terça-feira, 29 de novembro de 2011

QUANDO A INTELECTUALIDADE SÓ QUER SABER DO 'PLAYLIST' DAS RÁDIOS



Por Alexandre Figueiredo

A defesa da dita "cultura da periferia" pelos intelectuais influentes não passa de uma grande farsa, de uma grande falácia. O discurso que eles trabalham só serve para reafirmar o establishment do entretenimento dominante, expresso por uma suposta "cultura popular" que não é mais do que uma lavagem cerebral planejada pelos barões da grande mídia e do entretenimento do país.

É só comparar a cultura popular autêntica, que constitui na grande diversidade cultural do nosso país, com os bregas e neo-bregas amestrados pela indústria do entretenimento. Vai uma grande diferença. E, o que é pior, com um nível inferior de qualidade, isso apesar do maior acesso às informações que se tem via Internet.

Trata-se de uma geração estranha de intelectuais, que no entanto ainda dispõe de toda visibilidade e de todo um culto de adoração mútua entre seus pares. E que, alinhada à cultura de direita, no entanto quer que sua visão seja a visão de cultura popular que as esquerdas deveriam assumir.

Intelectualidade estranha: sendo comprometida a pensar, reprova o pensamento crítico. "Sem preconceitos", tem o preconceito maior de ver o senso crítico como expressão do "preconceito". Para ela, "não ter preconceitos" é aceitar o estabelecido pelo mercado e pela mídia do entretenimento, sob o pretexto de que esse estabelecido possui "razões" que todos nós "não podemos completamente entender".

É um discurso anti-científico, mas se impõe à comunidade científica. É um discurso sentimentalóide, que se impõe como "objetivo", em monografias, resenhas, artigos e documentários. É um discurso confuso, que se autoproclama esclarecedor. É um discurso publicitário, que tenta dizer "a verdade". E que, supostamente dedicado à expressão das classes populares, na verdade vai contra sua verdadeira expressão.

Que intelectualidade é essa que se alegra tanto em ser contraditória? Cientistas sociais e críticos musicais que choramingam, feito criança contrariada, quando alguém diz que adotam ideais direitistas sobre cultura popular, e classificam o senso crítico de outro como "preconceituoso", só porque vai contra os sucessos radiofônicos do brega-popularesco?

Hoje essas pessoas, nos seus 30 a 50 anos, eram felizes na infância vendo a televisão da ditadura militar, o rádio do "milagre brasileiro", e o que eles defendem é a pseudo-cultura "popular" que vigorou nas rádios e TVs que batiam continência para os generais Médici e Geisel e apoiavam abertamente seus seguidores civis, Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso.

É só perceber os "artistas" que eles defendem, quase todos alinhados de uma forma ou de outra ao direitismo cultural: Waldick Soriano, Michael Sullivan, Alexandre Pires, Chitãozinho & Xororó, DJ Marlboro, É O Tchan, Mr. Catra, Zezé Di Camargo & Luciano, Gaby Amarantos, Chiclete Com Banana, Banda Calypso.

Até quando apelam para a MPB, escolhem nomes que são até reconhecidamente talentosos, mas também andam alinhados com a ideologia de direita, como Roberto Carlos e Caetano Veloso.

É essa intelectualidade que se diz "de esquerda"? Que prefere defender o radinho e a televisãozinha da empregada doméstica? Que pensa que a empregada gosta realmente de toda aquela cafonice através da qual os barões da mídia manipulam os corações e mentes das classes populares?

A sociedade se evolui, as manifestações sociais ocorrem, mas no Brasil a intelectualidade etnocêntrica que dita suas normas para as esquerdas fica com o mesmo temor das madames do movimento Cansei.

À primeira manifestação de protesto nos EUA ou no Chile, o intelectualóide brasileiro médio - mas altamente endeusado pelos seus pares - vai correndo, correndo para o computador tentar lançar a tese delirante que um show do Calcinha Preta da vida é que equivale ao Ocupar Wall Street de lá.

Suas teses são muito estranhas. Tentam creditar a imbecilização cultural da mídia como uma "genuína expressão" da "natural felicidade de um povo". Tentam creditar a hegemonia mercadológica do brega-popularesco como se fosse um "não-mercado", uma "mídia alternativa", um "mercado independente" ou um "processo que passa longe (sic) dos interesses da grande mídia".

Como se as FMs de grande audiência do nosso país não fossem, elas também, controladas pelos barões da grande mídia. A maior patrocinadora do "funk carioca", a Beat 98, é das mesmas Organizações Globo cujo jornalismo é reconhecidamente oposto aos interesses sociais. Será que a famiglia Marinho não estaria também ao lado dos funqueiros, essa gente traiçoeira que anda enganando as esquerdas de graça?

O mesmo ocorre com a rádio O Liberal FM, do Pará, que dá o maior apoio ao tecnobrega. Que, mais do que um ritmo consumido pela maioria, é um ritmo defendido pelos Maiorana, a famiglia midiática de lá, que anda processando o jornalista progressista Lúcio Flávio Pinto, que definiu o "injustiçado" tecnobrega como um lixo.

Isso sem falar da Bahia FM, ou de outras FMs de Salvador que tocam axé-music e seus subprodutos, como o "pagodão" rebolativo e o arrocha, que são veículos herdados explicitamente pelo poderio de Antônio Carlos Magalhães, já que muitas dessas rádios foram dadas de presente para afilhados políticos quando o "cabeça branca" era Ministro das Comunicações.

As elites detentoras do poder econômico não iriam manipular a opinião pública pelo colunismo político mal-humorado. Acreditar nisso será muita ingenuidade. O "povão" é manipulado pela cafonice reinante, pela breguice compulsiva, que lhe subtrai o senso crítico, a busca por conhecimento e a evolução dos valores sociais.

O brega-popularesco quer ver os pobres resignados, quer ver os idosos das classes pobres morrendo pelo alcoolismo, as crianças e adolescentes na sub-escolaridade, a cultura popular fragilizada pelos enlatados culturais norte-americanos.

Uma periferia manipulada culturalmente pela velha grande mídia nem de longe pode ser considerada "criativa". Por trás dessa "criatividade" dos fenômenos da "cultura de massa", claramente subordinada a padrões conservadores e dominantes de entretenimento, há o interesse associado dos barões da grande mídia e do entretenimento.

A cultura popular é livre, mas não pela cabra-cega do entretenimento ditado por rádios e TVs. A cultura popular não vai ao sabor do vento, mas possui motivações sociais. Por isso esse brega-popularesco pode ser altamente popularizado e consumido pela maior parte das populações pobres do nosso país.

Mas, não produzindo conhecimento nem valores sociais - até mesmo seus ídolos mais veteranos se comportam como se estivessem aprendendo a fazer música pela primeira vez - , essa suposta "cultura das periferias" nada tem de cultura genuinamente popular.

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