sexta-feira, 4 de novembro de 2011

DIA DA FAVELA, DIA DA CULTURA E OS OPORTUNISTAS



Por Alexandre Figueiredo

Hoje é o Dia da Favela, amanhã o Dia da Cultura. São datas muito importantes, porque um se refere a um tipo de comunidade popular surgida forçadamente pela exclusão imobiliária e pelas pressões da pobreza e da carestia. Outro é o dia em que se celebra o patrimônio cultural brasileiro.

Mas no entanto tanto uma data ou outra são "comemorados" por oportunistas que adotam uma postura falsamente solidária, mas acabam por depredar a cultura e depreciar a população pobre, mesmo a pretexto de defender um e outro com suposta paixão.

A favela merce atenção, não da forma contemplativa do exotismo hipócrita, que pouco faz para resolver a miséria, só com paliativos cuja única coisa que faz é inserir uma parcela relativamente abastada dos favelados - aquela que pode pagar com menos prestações a compra dos eletrodomésticos - no âmbito do consumismo.

Esses oportunistas, surgidos dos porões da direita cultural e agora travestidos de "esquerdistas modernos", usam discursos confusos, contraditórios, que fazem a classe média alta cair em delírio, pela aparente bondade com o que entendem como "cultura do povo pobre", na verdade uma pseudo-cultura que a mídia impôs historicamente para o povo pobre e que, se é "naturalmente popular", é porque se resultou de uma campanha publicitária de mais de 40 anos.

Afinal, a intelectualidade "sem preconceitos" mas bastante preconceituosa entende por "cultura das periferias" todo um sistema de estereótipos que os barões da velha mídia há muito trabalharam para transformar o povo pobre numa caricatura pior do que qualquer espetáculo de ficção.

Pois é uma "cultura" de plástico, postiça, acrítica, movida pelo espetáculo que não é o natural espetáculo das ruas nem da espontaneidade humana, mas o espetáculo como negócio, como processo tendencioso de se falsear conforme as circunstâncias.

É um processo esquizofrênico, camaleônico no pior sentido do termo, que não trabalha com produção social de conhecimento nem com evolução dos valores sociais, e cujos ídolos ficam sempre se justificando, fazendo papel de vítimas, se achando só porque lotam plateias em galpões de mega-eventos.

O "funk carioca", o "pagode romântico", o "sertanejo", a axé-music, o forró-brega e tantos outros, além da música brega "de raiz", tudo isso é uma pseudo-cultura que atende muito bem aos interesses dos barões da grande mídia. Não adianta dizer o contrário, até porque a associação dessa pseudo-cultura ao povo pobre não é uma associação natural, ela foi trabalhada pela mídia e pelo marketing durante anos. Parece natural e espontânea, mas foi fruto de muita persuasão.

Não é uma cultura viva nem ativa. Até porque os ídolos brega-popularescos de 1990 fazem a mesmíssima coisa há vinte anos, eles é que são realmente a "cultura estanque" que os intelectuais tanto reclamam. Falsos sambistas que macaqueiam o soul norte-americano, falsos caipiras que macaqueiam a música country, funqueiros metidos a ativistas, axézeiros que se acham donos do Brasil. Todos congelados no tempo, à procura do mesmo estrondoso sucesso de 1990 ou 1997.

Eles não são a verdadeira cultura. Só porque são consumidos pelo povo pobre e, em tese, a ele associados, não significa que essa associação seja real. Até porque esquecemos que o maior interessado é o "canal" - estamos falando de Teoria da Comunicação - entre o emissor do produto brega-popularesco e o público receptor: os mesmos barões da grande mídia que justamente condenam os movimentos sociais.

A cada dia a direita cultural mascarada de esquerdista entra em contradições, sem poder explicar suas ideias confusas. Meio autistas, parecem pouco preocupados com críticas, felizes com a visibilidade alta que possuem. E que ofusca suas próprias visões de si mesmos, esquecendo que em outros tempos esses mesmos "esquerdistas" estavam felizes aprendendo com os demotucanos como pensar a "cultura popular" sob a ótica do "deus mercado".

E, agora, são esses ideólogos, com suas "paçocas" retóricas digestíveis mas laxativas, que tentam, de maneira esquizofrênica, dizer que essa pseudo-cultura "popular" é alheia ao mercado e está fora da mídia. Nada disso. Ela está mais do que dentro da grande mídia, e garante o sono tranquilo dos barões do Instituto Millenium, felizes consumidores dessas "paçocas" ideológicas.

Quem perde o sono são os verdadeiros esquerdistas, ativistas sociais, que veem tristemente todo o paradigma de movimentos sociais ser distorcido, no Brasil, para o reles consumismo brega-popularesco, que parece se autopromover às custas da própria rejeição que sofre de intelectuais verdadeiros, pela mediocridade gritante que representam para nossa cultura.

Tentam parecer resistentes a essa rejeição, como se fossem corajosos. Mas são só covardes que rejeitam o sucesso que alcançaram, mais preocupados com uma única crítica que recebem. Contraditórios, trabalham o sucesso que depois acham pouco, porque pensam ser "grandes artistas", "grandes ativistas". Mas são só ícones da mediocridade cultural que só o politicamente correto se interessa em omitir.

Por isso, o que se deseja é que seja recuperada a velha cultura popular, certamente atualizada para nossos tempos. Uma cultura que nada tenha de brega, cafona ou neo-brega, que não se valha da rejeição recebida nem da mediocridade enrustida, mas de verdadeiros valores.

Queremos uma cultura popular que produza conhecimento, valores sociais sólidos, que não trate o povo pobre feito caricatura, feito bobo da corte de intelectuais burocratizados e estúpidos, que só fazem falar besteiras para plateias de "focas de circo".

Queremos uma cultura que faça o povo pobre ser valorizado, não pelo império do grotesco, mas pela transformação de seus valores, superando a miséria, a ignorância e seus vícios. Uma cultura que faça o povo crescer, não uma cultura que faça o mercado se enriquecer às custas da exploração do grotesco, da cafonice e da pieguice.

Da mesma forma que queremos outros intelectuais, que não produzam falácias com sabor de paçoca.

Cultura é coisa séria, não pode ser brincadeira de retóricos traiçoeiros nem de ídolos medíocres usurpadores da fama.

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