sábado, 5 de novembro de 2011

QUANDO A MPB SÓ É RESPEITADA QUANDO "OBEDECE" À "CULTURA DE MASSA"



Por Alexandre Figueiredo

Para a intelectualidade etnocêntrica, o problema não é a existência da MPB autêntica. Para seus ideólogos, ela deve existir, sim, até para fornecer matéria-prima para as aventuras pedantes dos ídolos do brega-popularesco.

A MPB autêntica apenas é vista, além de uma categoria musical para apreciação exclusiva das classes mais abastadas e "intelectualizadas", como eventual "alimentadora" da suposta evolução artística de ídolos bregas e neo-bregas, na medida em que estes permanecem anos fazendo sucesso na mídia e, por isso, precisam de vez em quando oferecer "algo diferente".

É essa a lógica que faz com que os ideólogos do brega-popularesco, até pela pressão informativa da Internet, terem que admitir o valor e a divulgação de nomes "esquecidos" da MPB autêntica. Mas até para isso cria-se uma ideologia e um caráter seletivo, defendendo apenas aqueles nomes que num momento ou em outro não representaram ruptura nem combate ao status quo da chamada "cultura de massa".

Essa é a tônica no texto que o crítico Pedro Alexandre Sanches escreveu sobre os irmãos compositores Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle, em artigo publicado na revista Fórum. Na construção do texto, nota-se que Pedro dá uma preferência à MPB autêntica que, independente de seus talentos, não representava uma "ruptura" com a "cultura de massa", ou antes, até por questão de sobrevivência, "obedecesse" a indústria cultural diante de suas pressões.

Por "milagre", Pedro Alex Sanches não menciona a breve experiência de Paulo Sérgio Valle como compositor do repertório do cantor brega José Augusto. Seria demais para o colonista-paçoca, porque seria mais um "coitado" a receber sua proteção sem a garantia de sucesso garantido.

Também não foi mencionado o fato de Paulo foi co-autor, com Herbert Vianna, de "Se Não Te Amasse Tanto Assim", uma bela canção, mas associada à sua intérprete oficial, a duvidosa Ivete Sangalo, por causa das contribuições da "rainha do axé" de movimentos como o "Cansei".

Mas num certo momento, Sanches menciona até seu "herói" Benito di Paula. No mesmo dia que leio o texto, a última sexta-feira do mês passado, meu irmão Marcelo, dos blogues Planeta Laranja e Pizzaria do Poder, me lembrou de um refrão de uma música de Benito, um dos ídolos-maiores do "Brasil Grande" da Era Médici, que diz "Tudo está em seu lugar / Graças a Deus / Graças a Deus".

Para Sanches, tão "sinceramente esquerdista" na imprensa de esquerda quanto Fernando Henrique Cardoso nas suas palestras na França, um refrão como o acima citado é uma natural expressão de "esquerdismo combativo", sem o excesso das "patrulhas ideológicas" que ele, julgando-se acima das esquerdas e direitas ideológicas, condenou em seu texto.

Ele critica o chamado "purismo da MPB", assim como deixa subentendido que a tendência ao protesto dos artistas da MPB dos anos 60 é um "fator negativo", um "mal necessário" que toda a música brasileira teve que aderir naqueles idos de 1965-1974, quando a chamada "revolução" provou que era "da pesada".

Essa ideia parece digna de um artigo da Folha de São Paulo ou de uma resenha do Jornal da Globo em que até o colaborador da CIA William Waack assinaria embaixo. Mas, pasmem, é um texto publicado numa revista ligada ao Fórum Social Mundial.

As críticas que se faz à bregalização da música brasileira - que agora usa como escudo uma facção da MPB, ligada ao Tropicalismo e a tendências como o samba-rock ou dos artistas "malditos" de nomes diversos como Marcos Valle, Wilson Simonal, Sérgio Mendes, Zezé Motta e Itamar Assumpção - não podem ser creditadas como uma campanha purista.

A acusação de "purismo" não é possível porque a bregalização não representa uma liberdade de valores ou expressões culturais. É, antes de mais nada, o oposto disso, uma castração artística, uma mediocrização cultural, uma "higienização" por baixo, criando "sambistas" que não entendem de samba, "sertanejos" que não conhecem sequer a vida no campo, quando mais o cancioneiro caipira em geral, e funqueiros que só fazem tudo igual, com mais ou menos palavrões ou baixarias.

Em outros tempos, as classes pobres faziam música de excelente qualidade, que evidentemente contrasta com o brega-popularesco de hoje que, tutelado pela mídia, não é mais do que uma linha de montagem tendenciosa de "artistas" sem vontade própria, que fazem as vontades do deus-mercado.

A pressão da Internet apenas fez com que os ideólogos do brega-popularesco fizessem plantão nos espaços de debate para tentar uma associação forçada da MPB autêntica safra 1968-1979 com o brega-popularesco de 1990 até hoje, ou dos bregas pós-1970. Ainda que, por exemplo, um ídolo do "pagode romântico" só tenha ouvido falar de Wilson Simonal muito tardiamente.

Mas essa associação nada ajuda, e nem sequer apresenta nomes de indiscutível valor, seja Wilson Simonal, seja a Zezé Motta mais conhecida como atriz, seja um Marcos Valle pós-Bossa Nova ou um nome bastante "difícil" como Itamar Assumpção, ao grande público.

O grande público só vai dormir tranquilo, feito gado - afinal, trata-se de uma conversa para boi dormir -, "feliz" porque seus coitadinhos de temporada, de Waldick Soriano a Tati Quebra-Barraco, de Michael Sullivan a Leandro Lehart, são "associados" tendenciosamente à MPB dos anos 60 e 70.

Ou seja, se Leandro Lehart, Gaby Amarantos, Benito di Paula, Calcinha Preta e Gaiola das Popozudas são "tão MPB" quanto Marcos Valle e Wilson Simonal, o público é desestimulado, por esse discurso intelectualóide, a ouvir coisas melhores, porque a mediocridade que ele ouve "já é grande coisa", segundo a pregação demagógica da intelectualidade etnocêntrica de plantão.

Depois, quando acordar, o grande público vai ouvir a mesma mesmice brega-popularesca do rádio controlado por famiglias midiáticas, que serve hoje o cardápio musical dos coitadões de amanhã, que, depois de um bom Arquivo Confidencial no Domingão do Faustão visto por milhares de telespectadores, vão pedir socorro a Pedro Alexandre Sanches para promovê-los como pretensos "coitadinhos desprezados pela mídia".

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