segunda-feira, 14 de novembro de 2011

PARA CERTOS INTELECTUAIS, SAMBA NOVO TEM QUE SER DOENTE DO PÉ


CARTOLA E NELSON CAVAQUINHO poderiam ter seguidores novos à altura. Mas a intelectualidade "divinizada" não quer.

Por Alexandre Figueiredo

Para a intelectualidade etnocêntrica divinizada e dotada de muita visibilidade, samba bom tem que ficar no passado. Como um Francis Fukuyama da historiografia da MPB, Pedro Alexandre Sanches andou escrevendo sobre sambas do passado, e recentemente sua pauta priorizou nomes como Leci Brandão, sambista veterana até hoje na ativa, e Nelson Cavaquinho, pela lembrança recente do seu centenário.

Mas o citado jornalista, como toda a intelectualidade etnocêntrica que expressa a direita cultural do nosso país, o samba autêntico é admirável, louvável, desde que seja uma coisa do passado, um artigo de museu ou, quando muito, uma preciosidade de uso quase que exclusivo das classes mais abastadas, das quais fazem parte essa intelectualidade que se acha julgadora da cultura popular.

Recentemente, o samba continua em alta nas rádios, mas as gerações recentes ainda não tem a memória comparável à dos antigos mestres. Pelo contrário, mesmo nomes de grande talento como Diogo Nogueira - filho do bamba João Nogueira, falecido há 11 anos - , de vez em quando compactuam com nomes do chamado "pagode romântico" ou sambrega, espécie de diluição do samba feito na cabra-cega, praticamente desconhecendo seu legado, a não ser pelos hits manjados das rádios.

Há grandes sambistas jovens, como Diogo, Dudu Nobre e Leandro Sapucahy. Há nomes que misturam o samba com outras sonoridades, como Mart'nália e Seu Jorge. Há muitos talentos. No entanto, eles só chegam ao grande público se entrarem numa trilha de novela da Rede Globo ou se obedecem ao "deus mercado" fazendo duetos ou outras parcerias com os medalhões do sambrega, como Belo, Alexandre Pires, Thiaguinho e seu ex-grupo Exaltasamba.

Para a intelectualidade dominante, samba de qualidade é artigo de museu ou patrimônio de classes mais abastadas. O povo pobre, nas suas gerações recentes, não tem acesso à própria historiografia do samba, algo que tentará ser resolvido com o projeto MPB nas Escolas a ser dado no ensino público. Mas a intelectualidade dominante quer é que o "samba novo" a ser consumido pelos jovens da periferia seja ruim da cabeça e doente do pé, através da esquizofrenia musical do sambrega empurrado pelas rádios.

O sambrega é uma espécie de linha de montagem do samba diluído e deturpado. Como ocorre no breganejo, em relação à música caipira. Sob o pretexto de usar "sonoridades modernas" ou "abrir-se para o novo" - argumentações que, na economia, se encontram explícitas no neoliberalismo - , distorce-se o ritmo original em um estereótipo rítmico e melódico que se subordina às influências estrangeiras mais comerciais, sem que elementos nacionais e estrangeiros acrescentem algo novo ou vital para o estilo que é muito mal trabalhado.

Recentemente, o sambrega até investiu num "coitadinho" a chorar mágoas como choraram outrora Waldick Soriano, Tati Quebra-Barraco, Zezé di Camargo e Mr. Catra, que é o cantor Leandro Lehart, ex-Art Popular. Mais um nome a criar um dramalhão de si próprio para ver se volta a estar em evidência na mídia.

Não dá para comparar, portanto, o samba do passado, dotado de muita criatividade e apenas injustiçado por conta da sociedade rigorosamente moralista dos séculos passado e retrasado, com o sambrega que lota plateias e se acha "injustiçado" porque não é levado muito a sério pelos estudiosos mais exigentes da MPB (leia-se José Ramos Tinhorão, Ruy Castro e seguidores).

Porque o samba original tem sua história, desde que ainda se originou do semba trazido pelos escravos africanos. E quem entende de samba sabe que o ritmo conta com muitas variações, que geraram o maracatu, o lundu, o maxixe e outros ritmos diferenciados dentro da estrutura sambista.

O que vemos nos sambregas, todavia, nem de longe representa uma renovação ou modernização do samba. Isso é preconceito? Logicamente, não. Basta ouvir o repertório desses grupos e, por mais esforçados que pareçam na imitação do samba mais acessível - como no caso do Grupo Revelação ou do Exaltasamba dos últimos anos - , pouco vão além de falsos chorinhos, falsas gafieiras e imitações pálidas de Zeca Pagodinho, Jorge Aragão e Fundo de Quintal.

E isso quando tentam fazer algum samba, porque, em muitos casos, sobretudo nos primórdios, os "artistas" de sambrega fazem um engodo que mistura clichês diluídos de boleros e de soul music em arremedos de samba-canção que estão mais próximos de Waldick Soriano do que dos sambas-canções originalmente cantados por Orlando Silva (o cantor, vale lembrar) e Lupicínio Rodrigues.

O sambrega não renova o samba porque a renovação é algo que envolve um conhecimento profundo tanto do antigo quanto do novo, tanto do que é de dentro quanto do que é de fora. Isso foi o que houve com o samba rock de nomes como Jorge Ben Jor, Elza Soares e o saudoso Wilson Simonal e, um pouco antes, através de Denis Brean, Cyro Monteiro, Jorge Veiga, Robertinho Silva e Noite Ilustrada, só para citar alguns.

Afinal, o samba rock tinha conhecimento de causa. Entendia profundamente o samba, sentia seu ritmo, sua melodia, mas estava aberto para influências de fora, como o jazz, o blues, a soul music. Não se subordinava às influências de fora, mas as atraía para seu caldeirão rítmico, não pela escravidão do hit-parade radiofônico, mas pela liberdade de sua criação pessoal.

Só que o samba rock tinha que concorrer com seu diluidor direto, o "sambão-jóia" de Benito di Paula, Luís Ayrão e outros precursores do sambrega de Raça Negra, Só Pra Contrariar e outros que apenas faziam o feijão-com-arroz do cardápio radiofônico, e, se alguns deles pareciam "geniais", é porque apenas copiavam corretamente as lições do que havia de mais manjado dos verdadeiros artistas.

O samba do passado é elogiado sem saudades pela intelectualidade etnocêntrica que confina os antigos bambas nos museus e nas estantes de sua discoteca pessoal. Para ela não interessa que as periferias voltem a fazer sambas de verdade.

Para ela, as periferias têm que ficar no sambrega, a pretexto de "fazerem algo novo, plural e transbrasileiro", e esperar que o "juízo sábio e seguro" da intelectualidade etnocêntrica que se apropriou do acervo dos antigos sambistas que as rádios não mais tocam.

Infelizmente, essa intelectualidade, expressão da direita cultural que finge que não tem a ver com os barões da velha grande mídia, prefere que a cultura de verdade permaneça sob sua posse. Enquanto isso, o "povão" fica apreciando pseudo-sambas de cabeça ruim e doenças nos pés...

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