segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

A "CULTURA POPULAR" DO ATRASO



Por Alexandre Figueiredo

"Não somos atrasados", "não somos alienados", "não somos cafonas". Esse é o discurso da pseudo-cultura "popular" midiática, que toma conta das rádios e das TVs, corroborada pela intelectualidade associada.

Apesar de ser um discurso pretensamente de esquerda - por cortesia de Pedro Alexandre Sanches e quejandos - , essas frases seguem muito bem a tese "não somos racistas" de Ali Kamel, o "todo-poderoso" chefão do jornalismo da Rede Globo.

Pois essa "cultura popular" de muito sucesso comercial na grande mídia não pode ser considerada antítese a ela. Se seus ídolos são despolitizados, que "rebelião" ou "ameaça" eles representam para a velha mídia, se são facilmente e alegremente integrados a ela?

Essa "cultura" é defendida largamente pela intelectualidade associada, que praticamente faz a opinião pública refém de suas teses, na verdade movimenta um mercado milionário que alimenta as fortunas das elites dominantes. Ela só é associada às periferias por mera formalidade publicitária, porque o máximo que as periferias fazem nesse mercadão do entretenimento é o papel de meros consumidores ou, quando viram "artistas", serviçais do esquemão armado pelos barões do entretenimento.

É claro que muita gente ainda tem medo dessa constatação. Revelá-la cria um medo, que é reagido com silêncio arrogante. No caso do "funk carioca", isso é sintomático. Por mais que os blogues progressistas descubram as ligações entre os funqueiros e as elites neoliberais, a informação que prevalece oficialmente é que o "funk carioca" é uma "rebelião popular que toma de assalto a velha grande mídia".

O pior é que essa intelectualidade pode veicular as mais constrangedoras inverdades que elas viram "verdades" por conta da visibilidade de quem as transmite. Como o próprio caso de Pedro Alexandre Sanches achar que quem aparece em Caras é só a MPB biscoito fino. Se ele folheasse a revista e visse o que tem de "sertanejos" e "pagodeiros" lá, além de alguns funqueiros...

Essa pseudo-cultura é a "cultura do atraso". Se ela tem de "moderno" é a atualização da "cultura do cabresto", que só tardiamente teve um braço no entretenimento brasileiro. Ele é claramente patrocinado pelas oligarquias empresariais, políticas, midiáticas e latifundiárias, e com muito gosto, diga-se de passagem.

De "moderno" também, só existe o marketing. Mas seus ídolos mostram uma mediocridade que nenhuma propaganda sentimentalóide pode desmentir. Afinal, é só tocar o CD ou o DVD, ou ver esses ídolos na televisão que qualquer tese de "coitadinhos culturais" e de pretensos "injustiçados pelo preconceito" cai por terra.

Até porque é fácil se passar por "coitadinho" quando não se tem muito o que dizer. Já pensou se a moda pega e José Serra também se passa por "vítima de preconceito"? Jair Bolsonaro e Roberto Requião também fizeram esse teatrinho.

Artisticamente, o brega-popularesco é tão velho que mesmo ídolos recentes como Luan Santana parecem ter 20 anos de carreira de tão mofados e velhos. A MPB autêntica do passado continua tendo força porque era uma força viva, uma arte imperecível, porque verdadeira, autêntica, forte, de qualidade e transmissora de conhecimentos, de valores e de uma boa estética.

Sim, porque fala-se tanto em "preconceito" contra os ídolos brega-popularescos, mas esses intelectuais têm mesmo é o preconceito contra as questões estéticas. Se for por Pedro Alexandre Sanches, tudo o que for escrito de estética em livros publicados no Brasil vai para o lixo.

Porque cultura não é algo qualquer nota que surge ao sabor do vento. Ele implica conhecimento, processos sociais, relações e expressões humanas. O que se vê em funqueiros, tecnobregas, breganejos, sambregas, "bregas setentistas" e outros é tão somente um marketing arrojado, que no entanto só serve para "vender o peixe".

Nada daquilo é de realmente humano, autêntico ou coisa parecida. Independente da origem pobre ou não desses "artistas", eles são produtos de mídia, que precisam se passar por "coitadinhos" porque a competitividade voraz do brega-popularesco não permite que uma Gaby Amarantos possa competir direto com Ivete Sangalo e Paula Fernandes, ou que um Leandro Lehart concorra com Belo e Alexandre Pires. O mercado é cruel, mas nem todos aqueles que estão em desvantagem é porque é contra as regras mercadológicas.

O problema é que a expressão artística da mediocridade cultural é evidente. Ninguém nasce sabendo, mas o maior erro dos ídolos brega-popularescos é que eles transformam seus "micos" de começo de carreira em sucessos. Depois se arrependem.

E eles, tidos como "vítimas de preconceitos", na verdade são os maiores preconceituosos. Eles é que discriminaram a MPB no começo de carreira: esnobes, achavam que MPB não enchia barriga nem pegava as contas. Abandonaram a MPB em prol de um som qualquer nota feito muitas vezes de pirraça ou ignorância, dentro de um contexto de classes populares - a sua "massa" de consumo - com sérios problemas de escolaridade e economia.

Só depois, quando conseguem o sucesso comercial, mas recebem as primeiras críticas, é que esses ídolos "pensam na MPB". De uma forma ou de outra, querem fazer parte de um meio que era visto com indiferença, com desdém. Talvez a MPB até seja generosa demais com os brega-popularescos, mas estes só recorrem à MPB na última instância, quando percebem que não são levados a sério.

Só isso é uma visão de atraso cultural. No começo, são artisticamente medíocres, inexpressivos, que por sorte fazem lotar plateias em pouco tempo. Chamam mais gente. Mas a adesão tendenciosa e tardia à MPB mais manjada também não os faz artisticamente mais amadurecidos. Pelo contrário, o que se vê são ídolos veteranos - mesmo os "sofisticados" cantores de "sertanejo" e "pagode romântico" - se comportando como se fossem crooners de reality show.

Os funqueiros, então, nem se fala. O atraso cultural é gritante, que não há choradeira "contra o preconceito" que resolva. Pelo contrário, nota-se que a choradeira está raivosa demais, com um forte ranço de arrogância, e os militantes funqueiros mais parecem irritados com a rejeição que sofrem do que naturalmente indignados. E nota-se um reacionarismo latente entre eles.

O próprio atraso também se dá na assimilação de referenciais da indústria cultural. Tudo é tardio, subordinado, tendencioso. A breguice torna-se irremediável, até quando tenta ser "sofisticada". Mesmo as alegações "tropicalistas" são tardias, estereotipadas, pasteurizadas.

Até a dita "evolução" artística é tendenciosa, superficial, paliativa, medida pelas leis de mercado e pelas cobranças do momento. Nada é espontâneo, por mais esforçado que possa parecer, e também não deixa marca alguma na posteridade.

Seria preciso uma longa divagação sobre as questões estéticas, artísticas, culturais envolvidas. Mas o que se sabe é que, por mais que os ideólogos dessa pretensa "cultura popular" falem em ruptura de preconceito, eles é que são preconceituosos diante da visão que eles têm sobre o que entendem como "cultura do povo".

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