segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

A FACILIDADE DE SE CRIAR CANTORES "SERTANEJOS"



Por Alexandre Figueiredo

Intelectualidade tão boazinha... Ela, em que pese toda a pesquisa bibliográfica que faz, toda a pesquisa de campo que realiza, todas as entrevistas que faz (no caso dos jornalistas), ainda acredita que o brega-popularesco, a "cultura popular de proveta" nascida do cativeiro da velha grande mídia, só está nessa mídia por questão de invasão conspiratória.

Vá entender essa tese delirante, enquanto ídolos bregas e neo-bregas aparecem felizes ao lado dos barões da grande mídia. Invasão? Rebelião? Como, se os próprios ídolos são despolitizados? O Chimbinha pode ser um dos maiores espertalhões do país, mas é incapaz de fazer uma entrevista com uma análise política relevante como Chico Buarque.

Mas se essa tese de "conspiração midiática" não consegue esconder seu alto grau de mentira é através da dita "música sertaneja". Seu histórico envolvimento com os proprietários de terras - sejam os "tradicionais" latifundiários, sejam os jovens viscondes do agronegócio - , que não escondem que patrocinam explicitamente seus cantores, duplas e grupos, é algo que não pode ser dissimulado nem desmentido, mesmo em textos cheios de "rodeios" (discursivos, no caso).

O próprio som "sertanejo" e o histórico dos seus ídolos tem um quê de claramente conservador. É evidente que a velha mídia põe o "sertanejo" como um contraponto aos excessos do "funk carioca", por exemplo, mas no fundo os dois são essencialmente a mesma coisa. Pseudo-cultura "popular" para amestrar as classes populares.

No entanto, o "sertanejo" não pode, por suas caraterísticas, ser mascarado de "vanguardista" ou "esquerdista". Não dá para chamar uma de suas duplas de pós-tropicalista, mesmo quando ela está sob os afagos de Caetano Veloso.

Não dá para pôr um chapéu de bananas na cabeça do Zezé di Camargo. E nem dá para chamar ele e seu irmão Luciano de "esquerdistas" porque, apesar do alarde deles terem votado em Lula em 2002, também votaram no demo Ronaldo Caiado. E Zezé, pouco depois, foi para as passeatas do movimento Cansei ao lado de Ivete Sangalo e outros. Luciano, por estratégia, não participou.

Chitãozinho & Xororó, nem se fala, eles apoiaram claramente o demotucanato e hoje parecem sinalizar para apoiar o PSD de Kassab. Os demais seguem mais ou menos a mesma linha ideológica, e ninguém pense que os chamados "universitários" pareçam mais diferentes do que os "tradicionais".

Pois o chamado "sertanejo universitário" tornou-se uma praga nos últimos anos. Um ritmo que, no fundo, não é sertanejo nem universitário, pois até Luan Santana então adolescente era tido como "universitário". Trata-se apenas de um rótulo claramente mercadológico para localizar uma geração de breganejos que vê muito MTV e cujo som, na verdade, estaria para o folk rock assim como o emo de grupos como Restart, Fresno e NX Zero está para o punk rock.

O som, portanto, nem de longe representa um "sertanejo de raiz renovado". O tal "sertanejo universitário" não é mais do que uma linha de montagem que se divide em dois métodos: um é fazer um "roquinho acústico" pasteurizado, como Victor & Léo e Luan Santana fazem, outro é um pastiche de "música rural", com alguns arranjos de forró-brega, como se ouve em João Bosco & Vinícius e Jorge & Mateus.

A fórmula é tão fácil quanto a dos breganejos mais antigos. E veste-se de caubói de toda forma, mas com a diferença que os "universitários" têm a aparência de galãs de novela que os "tradicionais" não têm. Mesmo a aparência galântica de Zezé di Camargo ainda tem um quê de "interior" que não o enquadra na estética "Malhação" dos jovens cantores.

Mas o "sertanejo universitário" é tão oportunista que uma de suas duplas mais "populares" e com maior número de fanáticos reacionários preferiu plagiar os nomes de dois grandes mestres da MPB autêntica para fazer pirraça. É o caso de João Bosco & Vinícius.

Pois pouco importa se os nomes desses dois são verdadeiros ou não, embora seja comum o uso de pseudônimos para essas duplas (Zezé di Camargo & Luciano, por exemplo, são na verdade Mirosmar e Welson). Mas poderiam ter usado um outro nome artístico que não fizesse trocadilho com o cantor-compositor de "O Bêbado e o Equilibrista" e do poeta e letrista de "Garota de Ipanema".

Isso complica até na busca do Google, pois nem a palavra-chave "'João Bosco' + cantor" permite que as buscas priorizem o veterano cantor mineiro. Pelo contrário, logo na primeira página, a jovem dupla parece levar a melhor, desestimulando a quem quiser pesquisar sobre a MPB autêntica que, sabemos, não é a de lotadores de plateias.

Mas o próprio som "sertanejo universitário" não difere muito dos "tradicionais". A diferença é que, enquanto a geração de Chitãozinho & Xororó, Leonardo, Daniel, Zezé di Camargo & Luciano, Gian & Giovani, Rick & Renner, Rionegro & Solimões, Bruno & Marrone e César Menotti & Fabiano estão mais próximos de Waldick Soriano, os mais jovens já seguem a linha de Odair José, com maior ênfase na guitarra elétrica, esse instrumento que é ideologicamente neutro e só é tido como "revolucionário" para os intelectuais etnocêntricos dotados de delírios pós-tropicalistas.

Aliás, só um parêntesis: se a guitarra elétrica fosse em si "revolucionária", até o padre Zezinho seria equiparado a Jimi Hendrix e o ídolo católico seria considerado musicalmente mais ousado que o cantor chileno Victor Jara. Só que isso não tem a ver. Jimi Hendrix e Victor Jara eram brilhantes mesmo sendo um deles "eletrificado" e outro "acústico". E o padre Zezinho é musicalmente bastante conservador.

Sobre o "sertanejo universitário", a praga se dá na medida em que formar grupos assim é tão fácil que já deve ter um monte desses "sertanejos" nos condomínios de luxo da Zona Sul de São Paulo e na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. Usa-se camisa de flanela, jeans, botas e chapéu de caubói e forja-se o ar de caixeiro viajante e basta fazer apenas um roquinho com violão ali e um falso baião countryficado acolá e aí vira "sertanejo".

Em outras oportunidades, já escrevi que o "sertanejo universitário" tem o mesmo sentido conservador que as autoridades que apoiaram a ditadura militar sonhavam com o acordo MEC-Usaid. O próprio desprezo às verdadeiras raízes da música brasileira, ou mesmo às lições da MPB autêntica e autenticamente universitária, dá o tom da postura dos "novos sertanejos".

Pelo menos, com todo o direitismo que faz do roqueiro Lobão ser uma espécie de "Arnaldo Jabor com guitarras", ele não deixa de estar certo quando define os tais "sertanejos universitários" como agrobregas. Porque eles podem não ser sertanejos nem universitários (independente de terem cursado o nível superior ou não; o que se fala aqui é no sentido ideológico do engajamento universitário), mas são neo-bregas e fazem a trilha sonora do agronegócio.

Kátia Abreu deve ter muito orgulho do "sertanejo universitário".

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