domingo, 6 de novembro de 2011

GRUPO BAND SE ISOLA DO INTERESSE PÚBLICO



Por Alexandre Figueiredo

Na manhã de hoje, o repórter cinematográfico da TV Bandeirantes, Gelson Domingos, foi morto por um tiro de fuzil durante um tiroteio entre policiais e traficantes na favela de Antares, em Santa Cruz, zona oeste do Rio de Janeiro.

Poderia ser um episódio comum se não fosse o fato de que Gelson estava com um colete aparentemente a prova de balas, mas que não foi suficiente para conter o impacto do projétil, que atingiu o peito do jornalista de 46 anos.

Esse detalhe fez com que o Sindicato dos Jornalistas do Rio de Janeiro pense em mover um processo contra a TV Bandeirantes por esse descaso na segurança física do rapaz. Pior: meses atrás o Sindicato pediu para as empresas de comunicação criassem uma comissão de segurança para acompanhar a cobertura jornalística em situações de risco e a proposta simplesmente não foi aceita.

Em se tratando de TV Bandeirantes, é mais um episódio que fere e sangra toda sua antiga pretensão de heroísmo midiático - sobretudo de caráter jornalístico - que o grupo midiático tanto trabalhou na sua campanha não somente publicitária, mas junto até mesmo a colunistas de Comunicação, de Jornalismo e de Rádio.

E nem se fala pelo fato do Grupo Bandeirantes de Comunicação, por exemplo, ter tirado qualquer chance de volta da Fluminense FM quando enfiou nos 94,9 mhz do dial do Rio de Janeiro o Aemão noticioso da Band News. Que, por sinal, em vez de herdar, em outro contexto, o carisma da antiga Maldita, dela só herdou o Ibope anoréxico da qual a Band News Fluminense não consegue sair, índice igual ao que a dilapidada Flu FM teve há 20 anos atrás.

Mas isso é fichinha diante das posturas que o Grupo Bandeirantes de Comunicação adotou nos últimos anos, depois de tentar uma sedução tendenciosa à intelectualidade esquerdista. E que nos traz à luz o passado histórico do grupo midiático, ligado a Adhemar de Barros e simpático ao golpe de 1964, como uma Folha de São Paulo áudiovisual.

O telejornalismo da TV Bandeirantes fala a mesma língua da Rede Globo, inclusive ontem citou até o ridículo termo "protesto contra a crise" que minimiza o poder de ação de movimentos como o Ocupar Wall Street. Com todos os vícios de linguagem de poder cometidos (até dizer "balada", termo que, na linguagem do PiG, se refere a festas noturnas).

O que despertou o alarme em relação à Bandeirantes foi o comentário que Bóris Casoy havia feito contra os garis, em conversa de bastidor transmitida acidentalmente em rede nacional. Esperava-se que tal postura fosse feita pela revista Veja, mas não se imaginava que a "boazinha" TV Bandeirantes disparasse esse comentário todo.

Recentemente, houve o caso do CQC que, não bastasse Marcelo Tas ser sócio do Instituto Millenium tal qual seu xará Marcelo Madureira, teve seu "polêmico" repórter Rafinha Bastos, já conhecido por comentários grotescos até para os níveis mais flexíveis do humorismo, envolvido em dois incidentes.

Um deles foi o comentário que Rafinha fez contra as mulheres, dizendo que as feias deveriam agradecer quando forem estupradas e os estupradores mereceriam um abraço do humorista nesta situação. Outro foi um comentário jocoso que Rafinha fez sobre a gravidez cantora Wanessa Camargo. A pretexto de ter-se excitado sexualmente pela formosura da cantora, Rafinha disse, sem hesitar: "Eu como ela e o bebê".

Em ambos os casos, houve processo judicial. Uma entidade feminista paulista deu entrada no Ministério Público estadual para punir Rafinha pelo comentário sobre o estupro. E Wanessa, junto ao marido Marcus Buaiz, também entraram em processo por danos morais.

Mas a TV Bandeirantes, tanto no caso de Rafinha Bastos quanto no de Bóris Casoy, demonstrava uma intenção latente de protegê-los. Somente quando pressionada, a emissora jogou Bóris em outros jornalísticos menos assistidos da emissora e, no caso de Rafinha, só pensou em suspendê-lo do CQC pelo fato de Wanessa ser uma celebridade, filha de um rico breganejo e esposa de um empresário.

Isso sem falar que a TV Bandeirantes foi a primeira, nos últimos anos, a "ressuscitar" o "mito" Cabo Anselmo, figura "clássica" da direita nacional, no seu programa de entrevistas Canal Livre, talvez como uma forma antecipada de fazer renascer um clamor direitista para o país às vésperas das eleições de 2010, como uma atualização da Rede da Democracia que já defendia o golpe militar em 1963.

Também a própria Rádio Bandeirantes, não bastasse a gula da dupla transmissão AM/FM em São Paulo, cometeu irregularidades burocráticas (os 90,9 mhz da capital paulista eram, na verdade, de uma concessão de FM para Santos, no litoral), atrapalhou a sintonia de rádios comunitárias, entre outras irregularidades técnicas típicas da pirataria.

Não bastasse isso, a Band ainda tem um apetite de atacar os movimentos dos sem-terra. Claro, seu dono, João Carlos Saad (conhecido como Johnny Saad), neto de Adhemar de Barros por parte de mãe, é um grande fazendeiro, não vai deixar barato defender um movimento social autêntico, mas que vai contra os interesses das "classes produtoras" do nosso país (que, em muitos casos, de "produtoras" só tem o nome, como pretexto para abocanhar grandes pedaços de terras).

Ou seja, o Grupo Bandeirantes de Comunicação, que tanto sonhava numa "Revolução Francesa" através do jornalismo, não conseguiu ser a nova mídia que tanto sonhou ser. A corporação deixou de acompanhar as transformações sociais que hoje em dia não veem mais o jornalismo como uma força acima da sociedade.

E, sobretudo quando a chamada "grande imprensa" se encontra em crise, a Bandeirantes, assim como a Isto É, não estão excluídas do contexto em que se encontram Globo, Veja, Folha e Estadão. Defendendo interesses privados, meramente empresariais, a Band, como os demais veículos da velha grande mídia, se isola do interesse público.

A privatização da opinião pública, seja na grande mídia propriamente dita dos líderes do mercado, seja na "mídia boazinha" de seus concorrentes diretos, mostra-se um processo em crise, quando a cada dia a blogosfera mostra uma diversidade de visões, sem qualquer controle empresarial.

Os tempos são outros.

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