quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

BREGA-POULARESCO E PÓS-MODERNIDADE


PARANGOLÉ - De comum, a obra de Hélio Oiticica e o grupo de "pagodão" baiano só têm o nome. Mas o grupo nada tem a ver com vanguarda pós-moderna.

Por Alexandre Figueiredo

Disse o historiador Eric Hobsbawn no seu seminal livro A Era dos Extremos 1914-1991, de 1994: "(...) como dizia o populismo partilhado pelo mercado e o radicalismo antielitista, o importante não era distinguir entre bom e ruim, elaborado e simples, mas no máximo entre o que atraía mais ou menos pessoas. Isso não deixava muito espaço para o clássico conceito das artes".

Embora o trecho fale sobre a questão da cultura, ele é parte de um livro sobre política, uma das importantes fontes bibliográficas para quem quiser ter uma visão crítica e de esquerda sobre política internacional.

Mas a alusão aos aspectos culturais não é casual. É porque, lá fora, analisa-se tanto os mecanismos da política, economia e cultura em suas contradições causadas pela hegemonia das leis de mercado. Aqui no Brasil, no entanto, os aspectos culturais costumam ser vistos de maneira submissa e deslumbrada, como se as contradições, no âmbito midiático e do entretenimento, se limitassem tão somente ao noticiário político ou, quando muito, ao humorismo preconceituoso ou ao policialesco mais rancoroso.

Até hoje prevalece o "alegre" entretenimento do brega-popularesco, que glamouriza a pobreza a pretexto de exaltar a dita "autossuficiência das periferias", um processo de manipulação que o próprio John Kenneth Galbraith havia descrito no livro A Cultura do Contentamento para mascarar as desigualdades sócio-econômicas existentes e livrar o poder político e econômico da tarefa de resolvê-las.

E, embora os ídolos brega-popularescos sofram um sério desgaste, seja quando os medalhões passam a viver apenas de discos ao vivo que revisitam sempre os mesmos já antigos sucessos, seja quando os fracassados posam de "injustiçados" para tentar voltar ao mercado, também prevalece toda a campanha ideológica que tenta promover essa pseudo-cultura popular como se fosse "o novo folclore brasileiro" ou "a definitiva cultura popular de nosso país".

Essa campanha, que, de Waldick Soriano a Mr. Catra, passando por Zezé di Camargo & Luciano, Gaby Amarantos, Leandro Lehart, Banda Calypso e outros, tenta promover o comercialismo musical desses ídolos como se fosse "arte superior", sob os mais diversos argumentos, desde os de verniz "científico" até os de autêntica urubologia, quando nós, no nosso senso crítico, somos chamados de "preconceituosos" e outras acusações indevidas.

Pois aproveitando a pós-modernidade, ideólogos como Paulo César Araújo, Pedro Alexandre Sanches, Hermano Vianna, Milton Moura, Erika Palomino, Rodrigo Faour e outros tentam dar argumentos "modernosos" (ou seria pós-modernosos?) para dar um verniz mais "nobre" para o establishment brega-popularesco.

E essas alegações "pós-modernosas" usariam, de forma diluída, o processo da maiêutica lançado pelo filósofo Sócrates através de relatos escritos pelo seu discípulo Platão.

Seria então essa caricatura de maiêutica expressa da seguinte forma:

1) Os ídolos brega-popularescos costumam ser defendidos pelos líderes tropicalistas Caetano Veloso e Gilberto Gil.

2) O movimento tropicalista foi influenciado pelas vanguardas concretistas e pela pop art dos anos 1950-1960.

3) Logo, o brega-populareso é uma "vanguarda pós-moderna" brasileira.

A terceira premissa, que define o brega-popularesco como "vanguarda pós-moderna", é muito falsa. Sobretudo por se tratar, artisticamente, não de uma vanguarda, mas de uma retaguarda. Ela se vale da imitação subordinada de tendências estrangeiras com arremedos de ritmos brasileiros, e, quando muito, só chega a reproduzir as regras "assépticas" da "MPB burguesa" de mercado.

