sábado, 24 de dezembro de 2011

A BUSOLOGIA DE COLARINHO BRANCO



Por Alexandre Figueiredo

Enquanto o povo é obrigado a tolerar decisões vindas "de cima" em relação ao transporte coletivo, uma elite de busólogos tomada de estrelismo começa a se divergir de seus pares com suas posições anti-populares associadas aos interesses e decisões de autoridades e tecnocratas.

Pois se trata da "busologia de colarinho branco", baseada na prevalência de decisões e interesses de políticos, empresários e tecnocratas do setor de transporte. Embora todos, poderosos e seus "súditos" - aqueles que o apoiam, é claro - juram que "defendem" o interesse público, assim como a velha grande imprensa "defende" a democracia, não é difícil perceber o quanto eles estão distantes do verdadeiro interesse público.

Pois a "busologia de colarinho branco", "de gabinete" ou "de escritório" acaba diluindo um hobby relacionado ao transporte coletivo a interesses nada coletivos, ou, quando muito, de grupos minoritários.

E já é preocupante que a busologia fluminense esteja sofrendo um processo de "racha", causado pelo jogo político da Prefeitura do Rio de Janeiro ou por episódios envolvendo a empresa Turismo Trans1000, de Mesquita (RJ), que opera com frota sucateada e é a que mais descumpre as normas trabalhistas no Grande Rio.

Pois é através dessa situação que se vê que o "racha" entre os busólogos se tornou mais radical, e fez com que especialistas e verdadeiros pesquisadores de ônibus abandonassem o hobby, enquanto outros, mais arrogantes e reacionários, ganhassem mais destaque nos fóruns sobre busologia em sítios (como os do servidor Fotopages) e redes sociais (como Facebook e Orkut), sem esconder o desejo de, apoiando Eduardo Paes, Alexandre Sansão e companhia, possam em breve serem fotografados ao lado de gente como Pelé, Carlos Arthur Nuzman e Joseph Blatter, para não dizer Ricardo Teixeira.

PADRONIZAÇÃO VISUAL

Depois do conflito causado entre um grupo de busólogos que apareceu no programa Tribos (Canal Multishow) em detrimento de outro então mais destacado, que não apareceu no mesmo programa, e da boataria em torno das frotas intermunicipais 100% com ar condicionado, um conflito que envolveu o autor deste texto, a padronização visual virou o tema da discordância da vez.

A medida arbitrária, imposta por Eduardo Paes em votação secreta, sem consulta popular, de padronizar visualmente os ônibus - medida condenada pelos mais conceituados técnicos (não-tecnocráticos, é claro) de transporte - , a princípio causou uma revolta geral entre os busólogos, quando a medida foi anunciada em 2009.

No entanto, o vira-casaquismo se deu quando os primeiros ônibus foram pintados, num adesismo muito estranho feito da noite para o dia. De repente um grupo de busólogos influentes passou a apoiar a medida, se irritando com qualquer discordância a respeito.

Pouco importava falar que a população estava sofrendo limitações, que o sistema se baseava na concentração de poder dos secretários de transporte, que era um projeto herdado da ditadura militar (que implantou sistema parecido em Curitiba e São Paulo). Os busólogos pró-padronização não aguentam discordâncias nem explicações e ficam furiosos com qualquer argumentação contra eles.

A irritação chega ao nível da arrogância e das ofensas, desaforos e ironias que os busólogos pró-padronização passaram a dirigir contra os discordantes.

DISCURSO REPETIDO

Os busólogos pró-padronização chegam à atitude cínica de dizer que os argumentos dos discordantes são repetitivos. "Muda o disco, seu discurso está antiquado", é o que dizem. Semelhante reação havia sido feita pelos adeptos da privatização de estatais no governo de Fernando Henrique Cardoso.

"Estado raquítico, demissões em massa, desnacionalização da economia, privataria, concentração de multinacionais... Troca esse disco, esse discurso já era", diziam os internautas que defendiam a privatização de estatais, pouco mais de uma década antes de Amaury Ribeiro Jr. revelar os "podres" do "maravilhoso" processo, com o grande sucesso de vendas A Privataria Tucana.

