domingo, 11 de dezembro de 2011

CAETANO E A "DITABRANDA"



Por Alexandre Figueiredo

Em sua coluna de hoje, no Segundo Caderno de O Globo, o cantor e compositor Caetano Veloso saiu em defesa dos jornalistas da Folha de São Paulo, que haviam lançado o termo "ditabranda" para dizer que o Brasil viveu uma ditadura militar "muito suave e branda".

Usando como pretexto o fato de que na Argentina e Chile as ditaduras foram piores, Caetano reforça o mito de "país bonzinho" do Brasil, um "paraíso" que até no regime militar haviam flores e águas cristalinas.

Caetano Veloso viveu o período. Mas, conforme disse José Ramos Tinhorão, jornalista que não ia muito com a cara do tropicalista, Caetano nem de longe assustava os militares. A rebelião tropicalista nunca teve um caráter realmente esquerdista, e Tinhorão afirmava que os militares apenas tiveram um mal-entendido com a Tropicália, prendendo os dois principais líderes, Caetano e Gilberto Gil.

Diferente de Tinhorão, podemos dizer que o Tropicalismo era esquerdista da parte de Tom Zé e do falecido Torquato Neto, esse a cabeça crítica da ideia de "geléia geral", do amplo debate em torno das diversas manifestações, autênticas ou bastardas, artísticas ou comerciais, que haviam na música brasileira.

Sabe-se que Torquato morreu em 1972 e a abordagem crítica da "geléia geral" se esvaziou, abrindo o caminho para a apologia tropicalista à música brega que resultou no hoje poderoso império do brega-popularesco.

Caetano Veloso e Gilberto Gil só ficaram mais tempo detidos porque haviam raspado seus cabelos enormes e seu visual de reco seria, para a época (1969) um péssimo marketing para a ditadura militar.

No artigo de hoje, Caetano Veloso tentou justificar sua tese, incluindo uma alfinetada nas esquerdas, dizendo que a história do Brasil é tradicionalmente associada à "doçura" e à "ausência de derramamento de sangue", embora admita que o regime militar teve seus mortos.

A visão de Caetano é um alerta para a intelectualidade etnocêntrica que monopoliza a visão de cultura popular, até mesmo nas esquerdas. Afinal gente como Pedro Alexandre Sanches - que, como ensaísta, é claramente influenciado por Caetano - o vê como herói em detrimento de um Chico Buarque tido como "elitista", só porque Caetano é protetor tanto de ídolos autênticos ou bastardos da intelectualidade dominante atual.

Pois havia uma suposta "triplice aliança", no dizer da intelectualidade etnocêntrica, entre o Tropicalismo, o samba rock (inclui a "pilantragem" de Wilson Simonal) e a música brega, uma aliança que, a rigor, nunca existiu. Era apenas uma imaginação da intelectualidade atual, que a cada dia mostra suas contradições.

Pois Caetano Veloso, além de desconstruir as esquerdas, desconstrói o líder populista Getúlio Vargas, dizendo que o nacionalismo popular só vive nas memórias populares através do peronismo argentino.

Mas Caetano, desconstruindo Vargas (já suficiente desconstruído por FHC), desconstrói as conquistas trabalhistas, desconstrói Jango e desconstrói uma intelectualidade modernista que colaborou no Ministério da Educação pouco antes do Estado Novo. Da mesma forma que a desconstrução de Chico Buarque também acaba desconstruíndo essa intelectualidade.

Só que Caetano Veloso, o paradigma de MPB preferido por Pedro Alexandre Sanches porque é uma MPB que "obedece" a indústria cultural e apoia o império brega-popularesco, também é aliado de Fernando Henrique Cardoso, o ex-presidente e mestre do mesmo Sanches que, do sociólogo, só deve odiar a sigla FHC.

Afinal, desconstrói, a partir das abordagens culturais, todo o processo de construção democrática, e, mesmo nos cenários esquerdistas, cria-se condições para o enfraquecimento das próprias esquerdas. Caetano Veloso corrobora o termo "ditabranda" da Folha de São Paulo. Gustavo Alonso, que em sua tese jogou Wilson Simonal contra Chico Buarque, disse que o general Emílio Médici era "um líder popular".

No meio do caminho, Pedro Alexandre Sanches, assumido admirador do "caetucano" de hoje e conivente com a tese de Alonso, além de crítico dos "excessos" das esquerdas dos anos 60. Talvez ignorando que a hoje presidenta Dilma Rousseff era considerada "criminosa" durante os "maravihosos" anos Médici, Sanches ainda é uma figura muito estranha para continuar escrevendo para a revista Fórum e para Caros Amigos.

Enquanto isso, a "ditabranda" torna-se uma expressão descontraída para o revisionismo tendencioso lenta, gradual e seguramente transmitido pela direita midiática, sob o apoio sutil da pseudo-esquerda intelectual em todo o país.

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