quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

"FUNK" NA GLOBO CONTRA "PRIMAVERAS" E "LEY DE MEDIOS"



Por Alexandre Figueiredo

Dezembro começou movimentado na Rede Globo. Houve o troca-troca de apresentadoras, com Fátima Bernardes deixando o Jornal Nacional para criar um novo programa de entrevistas - a ser lançado no segundo semestre do próximo ano - , Patrícia Poeta deixando o Fantástico para substituir Fátima no JN e Renata Ceribelli substituindo Patrícia no Fantástico.

Além disso, há o livro do executivo José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni - pai do Boninho, o verdadeiro big brother brasil - , intitulado simplesmente O Livro do Boni, que fala sobretudo da competição que ele tinha com o antes parceiro Walter Clark, já falecido. Era uma competição que, no entanto, não terá equivalente na competição que veremos entre Ali Kamel e Amaury Soares no telejornalismo da Rede Globo, porque, por mais ambiciosa que esta seja, ela é fichinha diante da outra competição.

Boni tenta fazer uma mea culpa no episódio da manipulação da Rede Globo para eleger Fernando Collor presidente. Eu mesmo, lá pelos meus 18 anos de idade em 1989, embora parecesse ainda um adolescente, já estranhava a edição do telejornal na época, porque eu mesmo vi o debate e achei Collor arrogante e inconsistente. Mas a Globo havia feito uma edição para transformar Collor num "debatedor inteligente" e eu mesmo desconfiei disso na época.

Agora, a própria Globo tem que reconhecer esses "erros", num simulacro de autocrítica feito para evitar que aumentem as pressões pela regulação da mídia. Seria uma forma, segundo o blogueiro Marco Aurélio Mello, dos donos da Globo, os irmãos Marinho, entregarem parte dos anéis para preservar os dedos.

E aí tem o "funk carioca". "Ah, a maravilhosa cultura das periferias", dizem os incautos. "O grito de dor contra o preconceito", exageram intelectuais claramente paternalistas mas "divinizados" por seus pares. Mas o que faz o "funk carioca" tão feliz e faceiro, rebolando livremente até o chão nos cenários e ambientes globais? É alegria demais para quem acredita que o "funk carioca" executa uma "invasão rebelde" na velha mídia.

Não, não se trata dessa tese delirante e fantasiosa. O "funk carioca" nunca esteve contra a grande mídia, e nem está. Está, isso sim, a favor dela, porque, no fundo, é seu subproduto. Seu som, seus valores, seu conteúdo, tudo isso mostra valores defendidos pela grande mídia, através de uma visão etnocêntrica de pobreza que a glamouriza, para permitir o controle social e a domesticação das classes populares.

Por isso não é estranha essa parceria do "funk carioca" com a Rede Globo - e, em parte, com a Folha de São Paulo - , a ser coroada com uma série que será lançada para comemorar os dez anos de parceria intensa entre os barões do "funk" e os barões da mídia.

Pois a Rede Globo, se descuidando de seu repórter Tim Lopes, deixou o jornalista - um dos raros que não seguiam rigorosamente a linha ideológica da emissora - à própria sorte quando, investigando a exploração de menores nos "bailes funk", foi sequestrado e morto por um grupo de traficantes da Penha, no subúrbio do Rio de Janeiro.

A Globo chorou lágrimas de crocodilo - não se leva em conta, aqui, a verdadeira solidariedade que os colegas de Tim sentiram por ele, mas a Globo, como pessoa jurídica - pela morte de Tim Lopes e, passada a choradeira, os irmãos Marinho (com o pai, "doutor" Roberto, ainda vivo mas no ocaso de sua vida e já doente) logo se reuniram com os Frias e os Civita para bolar um meio de manipular as populações pobres com muito mais eficácia.

Aí veio o "funk carioca", cujos DJs-empresários estavam relançando na segunda grande onda de modismo (a primeira foi em 1990 e a segunda, entre 1999 e 2001). Cansados de viver apenas de modismos provisórios, os donos do "funk carioca" - que entre 1999 e 2001 haviam lançado desde bordões como "Ah Eu tô Maluco" até o refrão "Tá Tudo Dominado", passando pelo "Cerol na Mão" de Bonde do Tigrão, SD Boyz e derivados - viram uma boa oportunidade de embarcar nessa campanha toda para transformar o negócio deles em algo duradouro.

