quarta-feira, 9 de novembro de 2011

DIREITA CULTURAL: A DITADURA MIDIÁTICA NÃO IRIA ACEITAR SUA DERROTA



Por Alexandre Figueiredo

A velha grande mídia não iria deixar barato na sua crise. Sabendo que seu noticiário político anda cada vez mais criticado pelos analistas de esquerda e pela blogosfera progressista, o barco à deriva da velha mídia teria mesmo que adotar uma medida para salvar-se do naufrágio.

Buscou salvar sua ideologia cultural, como corsários que buscam salvar parte de suas mercadorias e de seus tripulantes do trágico afundamento de seu barco.

A direita cultural encontrou uma brecha nas esquerdas intelectuais e se aproveitou disso para inserir seus valores nela. Ela se valeu porque sua retórica é, aparentemente, diferente do discurso negativista e mal-humorado dos "calunistas" e "urubólogos" da grande imprensa.

A cultura de direita, dessa maneira, buscou convencer com um discurso mais "positivo", aparentemente favorável às classes pobres. E um discurso "recheado" de referenciais agradáveis, com acento pós-moderno, cheio de verborragias modernistas e até certo sentimentalismo.

O que não significa que certas "urubologias" deixem de serem feitas. Pelo contrário, elas ganham até um tom "simpatico" e "valente", através de toda aquelas acusações de "preconceituosos", "elitistas", "higienistas", "moralistas" e "invejosos" de todos aqueles que sabiamente rejeitam a mediocridade da "cultura popular" de mentirinha do brega-popularesco.

É uma "urubologia" que atrai simpatia, pelo seu apelo ao mesmo tempo piegas e desesperado, que no âmbito da indústria cultural consegue seduzir qualquer um que tenha um coração amolecido.

Mas podemos citar o porta-voz da defesa ao brega-popularesco, Caetano Veloso, numa frase de seus tempos de 1968, como ilustração: "Se vocês, em política, forem como são em estética (cultural), estamos feitos!". Imagine o que seria de Paulo Maluf se ele fosse promovido como um coitadinho. Estaria em alta na política. Fernando Collor até sentiu esse sabor quando foi eleito para o Senado Federal com uma "pequena ajuda" da Isto É e da "tropa de choque" collorida do Orkut.

Não sendo possível isso, como também não é possível promover um Diogo Mainardi da vida como um coitadinho, muito menos uma Eliane Cantanhede da vida, a direita cultural prefere promover ídolos musicais e musas calipígias, que, mesmo associados a um contexto neoliberal de mercantilismo cultural, são servidos às esquerdas empacotados com "paçocas".

Existe até um truque que a direita cultural usa quando a defesa do brega-popularesco empurrada à mídia de esquerda é a mesma defesa veiculada pelos principais periódicos da mais reacionária mídia grande. É uma desculpa esfarrapada, até pouco sutil, mas para muita gente engana direitinho (ou seria esquerdinho?).

É a desculpa de dizer que os ídolos brega-popularescos estão no PiG por causa de uma invasão, que logo vemos hipotética e inverossímil, que eles fazem na velha grande mídia. Como se a velha grande mídia fosse tomada de assalto por eles, numa suposta e tosca alusão ao filme Airheads - Os Cabeças de Vento.

Não há como ver, no entanto, como "invasão" a aparição feliz e convergente de nomes como Mr. Catra, Banda Calypso, Alexandre Pires, Psirico, Gaby Amarantos e Tati Quebra-Barraco nos veículos da velha grande mídia. Até porque eles são despolitizados o suficiente para que nem de longe pensem em fazer alguma "guerrilha" midiática sequer em sonhos.

Mas o festival de lorotas que faz a direita cultural triunfar, enrustida, entre as esquerdas, convence a intelectualidade mais frágil. Mr. Catra aparece na grande mídia, mas é tido como "sem mídia"? O pessoal aceita. Waldick Soriano foi direitista mas hoje é um "ídolo das esquerdas"? O pessoal aceita. As rádios que mais apoiaram o regime militar tocaram música brega, mas esta é tida como "inimiga do regime"? O pessoal aceita. Como aceitaria também a omissão da axé-music do passado recente ligado ao mais escancarado patrocínio de Antônio Carlos Magalhães.

