sábado, 3 de dezembro de 2011

AS ELITES SEMPRE LEVANDO A MELHOR...



Por Alexandre Figueiredo

A que interessa a classe média alta, principalmente uma intelectualidade divinizada, que forma uma "panelinha" que praticamente monopoliza a opinião pública e as abordagens sobre cultura popular no país, defender o brega-popularesco?

Desde os anos 90 o mainstream musical brasileiro vive um abismo que separa o brega-popularesco consumido pelas classes populares e a MPB autêntica (incluindo o Rock Brasil) apreciado quase que exclusivamente pelas elites, embora parcialmente (e precariamente) apreciado pelas classes populares de forma bastante secundária.

De 2002 para cá, no entanto, a intelectualidade passou a endeusar o brega-popularesco como se fosse a "verdadeira cultura popular" ou o "novo folclore pop brasileiro", com bobagens pós-modernas, num discurso que mistura delírios pós-tropicalistas com pregações pseudo-informáticas, agora promovendo a retaguarda musical brasileira sob o falso rótulo de "vanguarda".

Como é que rádios que eram consideradas "só sucesso", que ainda estão no topo do Ibope, agora são consideradas "mídia alternativa", é algo que não dá para explicar direito. Mas a intelectualidade etnocêntrica não tem o esclarecimento como compromisso. Ela diz querer promover a reflexão crítica, mas ela nada tem de reflexão e muito menos de crítica, é apenas um lero-lero para promover o estabelecido como se fosse grande coisa.

Vemos que, nessa campanha toda, há a pretensa "integração" entre o brega-popularesco e a MPB, com bregas e neo-bregas abraçados a celebridades, intelectuais e artistas associados ao universo da MPB autêntica e do Rock Brasil. Como se fosse resolver alguma coisa ídolos do brega-popularesco aparecerem ao lado da nata da MPB ou de intelectuais de nome, ou então gravando o cancioneiro da MPB autêntica.

E sabemos que isso não resolve, de jeito algum. Primeiro porque a "integração" não traz efeitos práticos. O público do ídolo brega-popularesco não tem interesse de conhecer quais são os intelectuais que estão do lado dele. Quando muito, lê na imprensa jagunça que seu ídolo apareceu com a atriz tal, o cineasta qual e o músico tal e vai dormir. Já a intelectualidade também vai dormir tranquila, mas não é por isso que ela vai trocar seus CDs de MPB pelo rádio do "povão".

A "integração" de bregas e neo-bregas com a MPB também não representa qualquer fortalecimento nem sequer recuperação da cultura popular. Pouco importa qual o breganejo de plantão que será o próximo a gravar "Tocando em Frente" de Renato Teixeira ou se o próximo cantor a gravar "Nervos de Aço" de Lupicínio Rodrigues será um sambrega ou um breganejo. Isso não vai tirar os músicos originais do esquecimento público, como também não colocará as classes populares numa posição nobre da nossa cultura.

Pelo contrário, os bregas e neo-bregas que regravam a MPB autêntica ficam com uma pecha de crooners, se nivelando, na melhor das hipóteses, aos calouros de programas musicais de TV, tipo Ídolos e Astros. Com o agravante de que, pelo menos, os calouros são iniciantes, enquanto os ídolos bregas e neo-bregas contam até mesmo com 20 anos de carreira.

E isso é sério, porque são ídolos veteranos que se acham os "maiores criadores de nossa música", mas praticamente só estão lançando DVDs ao vivo e gravando mais covers do que seu pálido e quase estéril repertório autoral, que apenas repetem a linha dos velhos sucessos, igualmente medíocres e até ruins, mas que tinham algum frescor relativo de novidade.

Nem se o artista de MPB se empenhar para aperfeiçoar o ídolo brega-popularesco, ensinando-o a compor como um artista da nova MPB, irá adiantar a coisa. Mostrar Wilson Simonal para os ídolos sambregas, ou indicar o cancioneiro caipira mais obscuro para os breganejos gravarem, isso também não adianta.

Primeiro, porque os "criadores" nunca criam. Eles precisam da ajuda da classe média alta, é sempre a "elitista" MPB que leva a melhor, sempre são seus paradigmas que estão em jogo, mesmo quando se amestra um ídolo brega-popularesco transformando-o em "sofisticado".

Nada é espontâneo, nada é natural. Tudo é tendencioso, dentro das expectativas de mercado. O ídolo brega-popularesco transforma-se numa pseudo-MPB engomada, cheia de luzes nos palcos, marqueteira e plastificada, como se quisesse se vender para plateias mais exigentes.

Cria-se uma esquizofrenia. Ídolos "populares" precisam de pompa, luz e elegância para serem "reconhecidos" como "verdadeira cultura popular". Acham que assim os "sertanejos", "pagodeiros românticos" e similares conseguirão alcançar o primeiro escalão da MPB, mas essa impressão não passa de uma grande farsa.

Afinal, até para eles "serem MPB" eles precisam ficar ricos. Precisam ser assistidos pela classe média alta, por intelectuais burocratizados, celebridades paternalistas, músicos condescendentes, para "se evoluírem".

Mas essa "evolução" é apenas um simulacro, apenas imita-se, nos ídolos brega-popularescos, a técnica e estética dos discos "burgueses" da MPB, das capas aos arranjos musicais. Cria-se uma pseudo-MPB, uma "MPB de brinquedo", algo que soa até pior do que muitos títulos "aristocráticos" da chamada "MPB biscoito-fino", vertente sofisticada da MPB autêntica hostilizada pela intelectualidade "divinizada".

É até hipócrita que esta intelectualidade fale tão mal da MPB "aristocrática" por causa do excesso de pompa e luxo, e elogia os ídolos bregas e neo-bregas que aderem a essa mesma estética. Porque, a pretexto de solução, substitui-se um problema pelo mesmo problema piorado.

Nada acrescenta um brega ou neo-brega regravar MPB, tocar com músicos de nome ou aparecer ao lado de intelectuais. Isso ocorre há tempos e nada se somou à cultura popular autêntica, até porque o brega-popularesco não é a "cultura das periferias" que se alardeia, mas a escravidão cultural imposta pelas rádios FM "povão" controladas por oligarquias.

No fim, são sempre as elites que levam a melhor. Pois são elas que adestram os bregas e neo-bregas, que nunca serão criadores naturais. Estes apenas serão lapidados para serem produtos "agradáveis" para públicos mais abastados.

Mas seu artificialismo e sua estética forçadamente sofisticada se torna inútil para qualquer tentativa de transformar esses "artistas" em genuínos nomes da cultura popular autêntica. Até porque suas músicas nunca passam de meras linhas de montagem das tendências do mercado, sejam elas mais cafonas ou mais chiques.

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