O que está repetido é o discurso dos busólogos pró-padronização. Pode ser Fulano, Sicrano e o escambau, é sempre o mesmo apelo de "mudar o discurso", "trocar o disco". Eles é que precisam trocar o disco, que deve estar arranhado e pulando nos mesmos sulcos por causa da raiva deles e do "medinho" de enfrentar a discordância da maioria.

BUSÓLOGOS "PROFISSIONAIS"

O "racha" da busologia fluminense, que busólogos de outros Estados começam a tomar conhecimento, se dá com os busólogos-pelegos se convertendo em "profissionais", já se dirigindo contra outros busólogos que, embora fotografem regularmente os ônibus em geral, não usam sua visibilidade a título de estrelismo ou politicagem.

Vemos até busólogos de credibilidade, íntegros, que fotografam ônibus cariocas com visual padronizado apenas pelo puro dever de informar. "Olhe, é esse carro que eu fotografei na rua tal. Ele está circulando na linha tal com a carroceria qual, devidamente emplacada", é o que dizem vários destes. E eles também estão decepcionados com os outros busólogos que, abraçados a Eduardo Paes na espera de conhecerem pessoalmente os astros dos eventos esportivos de 2014 e 2016, bancam os "donos da verdade" e defendem medidas anti-populares.

Dá para reconhecer o fiasco e a impopularidade da padronização visual dos ônibus cariocas, uma medida que já começa a decair até em Curitiba e São Paulo, já foi superada em Florianópolis e já se cogita usar em Uberaba, no Triângulo Mineiro, devido à corrupção da Trans1000 de lá, que, felizmente, foi extinta como grande lição para a homônima da Baixada Fluminense.

Mas a Transmil de Mesquita ainda conta com um estranho fã-clube busólogo, num país marcado pela "cultura trash" à brasileira, onde o brega é "cultuado" e o lixo vira "luxo". Pouco importam carros sucateados, acidentados ou enguiçados, pouco importam os protestos dos passageiros, o "fã-clube" fica surdo a eles. E depois esse "fã-clube" diz defender os usuários.

Outras medidas impopulares também marcam a busologia pelega. Eis algumas delas:

1) Sistema de pool nos ônibus - Medida caraterizada em uma linha de ônibus operada por mais de uma empresa - , que serve de "trampolim" para certos grupos empresariais ou para a intromissão deles em áreas eleitoralmente estratégicas. A medida, em si, é válida apenas em caráter emergencial e provisório, mas sua aplicação permanente é tecnicamente inviável.

2) Diminuição das frotas em circulação - Medida claramente anti-popular, mas "privativamente" defendida e apoiada por uma minoria suspeita de busólogos. Sob as promessas tecnocráticas de trajetos "mais rápidos", defende-se a retirada aleatória de até 50% dos ônibus, obrigando os passageiros a ficarem mais tempo à espera de um ônibus.

Interesses escusos por trás dessa "imparcial" medida incluem desde o lobby da indústria automobilística até mesmo à garantia de superfaturamento dos empresários de ônibus com a redução de investimentos na circulação de parte de sua frota.

3) A padronização visual serve para camuflar ou dificultar o reconhecimento das empresas de ônibus pelos passageiros comuns. O que pode fazer com que a opinião pública não possa estar a par dos abusos que podem ser cometidos pelas empresas de ônibus.

Embora os tecnocratas "garantam" que a medida "elimina a corrupção" (sic), o que se vê é o contrário, sobretudo em cidades como São Paulo, Brasília e até mesmo Curitiba, quando a corrupção das empresas de ônibus é feita debaixo da farda padronizada da prefeitura ou da região metropolitana.