A direita cultural, com isso, fez triunfar sua herança. E isso, por incrível que pareça, fortalece os "calunistas" quase mortalmente feridos por uma intelectualidade de esquerda cujos indivíduos menos críticos elogiam o "funk carioca" e o tecnobrega que não assustam a grande mídia.

Tanto que, anos atrás, o sombrio Reinaldo Azevedo havia criticado a intelectualidade etnocêntrica que caía de amores no "funk carioca", julgando-se triunfado pela superioridade cultural e diante da ingenuidade dos intelectuais etnocêntricos que se limitam a dizer que Reinaldo é um "preconceituoso" ou "invejoso", sem qualquer argumentação forte para combatê-lo.

Aliás, a própria intelectualidade etnocêntrica, seja ela de direitistas culturais enrustidos ou de intelectuais de esquerda mais frágeis, deixa vazar contradições que só enfraquecem o esquerdismo intelectual e o torna vulnerável diante da fragilidade de seu senso crítico.

Porque, nas suas entranhas, a cultura de direita, mesmo travestida no "mais sincero esquerdismo", sutilmente insere seus preconceitos direitistas. Endeusa o "deus mercado" mesmo anunciando sua morte, na medida em que exalta seus ídolos e totens do brega-popularesco. Critica as "patrulhas ideológicas" com o puro apetite de desmoralizá-las. Esculhamba herdeiros de uma intelectualidade progressista, como o cantor Chico Buarque. Enquanto isso, exalta antigos ícones identificados com a direita, como Waldick Soriano, agora promovidos a "batalhadores de esquerda".

Como tudo isso é descrito de forma carinhosa e simpática, pouco lembrando o mau humor habitual dos cronistas políticos da mídia direitista, essa pregação torna-se convincente para muitos. Porque é um discurso "positivo", aparentemente favorável às classes populares.

Só que esse discurso defende, na verdade, a domesticação das classes populares, a sua exclusão do debate público das esquerdas. Isso tem o puro objetivo de isolar as esquerdas no seu esforço de mudar o país. E para isolá-la, o que faz a direita cultural? Despejar impropérios? Não, necessariamente.

A cooptação cria uma falsa aliança cuja traição é algo pensado a médio prazo. A direita cultural enrustida vira amiga das esquerdas, defende suas propostas nos enunciados, embora as rejeite nos seus mínimos detalhes.

A direita cultural expressa falsa discordância com seus pares, sejam mestres, discípulos e arautos - tanto um Fernando Henrique Cardoso quanto um Otávio Frias Filho ou Marcelo Tas - e falsa concordância com aqueles com os quais discorda profundamente - seja um Dioclécio Luz, um Emir Sader, um Venício Artur de Lima - , só para impressionar seus pretensos companheiros.

Só que até quando a direita cultural irá armar o bote, nunca se sabe. Pode ser hoje, pode ser amanhã, pode ser em 2014. No final do governo Lula, uma VJ Soninha emergiu chutando a barraca da esquerda ao dar as mãos a José Serra. O casseta Marcelo Madureira fez o mesmo.

E quem será o próximo, sobretudo entre uma pseudo-esquerda (e não a ex-esquerda de Soninha e Marcelo) com claro QI demotucano? A pseudo-esquerda atrelada à direita cultural aparentemente não quer e não pensa em largar o osso das esquerdas, já que seus oportunistas usurpam com natural parasitismo bajulador.

Mas pode ser que o jogo vire amanhã, porque essa direita cultural, queiram ou não queiram, é herdeira dos últimos apelos ideológicos da velha mídia decadente, para a qual sobrou o brega-popularesco como sua ferramenta de manipulação e controle social, para salvar seus privilégios políticos e econômicos ainda vigentes. É bom abrirmos os olhos.

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