sexta-feira, 25 de novembro de 2011

O PMDB DO GOVERNO DILMA E O PARLAMENTARISMO DE JANGO



Por Alexandre Figueiredo

É de se notar que a pouca ousadia do governo Dilma Rousseff se deve sobretudo à influência do PMDB que, mesmo na condição de partido da vice-presidência, parece domar politicamente a titular.

Afinal, o PMDB é o único partido remanescente do regime militar que continua existindo até hoje. E que, herdeiro da antiga linha eclética do MDB, sofre os efeitos desse ecletismo. Afinal o (P)MDB sempre foi um balaio de gatos que misturou de setores flexíveis do PSD (o de Juscelino, não o de Kassab) a membros moderados do PCB que não foram pegos pelo AI-1 do começo do dito "governo revolucionário".

O PMDB de hoje parece asséptico, não-ideológico, mas torna-se o que o escritor Tariq Ali define como um dos maiores perigos da política contemporânea: a ascensão do "extremo-centro", de uma nova direita "limpa", "sem ideologias", "cordial" e com um verniz "progressista" que, mesmo bem apresentado, soa muito grotesco e forçado.

Aliás, a atual manobra da centro-direita contemporânea é "aliar para destruir". É uma espécie de sabotagem ideológica. Forja-se um apoio que esconde uma grande cobrança. "Eu te apoiei, não vá me decepcionar", diz o neo-direitista ao esquerdista que aquele disse ser aliado.

E é isso que vemos no governo Dilma Rousseff que tinha tudo para ser mais ousado do que os dois governos Lula que o antecederam. Condições não faltaram para isso, sobretudo pelo temperamento enérgico da presidenta. Expectativas também não faltaram, e lá estavam elas nas apostas que as esquerdas fizeram durante a campanha de 2010. E apoio também não faltava.

Mas se podemos comparar a campanha eleitoral de 2010 com a Campanha pela Legalidade da posse de João Goulart, podemos comparar o atual governo Dilma Rousseff ao governo parlamentarista que se seguiu à referida campanha de 1961, quando a oposição determinou como condição para a posse de Jango a criação de um governo parlamentarista, cujo primeiro presidente do Conselho de Ministros (ou primeiro-ministro) era o nosso conhecido Tancredo Neves, avô do tucano Aécio.

Para quem não sabe, a Campanha pela Legalidade de agosto-setembro de 1961, quando as esquerdas torciam para que João Goulart, o vice do renunciado Jânio Quadros, assumisse a presidência, condição prevista pela Constituição de 1946 mas que era radicalmente combatida pelos ministros militares, mesmo para o ministro da Guerra, Odílio Denys, que em 1955 chegou a aconselhar o marechal Henrique Lott a defender a posse de Juscelino, também ameaçada então (e Juscelino tinha o mesmo Jango como vice).

E os ministros militares eram o demotucanato da época, e havia até a tal "Operação Mosquito" que os milicos planejavam que era abater o avião em que estava Jango, e, fosse quem estivesse junto - desde que não seja algum udenista importante ou qualquer simpatizante da "boa sociedade" direitista - , sofreria a mesma sina trágica.

Mas felizmente os soldados da Aeronáutica, ao decidirem prender nos aviões seus superiores para não cumprirem o plano de atentado, enquanto o Rio Grande do Sul já havia descontentado os ministros militares quando o general Machado Lopes aderiu abertamente à causa da Legalidade, e assim tragédias maiores não aconteceram naquela época. De toda forma, outras tragédias ocorreriam depois, mas são outras histórias.

Dilma Rousseff carece de ousadia em seu governo. Enquanto hesita em relação à reforma agrária, hesitação que pode piorar com o "apoio" que receberá do PSD (o de Kassab, não o de Juscelino), que já conta com a ex-oposicionista Kátia Abreu, a musa do agronegócio, que reúne os "coronéis" de amanhã, hoje posando de neo-empreendedores rurais.

Enquanto isso, Dilma parece consentir com a construção da hidrelétrica de Belo Monte sem saber do risco sócio-ambiental que isso traz. E sem saber, sobretudo, que o projeto Belo Monte é herança do "milagre brasileiro", que originalmente bolou a hidrelétrica mas não pôs o projeto adiante porque a Transamazônica gerou muitas despesas e, naqueles idos de 1974, o regime militar foi abatido pela crise econômica mundial causada pelo aumento do preço de petróleo imposto pela OPEP, no ano anterior.

A hidrelétrica de Belo Monte é daqueles projetos "desenvolvimentistas" que no entanto ameaçam seriamente o meio ambiente, o ecossistema e a sociedade, como foi o projeto de transposição do Rio São Francisco durante o governo Lula, que só iria favorecer alguns fazendeiros, em detrimento da sociedade e do próprio desenho paisagístico da natureza.

E, como Belo Monte, a transposição do Velho Chico traria sérios danos ambientais, causando novos prejuízos em detrimento de supostos benefícios que não vão além de paliativos.

Isso lembra a castração política que o primeiro-ministro Tancredo Neves - que chegou a integrar o mesmo PMDB de Michel Temer - fez com Jango, sobretudo com uma equipe de governo conservadora em que o PSD (ainda o de Juscelino e Tancredo, não o de Kassab e Kátia Abreu) abocanhou seis pastas, e a UDN e o PDC (este com André Franco Montoro, depois um dos fundadores do PSDB) abocanharam uma pasta cada.

Além disso, a disputa partidária e a corrupção dos bastidores no governo Dilma, que atinge nas entranhas tanto o PT, o PDT quanto a centro-direita governista, é um prato cheio para a direitona oposicionista, que assim pode "lavar" seus pecados com o "purgatório" do denuncismo e da calúnia.

Por isso, é necessário que Dilma Rousseff repense sua política, talvez até abrindo mão do pragmatismo. A pressão dos movimentos sociais de fora e a realidade política que se desenha no exterior servem de bons exemplos para o que se deve fazer e para o que não se deve fazer, e os milhares de votos valem muito mais do que qualquer aliança partidária ou programática com forças conservadoras que só atrapalham o progresso do país.

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