Em São Paulo, o consórcio da Zona Leste é um dos casos escandalosos de corrupção. Em Brasília, até ônibus piratas são inseridos na frota padronizada. Em Curitiba, rodoviários são proibidos de falar sobre as irregularidades do sistema, sob pena de demissão. E no Rio de Janeiro já tem a primeira amostra, com a linha 292 Engenho da Rainha / Praça 15 sendo transferida da Transportes Estrela Azul para a Viação Pavunense sem que a população tenha real conhecimento disso.

TRANSTORNOS MIL

O modelo "curitibanizado" (padronização visual, sistema de consórcios, poder central dos secretários de transportes) está decaindo a cada dia, e isso é comprovado definitivamente nos noticiários que mostram os inúmeros acidentes, incêndios e até outros incidentes, vários deles trágicos, envolvendo os ônibus que circulam nas grandes cidades.

O desgaste desafia até mesmo os secretários de transporte que, arrogantes e surdos ao clamor público, insistem em manter esse modelo, lançado nos tempos da ditadura por Jaime Lerner em Curitiba e por Olavo Setúbal em São Paulo.

Lerner, o pupilo querido do reitor Suplicy de Lacerda (que, como ministro da Educação do general Castelo Branco, enfureceu o movimento estudantil nos anos 60), era ligado à ARENA e é também conhecido por ter o mesmo apetite privatista de José Serra e Fernando Henrique Cardoso.

Setúbal, o banqueiro-prefeito, era afilhado político do ex-prefeito paulistano Paulo Egydio Martins, "bionicamente" indicado pela ditadura. Egydio, como líder estudantil, havia transformado a UNE numa agremiação udenista, com o claro apoio do Departamento de Estado dos EUA, representado "inocentemente" pela estudante Gloria May. Ainda vivo, Egydio está hoje filiado ao PSDB, tendo ensinado "boas lições" de neoliberalismo para o ex-socialista José Serra.

Se observarmos bem, a padronização visual dos ônibus está sempre associada a políticas fascistas. Os próprios regimes fascistas padronizam corações e mentes, a "padronização" é um controle autoritário de vários processos sociais. A ficção científica já mostrou muito disso como denúncia da realidade pela arte, e a velha grande mídia também é famosa por padronizar a opinião pública, por defender o pensamento único.

Pouco adiantam paliativos para tornar o sistema mais atraente. Até porque é possível fazer mobilidade urbana, colocar ônibus melhores e tornar o sistema mais funcional sem precisar padronizar visualmente os ônibus. E sem atribuir plenos poderes às secretarias de transportes nem amarrar as empresas de ônibus em consórcios que, na prática, representam oligarquias empresariais politicamente formadas.

Esse sistema "curitibanizado" se desgasta com suas dezenas e centenas de ônibus enguiçados nas cidades, com corrupção nos bastidores enquanto o povo desperdiça mais uma passagem por pegar o ônibus errado e pelo bilhete único perder a validade no engarrafamento, porque, afinal, tornou-se "coincidência" que os engarrafamentos tenham aumentado muito depois desse "moderno" sistema de ônibus ser implantado.

Enquanto isso, os busólogos-pelegos falam grosso quando estão nos ambientes seletos do debate busólogo nas redes sociais e fóruns de Internet. São protegidos pelo semi-anonimato que, se não os transforma em astros, lhes garante uma semi-imunidade.

Mas, se fossem reconhecidos pelos passageiros comuns, seriam logo vaiados pelo povo, que os chamaria de "lambedores de gravatas" e "puxa-sacos de políticos", e não adiantaria esses busólogos-pelegos dizerem que "não é bem assim" ou descontar sua indignação nas redes sociais, à procura de bodes expiatórios para suas raivas e decepções.

Esses busólogos-pelegos, com o tempo, passariam logo a ter vergonha de si mesmos, na medida em que serão incapazes de justificar para o povo seus pareceres anti-populares sob a alegação de um "modo diferente de trabalhar para o interesse público". E eles fatalmente serão apagados por uma geração mais nova, como já ocorreu na busologia da Bahia, onde os busólogos-pelegos de dez anos atrás praticamente desapareceram.

Chega de busologia golpista!!

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