segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

EMIR SADER TAMBÉM ALFINETA O BREGA-POPULARESCO



Por Alexandre Figueiredo

A rota de colisão da intelectualidade etnocêntrica com a verdadeira intelectualidade de esquerda já é sinalizada pela nossa torre de comando. Aparentemente, vemos um céu de brigadeiro, sem qualquer tempestade a caminho, mas a intelectualidade que defende a "cultura de massa" está prestes a divergir violentamente da intelectualidade que critica a mercantilização da cultura popular.

Isso é batata. Pensadores mais lúcidos, como Eduardo Guimarães, Emir Sader, Rodrigo Vianna e Venício A. de Lima não têm ilusões quanto às manobras mercadológicas que distorcem e descaraterizam a cultura popular. E constatar isso nada tem a ver com preconceitos higienistas ou com protecionismos de qualquer aspecto. Mas, sim, uma constatação seriíssima de que algo não anda bem na cultura brasileira.

Pois Emir Sader, ao analisar os males da globalização nas culturas locais, falou da ameaça que esse processo descontrolado exerce nas mesmas, afetando violentamente em crenças, costumes, hábitos e relações sociais.

Se confrontarmos esse alerta com declarações "otimistas" de Pedro Alexandre Sanches, veríamos a chocante divergência entre um e outro, porque o parágrafo acima seria considerado pelo colonista-paçoca como "pura expressão de preconceito e moralismo elitista e provinciano".

A declaração também deveria causar um sério horror ao professor mineiro Eugênio Arantes Raggi, um "vejista" enrustido metido a "militante esquerdista" - deve ser para agradar a esposa dele - e que se gaba em seguir o Emir Sader no Twitter. Essa adesão do "cabo Anselmo da Pampulha" será mero teatrinho de pseudo-esquerdista ou "espionagem" para dedurar a mídia esquerdista para os amiguinhos no portal do Globo Esporte?

Quanto à globalização, vale uma análise. Não que sejamos impedidos de assimilar a cultura de fora. Até certo ponto, assimilá-la é um processo bastante saudável de enriquecermos social e culturalmente, mesmo quando tendências de fora são inteiramente transplantadas aqui. Mas, de forma descontrolada e decidida sempre "de cima", ela é nociva para as nossas referências locais, ameaçadas de desaparecimento ou de descaraterização.

É o que se vê no brega-popularesco, que é uma colcha de retalhos que deturpa os ritmos populares brasileiros numa "linha de montagem" que esconde a supremacia de ritmos do hit-parade estrangeiro.

Não se trata do mesmo processo do Rock Brasil de décadas atrás, que era espontaneamente assimilado pelos seus músicos, que no entanto o traduziam com a mais genuína linguagem local. E, apesar da influência radiofônica, o Rock Brasil ainda vivia de valores sociais transmitidos de forma comunitária, através dos amigos.

O brega-popularesco não. Seus ritmos, como o "pagode romântico", o "sertanejo", o "funk carioca", mostram claramente a imposição radiofônica em detrimento da comunidade. O povo pobre é apenas associado como consumidor e servo desse mercado, que no entanto é muito mais elitista do que qualquer "MPB biscoito-fino" com os mesmos ranços bossa-novistas.

Isso porque, em ritmos como "pagode romântico" e "sertanejo", por exemplo, o que se ouve neles não são o samba e a música caipira revigorados ou modernizados, mas sim a sua estereotipação caricata diluída em influências estrangeiras assimiladas de forma subordinada, ou seja, por imposição do mercado. Dessa forma, o "pagode romântico" emula a soul music e o "sertanejo" a música country (em especial o Nashville Sound) de forma tão caricata quanto os falsos sambas e falsas modinhas tocados por seus músicos.

Essa constatação, "preconceituosa" para a intelectualidade etnocêntrica, é na verdade um problema que requer uma discussão séria em torno de nossa cultura. Entregar o futuro da cultura popular a meros cardápios musicais e comportamentais de emissoras de rádio FM e TV aberta e de jornais "populares" controlados por oligarquias não é valorizar a cultura popular.

Pelo contrário, isso é manter a escravidão cultural que transforma o povo pobre em meros bobos da corte da intelectualidade "divinizada", que, como "elite pensante", também mostra seus fortes preconceitos na medida em que precisam pagar o salário de suas empregadas domésticas e a tirar alguma satisfação com porteiros de prédios, faxineiros, garis e camelôs.

Bóris Casoy e Reinaldo Azevedo também comem certas paçocas.

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