozações da extrema-direita cultural, como Olavo de Carvalho, já que a postura frouxa dos intelectuais esquerdistas em relação ao brega-popularesco e aos arautos da centro-direita cultural pode fazer a direitona arrotar pretensa superioridade.

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