Mesmo o ambicioso "funk carioca" superestima demais seu potencial polêmico e nem de longe representa qualquer vanguarda cultural. Nada disso. O próprio conteúdo artístico-cultural do "funk carioca" - se é que podemos falar em arte e cultura neste caso - mostra valores sociais retrógrados, associados ao que a velha grande mídia entende como "povo das periferias".

O próprio mito de "vanguarda" atribuído ao "funk carioca" foi fabricado, comprovadamente, pelas Organizações Globo e pelo Grupo Folha. Isso está explícito no próprio cartaz que os veículos midiáticos das famiglias Marinho e Frias davam ao "funk carioca", que aparecia neles feliz demais para ser considerado uma "invasão midiática conspiratória".

O brega-popularesco, no qual se insere o "funk carioca" e outras tendências, mostra aquilo que Eric Hobsbawn acha perigoso atribuir ao processo da cultura de massa. Ele acha arriscado atribuir a esta o mesmo sentido vanguardista dos movimentos modernistas, e ele mesmo vê com ceticismo o futuro da cultura com a hegemonia da indústria cultural.

Portanto, a falsa associação do brega-popularesco com as vanguardas modernistas ou mesmo pós-modernistas pela intelectualidade influente em nosso país é um grande equívoco que esta sucumbe com muita insistência. E que, infelizmente, torna-se uma visão ainda hegemônica, oficial, dominante, ainda que seus ideólogos reclamem que sua visão é "bastante criticada".

Eles fingem que a hegemonia de sua visão não existe, e que seus pontos-de-vista são "vítimas da discriminação" de intelectuais tidos como "elitistas", "moralistas", "preconceituosos" e "higienistas", numa clara atitude "urubóloga" que esses intelectuais pregam ou apoiam.

Mas é muito arriscado e equivocado, além de forçar muito a barra, creditar o cardápio popularesco das FMs dominantes e das redes comerciais de TV aberta como se fosse uma "vanguarda cultural". É menosprezar todos os mecanismos de indústria cultural que estão por trás disso, sobretudo pela intervenção empresarial, que molda os ídolos bregas e neo-bregas conforme o tendenciosismo de mercado.

Esse tendenciosismo tanto pode ser para colocar um breganejo para gravar o nashville sound estereotipado por estereótipos brasileiros num ano e colocar o mesmo breganejo para cantar o repertório caipira original amanhã e gravar com orquestra depois de amanhã, quanto para colocar um funqueiro ou tecnobrega, ou um "brega de raiz" ou forrozeiro-brega, para gravar duetos com nomes considerados "descolados" da Música Popular Brasileira.

Tudo isso só serve para mostrar o quanto o brega-popularesco não passa de meros produtos mercadológicos da velha mídia. E se seus ídolos e musas, valores e músicas, são expressão de alguém, ela é do empresariado que está associado a tudo isso, um empresariado que, para evitar suspeitas, quase nunca aparece de terno e gravata, nem quando vão para o Teatro Municipal do Rio de Janeiro ou de São Paulo.

Afinal, toda essa imagem de "verdadeira cultura popular" do brega-popularesco só tem como único critério aquilo que Eric Hobsbawn descreveu na frase acima. Que não importam critérios artísticos, o que vale tão somente é quem chama mais público. É o valor do artista reduzido a meros lotadores de plateias.

Mas o próprio Hobsbawn cita o caso de um joalheiro britânico que disse que os homens de negócios ganhavam muito dinheiro porque vendiam porcaria para o povo. E o próprio Hobsbawn reclamava do excesso de relativismo do "populismo partilhado pelo mercado" (os barões do entretenimento) e dos "radicais antielitistas" (a intelectualidade etnocêntrica que defende o brega-popularesco).

E ainda conclui que, no final, o julgamento de qualidade artístico-cultural sempre acaba valendo na vida, ainda que privativamente, nos salões particulares da intelectualidade.

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