domingo, 6 de novembro de 2011

FALANDO A LÍNGUA DE CERTOS CAROS AMIGOS



Por Alexandre Figueiredo

Para certas pessoas, é preciso que se explique as coisas através de parábolas, para que elas entendam certas coisas dentro do limite de seus tabus. Até Jesus Cristo usou desse recurso na sociedade atrasada de seu tempo para esclarecer seu povo.

Pois parte da intelectualidade brasileira, integrante da classe média alta e cuja formação ideológica inclui desde o "milagre brasileiro" de suas tenras infâncias até o circo midiático do pós-1964 até hoje, ainda não consegue entender a cultura popular através de seus preconceitos positivamente etnocêntricos e generosamente elitistas.

Para ela, a cultura popular não vai além do cativeiro da grande mídia. Uma grande mídia que, de tão introjetada nessa intelectualidade desde sua infância - geralmente entre os governos de Castelo Branco e Ernesto Geisel - , simplesmente "não existe" em suas mentes, e que transmite uma "cultura" que, para essa intelectualidade "sem preconceitos" mas bastante preconceituosa, lhes parece tão natural e espontânea, ainda que não seja de fato.

Só mesmo uma comparação para que essas pessoas, que só perceberam que o planeta está vivendo a primavera das manifestações sociais através do Oriente Médio, para ver as contradições acerca da pseudo-cultura "popular" que domina no Brasil.

OEDAND'EMA - Suponhamos que o Estado de Israel, que, sabemos, é protegido dos EUA, invista no entretenimento para manipular e dominar o povo palestino, "rival" das elites judaicas israelitas.

O entretenimento se dá com cantores, músicos e celebridades vindos dos povos palestinos, mas que são patrocinados e tutelados pela mídia e pelos empresários do entretenimento ligados a Israel.

De repente, os "humildes" barões do entretenimento de Israel - que a intelectualidade oficial nunca credita como empresários e muito menos como israelenses protegidos pelo imperialismo - investem num grupo chamado ودمدم (algo como "Oedand'Ema", É O Tchan em árabe), composto de dois cantores vestidos de sultão, outro de soldado árabe e acompanhados de dançarinas vestidas de odaliscas.

O intelectual de plantão, de reputação alta por conta de seu status como ideólogo da cultura árabe, escreve logo um artigo na imprensa palestina dizendo que o Oedand'Ema é a expressão do povo oprimido da Palestina.

O intelectual que escreveu este artigo havia trabalhado "boboalegremente" na imprensa israelense, mas não se sabe por que cargas d'água escreve para a imprensa palestina, com os mesmos pontos de vista de Israel e até do Departamento de Estado dos EUA.

Oedand'Ema, mesmo contando com um empresário israelense - que, para não causar estranhamento, sempre se veste como palestino - , é tido pelo articulista como "expressão genuína da revolta palestina". Dentro de um engenhoso discurso que mistura diversas tendências, díspares e difusas, o articulista tenta nos fazer crer que o espetáculo do Oedand'Ema é uma "legítima rebelião árabe".

Insistindo nos argumentos, o articulista usa como pretexto a rejeição que Oedand'Ema causou na sociedade devido ao seu conteúdo óbvio: inexpressivas músicas pseudo-árabes com forte apelo pornográfico e letras simplesmente de duplo sentido.

O articulista, então, ainda insiste em dizer que o Oedand'Ema é "revolucionário" por "causar pavor à tradicional sociedade árabe por romper com seus dogmas moralistas". Bingo! Faz-se "contracultura" num copo d'água, credita-se qualquer bobagem como "primavera rebelde" apenas porque ela é rejeitada por alguém.

Mesmo a associação subentendida do Oedand'Ema com o departamento de Estado dos EUA é "dissimulada" pelo articulista com o argumento, de apelo fortemente sentimental, apesar do aparato "científico" do discurso e da reputação intelectual de seu autor, de que a influência estadunidense é apenas "um ingrediente do caldeirão polimórfico e multifacetado do Oedand'Ema", que, no dizer do seu ideólogo, "é muito mais do que a tradução dos elementos estadunidenses".

Com esse festival de lorotas e meias-verdades "cientificamente" difundidos, verifica-se as contradições de um grupo cujos integrantes podem ter origem palestina, mas é patrocinado por Israel e pelo Departamento de Estado dos EUA.

Essa comparação fictícia ensina a muitos o que é, na verdade, a suposta "cultura das periferias" que se atribui o mercadão brega-popularesco patrocinado pela grande mídia. Por mais que se credite como uma "rebelião popular", ou como uma "primavera de praga" - mais para pragas do que para primaveras, é bom que se saiba - , essa "revolução social" nem de longe assusta os senhores do poder, o que desfaz toda a farsa de "movimentos sociais" atribuído a esse mercadão do entretenimento grão-midiático.

Antes que se leia certas páginas de Caros Amigos e Fórum, é bom que se leia, antes, este texto.

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