Daí todo um discurso que brincava, literalmente, com os mais avançados recursos discursivos, com as mais diversas abordagens intelectuais. Sem que algo realmente sério fosse escrito a respeito do "funk carioca", esse amontoado de teses delirantes, confusas, de alusões surreais e fora da realidade se beneficiou pelo apelo sentimental de seus argumentos, usando como pretexto o "preconceito" dado contra os funqueiros.

Mas essa choradeira dotada de muita roupagem acadêmica e jornalística só serviu mesmo para exaltar o grotesco funqueiro e imobilizar as classes populares através da apologia à pobreza. O povo era jogado aos seus valores morais mais baixos, à hegemonia do grotesco, o povo era transformado no seu próprio estereótipo, na representação viva dos próprios preconceitos que a classe média, a pretexto de livrar-se dos mesmos, os "imprimia" no cotidiano das periferias.

É como se as elites dissessem: "Preconceituosos, nós? Nãããoooo... O que a gente pensa do povo é o que o povo vive, o povo é isso mesmo, o aspecto grosseiro do povo é consequência da própria realidade em que vive. Nós não somos culpados disso".

Pronto. E vemos uma intelectualidade santificada justamente por adotar essa mesma visão. E gente que vai correndo seguir o Emir Sader no Twitter, mas no fundo segue a visão "não-racista" (e, por conseguinte, "não-elitista" e "não-preconceituosa") do senhor das trevas da Globo, Ali Kamel.

E agora o "funk carioca" e a Rede Globo comemoram sua longa parceria com uma série. Os investimentos pesados e entusiasmados das Organizações Globo com o "funk carioca" não são por acaso. Depois de domesticar as classes populares, a Globo quer amestrar a classe C com o espetáculo do grotesco que só o politicamente correto define como "uma forma diferente de alto nível que nós não conseguimos perceber".

E isso tem como propósito impedir que nossa sociedade, inclusive os intelectuais, percebam a urgência das "primaveras" estrangeiras que nos alertam pela crise do capitalismo, pela saturação das ditaduras árabes, pelo desgaste do arbítrio político conservador.

Aí inventa-se que o "funk carioca" é o nosso "Ocupar Wall Street" e todo o teatrinho retórico é feito através de eventos como o Rio Parada Funk, lançado justamente para desviar as atenções públicas para as revoltas contra o capitalismo na Europa e nos EUA.

Sabe-se que revoltas assim são capazes de derrubar um Silvio Berlusconi, empresário, dirigente esportivo e político poderoso. E são capazes de fazer ações das Bolsas de Valores ficarem em baixa. Daí a demagogia reinante no nosso Brasil, um dos poucos países onde o egoísta define seu egoísmo como "uma forma diferente de altruísmo" e muita gente acredita.

Aí inventa-se que o "funk carioca" é uma "rebelião popular", e capricha-se em toda a encenação. Funqueiros na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, falando para educadores e parlamentares, exibindo faixas "de protesto", tudo o mais. Eventos de rua alardeados pela velha grande mídia. Intelectuais "comprados" pelos dirigentes funqueiros para tentar convencer a esquerda a abraçar também a "causa" funqueira.

E todo esse teatrinho visa dois maiores objetivos: primeiro, evitar que o Brasil sofra os efeitos das "primaveras estrangeiras" e, segundo, para evitar que o povo assimile a campanha pela regulação da mídia.

Em ambos os casos, os funqueiros enganam, vistos como defensores de causas que, no fundo, combatem furiosamente, como "Cabos Anselmos" modernos. Dizem defender a regulação da mídia e as revoltas sociais, a pretexto de "sempre defender a cidadania" e de "ser também um movimento social".

Mas, por trás desse simulacro discursivo, o "funk carioca" aprisiona o povo pobre na miséria e no imobilismo social, enquanto contribui para fazer da regulação da mídia uma letra morta, porque tudo o que os militantes pela cidadania nos meios de comunicação definir como baixarias, no "funk" elas são relançadas como se fossem "valores modernos e mal-compreendidos".

É assim que se lança uma armadilha. A intelectualidade vê a ratoeira na sua frente, mas ignora a armadilha, fascinada com o queijo que está sobre ela. E assim o "funk carioca" faz uma rasteira na intelectualidade que o aplaude e consolida ainda mais sua parceria com a Rede Globo, enquanto os incautos ainda acreditam que o "funk carioca" está fora da grande mídia.

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