quinta-feira, 3 de novembro de 2011

A EVOLUÇÃO DA AGENDA TEMÁTICA DAS ESQUERDAS



Por Alexandre Figueiredo

Disse Eric Hobsbawn, o historiador marxista que escreveu A Era dos Extremos 1914-1991 em 1994, disse certa vez: "Toda esquerda, incluindo humanitários liberais e social-democratas moderados, precisava de algo além que legislação de seguridade social e salários reais crescentes". Profeticamente, a frase do historiador mostra que as agendas temáticas das esquerdas vão bem além do mero pragmatismo econômico e social.

Numa época em que acontecem seminários sobre a blogosfera progressista, as esquerdas evoluem no conhecimento de novas questões e dilemas. Por outro lado, a aparente "frente ampla" da política e da mídia de centro-esquerda, que envolve pessoas dissidentes da direita mas ainda afinadas com seus antigos ideais, mostra suas contradições sérias e constrangedoras.

Afinal, a "ampla aliança", eclética até o extremo, fazia com que muitos dos valores associados ao demotucanatos, reproduzidos de forma "híbrida" ou "flexível" por seus supostos dissidentes - que romperam com seus antigos mestres por divergências pessoais e não por ideologia - , mais atrapalhassem do que ajudassem nas reformas sociais prometidas pelo governo petista ou mesmo por parte da mídia alternativa.

De Nelson Jobim a MC Leonardo, de Jair Bolsonaro a Pedro Alexandre Sanches, de Gilberto Kassab a Heródoto Barbeiro, de Mário Kertèsz a Ivete Sangalo, de Jaime Lerner a Eduardo Paes, toda essa patota da direita heterodoxa tirou de uma forma ou de outra uma casquinha das esquerdas, aliando a ela apenas quando ela lhe convinha, quando suas causas nem de longe ameaçavam seus interesses ideológicos originais.

Sejam entrincheirados em espaços flexíveis de centro - TV Record, PMDB - ou se infiltrando mesmo nos espaços esquerdistas - PT, PSOL, Caros Amigos - , a centro-direita flexível começa a mostrar suas contradições quando o esquerdismo ultrapassa os limites da agenda pragmática de um mero bem-estar sócio-econômico.

Quando as questões passam para aspectos bem mais profundos, de âmbito educacional, cultural, ambiental, histórico e tudo o mais, a centro-direita "flexível" começa a se incomodar de alguma forma. Aí a direitinha paz-de-amor deixa de lado a lua-de-mel com a centro-esquerda.

Aí chegam acusações de "patrulha ideológica", "radicalismo bolchevique", "inflexibilidade ideológica", "incompreensão", "intolerância" e "preconceito", quando valores direitistas, em voga desde o regime militar e reforçados durante os governos Collor e FHC, são postos em xeque.

A evolução da agenda esquerdista mostra o quanto a centro-direita "híbrida" está com medo. Alguns pseudo-esquerdistas já ensaiam um retorno à direita. Outros ainda ficam nas esquerdas se "justificando" e tentando "purificá-la" com seus valores "imparciais".

Mas, com a entrada do PSD de Kassab no páreo político e com anunciada fome de urnas, é possível que a revoada de pseudo-esquerdistas a cada dia mais desiludidos com as mudanças que vão contra seus interesses, apresente surpresas maiores do que a mudança do apresentador-brucutu Wagner Montes do PDT para o PSD.

O avanço das discussões da regulação da mídia - que a pseudo-esquerdista fingia apoiar, por acreditar que não é algo muito sério - , por exemplo, é um processo que anda fazendo os falsos socialistas, na verdade demotucanos de almoxarifado, coçarem suas cabeças.

Enquanto a regulação de mídia parecia nunca ameaçar o "patrimônio" das popozudas da mídia, tudo era festa, amor e fantasia, todo mundo de mãos dadas com Emir Sader, apesar da pseudo-esquerda, no fundo, nunca concordar realmente com as ideias deste sociólogo de esquerda.

É até notável que esses pseudo-esquerdistas, que na moita digital da Internet, até "seguem" Emir Sader, "assinam" o fórum do Luís Nassif e "adoram" o Viomundo do Luiz Carlos Azenha, nem sequer cheguem perto às palestras dos blogueiros progressistas, às reuniões do Centro de Estudos de Mídia Alternativa Barão de Itararé e outros eventos de esquerda.

Não vão porque poderão ser desmascarados em público, do contrário que um desmascaramento virtual na Internet, que lhes parece inócuo porque seus "acusadores" não parecem ter a grande visibilidade de que gozam os pseudo-esquerdistas.

Mas isso mostra que sua ação tem limites. E mostra que a agenda esquerdista vai muito mais além de se preocupar com a seguridade social e os salários dos trabalhadores. E vai além mesmo de criticar Globo, Veja e Folha ou José Serra, FHC e Geraldo Alckmin.

E isso mete medo numa pseudo-esquerda que vê Nelson Jobim ser expulso do barco e que já se assusta quando um blogue como Mingau do Aço revela a existência de uma direita cultural organizada.

Muita coisa vai acontecer, seja quanto ao progresso das agendas esquerdistas, seja quanto à reação daqueles que não convenceram na sua encenação pseudo-esquerdista.

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