segunda-feira, 28 de novembro de 2011

TRANSMIL: A ESTRANHA PERSISTÊNCIA DE UMA EMPRESA RUIM



Por Alexandre Figueiredo

Que o sistema de ônibus no Estado do Rio de Janeiro, que era considerado referência para todo o país, está em crise - sobretudo na capital, em que o modelo de padronização visual prevalece, mas fracassa completamente - , não é segredo algum. Mas, no Grande Rio, o que chama a atenção é a insistência de uma empresa falida e deficitária de continuar circulando.

Essa empresa é a Turismo Trans1000. Ou Transmil, para os íntimos. Sua sede é em Mesquita, na Baixada Fluminense. A empresa teve um passado excelente, quando, sob o controle do Grupo Guanabara, tinha ônibus rodoviários e ônibus urbanos longos, chegando a ter alguns com motor Scania.

Mas a decadência da empresa se deu nos últimos cinco anos, quando, já sem ônibus rodoviários, deixou de comprar carros novos grandes - os últimos novos que havia adquirido eram do tipo "micrão" ou "midibus" - , a empresa passou a viver de "migalhas" de outras empresas.

Nos últimos anos, a Transmil passou a fazer toda sorte de erros, equívocos e transtornos, irritando os passageiros que só tem essa empresa como opção para irem ao Rio de Janeiro. Teto furado que faz haver goteiras nos ônibus em dias de chuvas, retrovisor quebrado substituído por espelhinho de barbear, pneus carecas, lataria de ônibus amassada, assentos que se desprendem dos bancos, ar condicionado enguiçado ou enferrujado.

Isso para não dizer que os carros mais recentes da frota da empresa foram fabricados em 2006. É a aquisição mais recente, de apenas 20 carros de comprimento curto, incapazes de cobrir a demanda de passageiros. E até o óbvio transtorno de esperar horas por um ônibus a Transmil oferece, já que suas linhas possuem uma frota pequena, e o setor Mesquita, logo a sede da empresa, é o mais prejudicado, com linhas que chegam a circular com menos de dez carros.

É só fazer uma viagem da Praça Mauá ao Trevo das Margaridas - que liga a Av. Brasil à Via Dutra - para verificar que as duas linhas com destino a Mesquita, 005 Mesquita / Praça Mauá e 478 Mesquita / Central, possuem uma frota minguada e cada vez mais rara.

SÓCIOS ESTRANHOS

As informações sobre os donos da Transmil são muito estranhas. Consta-se que, ultimamente, eram quatro obscuros empresários. Um deles, conhecido como "Sr. Carlinhos", foi misteriosamente assassinado, mas as ações dele continuam nas mãos de herdeiros.

Consta-se, no entanto, que esses empresários podem ser testas-de-ferro de algum figurão poderoso na Baixada, porque só tal possibilidade é que permite que a empresa, mesmo com seu serviço péssimo, continue circulando até hoje.

A Transmil até perdeu parte de seu patrimônio. Perdeu os setores Queimados e Japeri, que agora são operados pela Transportes Blanco, empresa de Belford Roxo surgida numa reestruturação da antiga Expresso São Jorge.

A Transmil também era dona da Elmar Transportes, que foi extinta numa manobra estranha, com a Transmil assumindo as linhas para depois "ressuscitar" a Elmar numa outra oportunidade. Mas a Justiça obrigou a Transmil a deixar essas linhas, operadas por diversas empresas.

BRINCANDO DE SER "BOA EMPRESA"

No entanto, os setores Nilópolis e Mesquita, mais a linha 479 Nova Iguaçu / Parada de Lucas, são uma eterna dor de cabeça para os passageiros. A Transmil chega a brincar de ser "boa empresa" mas não consegue enganar com seus ônibus que, até na pintura, mostram-se velhos, com o branco de sua estampa tão "amarelado" que mais parece "branco-lama" em vez de "branco-gelo".

Mesmo os ônibus com ar condicionado - cinicamente classificados de "Série Ouro" - estão em estado deplorável, com sete anos de idade útil e cujos modelos estão fora de fabricação há cerca de cinco anos.

A Transmil tem até uma linha que passa no começo da Zona Sul carioca. A linha 003 Nilópolis / Passeio, para no começo da Glória, onde tem um terminal de ônibus onde para desde uma linha para Niterói à famosa 350 Passeio / Irajá.

"BONDE SEM FREIO"

Neste "bonde sem freio" da Turismo Trans1000, é estranho que nada seja feito para punir severamente a empresa, cassando suas linhas. A crise já passa por sua fase crítica, e, não fosse suficiente seu péssimo serviço, a empresa ainda remunera mal seus funcionários, atrasando salários e sonegando encargos.

Daí que, no último fim de semana, foi fácil perceber o mau humor dos funcionários da Transmil, que até pouco tempo atrás eram gentis e educados. Não é culpa deles, afinal eles são obrigados a até pedir empréstimos para pagar suas contas e garantir os alimentos para a família, enquanto esperam na Justiça o dinheiro que a Transmil lhes deve.

A única punição que se vê é a apreensão constante de seus carros. O DETRO, órgão que controla o transporte intermunicipal no Estado do Rio de Janeiro, se limita apenas a fazer isso, sem que possa exercer seu poder de cassar as concessões da Transmil. E isso acaba piorando para o lado dos passageiros, porque é cada vez menos ônibus nas ruas.

Fora isso, a grande imprensa mantém um estranho silêncio em relação à Transmil. Só o Fala Baixada divulga queixas sobre a empresa. O resto, quando muito, só publica pequenas queixas, mas não há qualquer campanha ou investigação sobre as irregularidades da Transmil. Fica tudo na mesma coisa.

Nem o Ministério Público do Rio de Janeiro atua para punir a Transmil, já que recente apuração apontou que a empresa "está em boas condições legais". No entanto, a Transmil também é famosa por irregularidades na documentação de sua frota velha que, em parte, continua circulando com a chapa da cidade do Rio de Janeiro, e não de Mesquita.

À ESPERA DE UMA TRAGÉDIA

A Transmil também não tem ônibus adaptado para deficientes físicos. Nem sua recente aquisição obedeceu tal condição, exigência de caráter nacional para os ônibus chegarem a 2014 com frota 100% com acesso e área para portadores de necessidades especiais. Pelo contrário, a Transmil continua com sua frota 100% sem essa condição.

Os carros da empresa enguiçam constantemente. Dois acidentes já ocorreram, um em setembro de 2010 e outro em janeiro deste ano. Parece pouco, mas dá o tom do péssimo estado da frota. O que neutraliza o entusiasmo cínico de uns poucos fãs da Transmil, que ainda têm a vã esperança de ver a empresa voltando aos áureos tempos.

A novela repete o caso da Transportes Oriental, empresa carioca com histórico similar ao da Transmil. A empresa carioca teve que ser extinta depois de uma renovação de frota fajuta. Mas sua antiga subsidiária, a Viação Oeste Ocidental (ou apenas Ocidental), é que teve um acidente trágico, com vários mortos, e ainda assim teve que ser mascarada, extinguindo seu nome mas voltando com o pseudônimo de Rio Rotas.

Parece que as autoridades esperam ocorrer uma tragédia para fazer alguma coisa com a Transmil. A empresa vive seu pior momento, e não possui condições de recuperação. Pelo contrário, a sua crise só piora, a ponto de não poder mais comprar sequer carros bons de segunda mão, mas apenas carros curtos bem antigos e que tão logo se tornam cada vez mais sucateados.

Enquanto isso, o sofrimento de seus passageiros continua, sem que viva alma possa resolvê-los.

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