quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

CONCURSOS PÚBLICOS E A FARSA DO "NÍVEL MÉDIO"



Por Alexandre Figueiredo

Um alerta grave para os candidatos de concursos públicos. A maioria dos concursos definidos como de "nível médio", na verdade, são concursos de nível superior que apenas atribuem o grau letivo para o ensino médio para atrair maior número de candidatos e arrecadar mais dinheiro nas taxas de inscrição.

Os programas de estudos, que não raro chegam a ser complicados e sobrecarregados para a média de dois meses entre o prazo de inscrição e o dia de cada prova, mostram essa realidade. Afinal, soa muito estranho que concursos públicos voltados para estudantes com nível médio venham sobrecarregados de matérias sobre Direito e de Matemática, que muitas vezes desperdiçam muito tempo nos estudos, comprometendo outras matérias como Informática e Português (uma matéria simples, mas considerada eliminatória).

ESAF TEM O PROGRAMA MAIS PESADO

Através da própria vivência do autor deste texto, já que este blogueiro fez várias provas de concursos públicos, dos Correios ao Ministério do Planejamento passando pelo IBGE, IPHAN e Infraero (neste caso aguardando convocação para serviço), nota-se qual é a organizadora de concursos que pega mais pesado e qual a que pega mais leve.

A ESAF (Escola de Administração Fazendária), ligada ao Ministério da Fazenda, é uma das que pegam mais pesado nos concursos. Seu programa é supercarregado de leis, além de sempre incluir Matemática. E não é só a álgebra de segundo grau ou raciocínio lógico, mas vários tópicos que exigem mais tempo de estudos. E pode ser até para cargo de jornalista ou de historiador, nível médio ou nível superior, que Matemática cai de todo jeito. A ESAF parece que só quer um Einstein como servidor público.

O mesmo ocorre com o CESPE (Centro de Seleção e de Promoção e Eventos) da Universidade de Brasília, com um agravante. Seu critério de pontuação é perverso. Se um candidato erra uma questão, perde dois pontos em vez de zerar, como é de praxe. Em compensação, se ele anula uma questão, marcando acidentalmente duas opções, não ganha nem perde pontos. O estranho método de pontuação causa dor de cabeça e desespero em muitos candidatos que se veem subitamente reprovados por terem "errado mais" do que imaginavam.

Já a Fundação Carlos Chagas é a mais generosa nos concursos. Ela nem sempre cobra Matemática e suas provas são bem boladas e mais fáceis. Seu programa não é sobrecarregado para estudar, e quando o cargo público não trabalha com Matemática, a FCC não a inclui nas provas de concursos. E, quando inclui, as questões são mais fáceis de serem trabalhadas e são poucas dentro de uma prova de em média 60 questões.

EXIGÊNCIA FORA DA REALIDADE

A maioria dos programas de estudos para concursos públicos não condiz com a realidade dos respectivos cargos. Além disso, a exigência obrigatória de Matemática escapa, muitas vezes, à realidade de cargos que não utilizam essa matéria, como os cargos técnicos do IPHAN, relacionados com as ciências sociais.

Isso acaba comprometendo muito o desempenho dos candidatos aprovados, porque eles acabam sabendo mais de Matemática - definida sob o eufemístico nome de "raciocínio lógico" ou "raciocínio lógico-quantitativo - , sem demonstrar se entendem de Antropologia, História ou Arquitetura, ou mesmo de patrimônios históricos.

As últimas organizadoras dos concursos do IPHAN, a ESAF (em 2007) e a Universa (em 2009), erraram feio por conta disso. Em vez de terem colocado questões de raciocínio lógico, supérfluas para a instituição em questão, poderiam ter colocado conhecimentos sobre ciências sociais e patrimônio histórico, que estariam em conformidade com seus cargos.

Isso prejudica até mesmo o desempenho dos servidores aprovados e pode fazê-los vulneráveis à corrupção. Porque a corrupção muitas vezes nasce da incompetência e da incapacidade de lidar com problemas de sua especialização, e fica muito fácil para um servidor pouco especializado corromper seu serviço por não ter condições de executar suas próprias responsabilidades, pelo puro desconhecimento de sua área.

Muitas vezes, a exigência fora da realidade dos programas de concursos públicos ocorrem em função da velha visão moralista do ato de estudar, que prioriza o acúmulo quantitativo de conhecimento, que, sabemos, não contribui para o verdadeiro aprendizado. É uma visão que remete aos tempos em que o professor era um tirano nas salas de aula.

Por outro lado, os pesados programas de estudos não correspondem ao prazo de dois meses e ao tempo de estudo disponível dos candidatos, que têm que estudar demais (o que dá estresse) ou apenas investir nos assuntos de maior dificuldade, e mesmo assim sacrificando boa parte desse programa, fazendo a prova quase sempre pela "cabra-cega".

Isso também não condiz com a realidade dos servidores, porue boa parte desse programa é apenas para "afunilar" mais os candidatos, pois pouca coisa será usada no cotidiano profissional dos aprovados.

FALTA LEGISLAÇÃO SOBRE CONCURSOS PÚBLICOS

Outro problema é que as organizadoras fazem o que querem nos concursos públicos. Se depender do caso, elas fazem provas malfeitas, com erros de gabaritos, e não há recurso que as faça rever suas avaliações.

Em muitos casos, há até processos judiciais e outros transtornos, além de fraudes. E uma legislação poderia muito bem ser feita para tentar minimizar muitos desses problemas, e, quem sabe, adequar os respectivos programas para as funções respectivas, fazendo com que os candidatos estudem apenas o que for relacionado com seus futuros cargos.

Isso não é para facilitar demais as coisas, mas para torná-las mais justas. Seria melhor que os concursos só cobrassem as matérias que correspondem aos cargos, e Matemática seria melhor, por exemplo, para cargos que envolvem Direito e Engenharia. Mas cargos ligados às ciências sociais ou ao básico da administração não necessitam necessariamente de Matemática, mas sim de matérias e leis relacionadas apenas à instituição e ao cargo exigidos.

Por isso o tema dos concursos públicos deveria ser revisto e até discutido pelo Congresso Nacional, e algum parlamentar poderia muito bem lançar uma lei para regular os concursos públicos, para que se evitem as milhares de injustiças que ocorrem no seu processo.

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