quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

ESTRANHA TESE INTELECTUAL SOBRE CULTURA POPULAR E TECNOLOGIA



Por Alexandre Figueiredo

Lendo os vários textos dos ideólogos da pretensa "cultura popular", eles são dotados de uma tese muito estranha quando analisam as relações entre o povo pobre e as tecnologias.

Eles atribuem ao povo pobre uma suposta posse na tecnologia de ponta, ou no mais próspero domínio tecnológico nas suas formas de expressão artística e cultural.

É um raciocínio torto, que esconde os problemas sociais em vez de resolvê-los, e que supõe, falsamente, que os problemas de ordem sócio-econômica já estariam resolvidos culturalmente. Mas a "cultura"tão mencionada por essa intelectualidade "divinizada" e de alta visibilidade e por seus ideólogos santificados por setores pouco críticos da opinião pública, é a pseudo-cultura sustentada pelos barões da mídia e do entretenimento.

Essa tese cria sérios equívocos. Para começar, pressupõe a delirante tese de que pessoas que, pelas suas dificuldades financeiras, são incapazes de adquirir um sítio para plantar seus próprios alimentos, são no entanto capazes de montar uma estrutura de palco e de equipamentos para expressão de movimentos culturais. E, pasmem, com tecnologia de ponta.

É uma tese esquizofrênica, cuja validade e crédito só vingaram porque, desde os anos 90, o Brasil vive uma crise de valores. Para um país que acredita que seus ídolos da "cultura alternativa" são Lady Gaga e Beyoncé, é porque algo errado está acontecendo. Seria o mesmo que dizer que Fernando Henrique Cardoso é o nosso ícone da ideologia guevarista e neo-bolivariana.

Criam-se teses totalmente delirantes, mas protegidas pela roupagem "científica" que os mecanismos de burocracia e poder repercussivo (que garante os privilégios de visibilidade de certos ideólogos), que entram seriamente em contradição, quando analisadas com o devido senso crítico.

Se, através dessa tese, vemos a contradição de um povo longe de ser próspero, que não consegue comprar um sítio, mal consegue viver num barraco de favela, mas é tido como detentor de tecnologia de ponta, outras contradições chegam à tona nesse discurso normalmente aplaudido por plateias de pouca análise.

Primeiro, porque, de repente, aquelas tão conhecidas "rádios FM só-sucesso", que eram o establishment do mainstream brasileiro, agora são conhecidas como "alternativas". Imagine, o mesmo cardápio musical da Nativa FM, paradigma do hit-parade do hit-parade do hit-parade brasileiro (não é erro gráfico, a repetição reforça o topo do "sistemão" radiofônico que essa emissora representa), agora é classificado como "mídia alternativa", "mídia nanica".

Isso se deve sobretudo por uma manobra que faz uma verdadeira "pegadinha" na intelectualidade. É que muitas rádios comunitárias, controladas por deputados e vereadores inescrupulosos, repetem o mesmo esquema jabazeiro das rádios "só-sucesso", e isso faz com que cientistas sociais de pouco senso crítico (ou talvez sustentados pelo mesmo esquema jabazeiro dos barões do entretenimento) pensem que aquele repertório musical "só-sucesso" é "uma rebelião das mídias alternativas contra a grande mídia".

Não, não vamos acreditar que os despolitizados ídolos do brega-popularesco, dos emotivos "sertanejos" aos ambiciosos funqueiros, usem a grande mídia para conspirar contra ela e invadi-la como se fossem a revolução da barbárie nos redutos do "bom gosto" elitista.

Tal tese, a do parágrafo anterior, também mostra seu grave equívoco na medida em que ídolos brega-popularescos e barões da grande mídia aparecem felizes movendo o mercado do entretenimento, confraternizando-se na promoção do "sistemão" lúdico que manobra o povo pobre há muito tempo.

Mas a contradição mais hilária é a tecnológica. Tomando emprestado os mesmos delírios tecnocráticos dos gurus da informática direitista, a intelectualidade cultural "de esquerda" - mas que a cada dia mostra-se a serviço da centro-direita cultural - , eles atribuem o sucesso do brega-popularesco às revoluções tecnológicas da Internet.

É um complemento da tese de que o povo pobre não tem casa, comida, educação nem saúde, mas é detentora de tecnologia de ponta. Ou seja, além de deter a tecnologia de luzes, equipamentos, moda etc, ainda estão ligados à nanotecnologia e à mundialização.

Embora seja uma tese servida de bandeja às esquerdas, nota-se o tom neoliberal da mesma. Ela evoca uma perspectiva de transformação neoliberal por conta da tecnologia e da globalização, dentro dessas concepções ideológicas.

Dizer que a periferia tornou-se "mundializada" e "futurista" não resolve os problemas que estão acerca dela. A colocação de parabólicas nas favelas não fez o povo pobre falar fluentemente inglês ou adotar táticas de guerrilha ideológica.

Mas nem as FMs que estão no topo do Ibope se converteram em equivalentes modernos das antigas free radios que fizeram comunicações clandestinas além das fronteiras nacionais. Até porque elas mal conseguem ir além de fronteiras metropolitanas e, quando muito, apenas seguem as estruturas comerciais das redes nacionais ou estaduais de radiodifusão.

Portanto, a intelectualidade etnocêntrica tentou falar bonito e pensar brilhante, mas tão somente expôs seus preconceitos positivamente elitistas, que parecem defender o povo pobre mas só o defendem dentro de condições subordinadas. Mas, atribuindo às periferias um inexistente futurismo tecnológico, ela na verdade transforma o povo pobre numa multidão automatizada, escrava de mecanismos tecnocráticos de dominação.

Dentro de uma perspectiva paternalista em relação às classes populares, a intelectualidade tenta omitir que a mídia que estas se servem é controlada pelos detentores do poder político e econômico, e que o domínio tecnológico das periferias ainda é um privilégio de uma classe média baixa surgida de setores relativamente emancipados das classes pobres.

Muito dessa dita "cultura da periferia" é controlada direta ou indiretamente pelos barões do entretenimento, sob o claro apoio dos barões da velha mídia. E, vendo que a breguice dominantes se constituem num atraso, não pode ser classificada de "moderna" e "futurista" e, por sua despolitização, não pode ser considerada uma conspiração contra a mesma mídia que a recebe de braços abertos.

Antes essa despolitizada multidão de brega-popularescos se aliasse, feliz, à centro-direita que controla os maiores veículos da grande mídia, porque ela lhes satisfaz em todos os seus interesses e desejos.

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