quarta-feira, 16 de novembro de 2011

CRISE DO BREGA-POPULARESCO É A CRISE DA VELHA MÍDIA


A CRISE DA DUPLA ZEZÉ DI CAMARGO & LUCIANO É UM EXEMPLO DO DESGASTE EM QUE VIVE O BREGA-POPULARESCO.

Por Alexandre Figueiredo

A crise da velha grande mídia também envolve sua divisão "cultural". A hegemonia do brega-popularesco ainda continua firme em muitos rincões urbanos, suburbanos e rurais em todo o país, mas ela também é afetada pela mesma crise que afeta seriamente o jornalismo político da grande mídia.

Há muito a verdadeira cultura popular está marginalizada. E não se tratam de ídolos bregas ou neo-bregas ameaçados de ostracismo ou cheios de obstáculos nas suas carreiras. São verdadeiros sambistas, violeiros, poetas, sanfoneiros, pianistas, gente que foi deixada de lado porque não foi para o caminho fácil da breguice espetacular, do sensacionalismo cênico dos palcos e da mediocrização compositora de seu repertório.

Durante muitos anos o brega-popularesco vestiu a carapuça de "verdadeira cultura popular". Ganhou o apoio estratégico de intelectuais de nome, e desde que veio o crepúsculo político da Era FHC, a defesa intelectual do brega-popularesco é servida tranquilamente para a mídia esquerdista com os mesmos argumentos transmitidos na velha grande mídia. Ou seja, o velho neoliberalismo cultural é servido em doses açucaradas para os leitores de veículos como Caros Amigos, revista Fórum e Carta Capital como se neoliberal não fosse.

Direitistas diversos como Waldick Soriano, Alexandre Pires, Ivete Sangalo e Zezé di Camargo são empurrados para a mídia esquerdista sob o rótulo de "cultura da periferia". Ídolos do "funk carioca" que entravam nos veículos das Organizações Globo e do Grupo Folha pelas portas da frente diziam-se "discriminados pela grande mídia" e todo mundo acreditava. Campanhas de defesa do brega-popularesco possuem uma sofisticação argumentista que a música não tem realmente.

Depois do auge do brega-popularesco, agora há o declínio. É só ver os noticiários para ver os infortúnios que envolveram os principais artistas "populares" do circuito grão-midiático nacional. Acidentes e tensões que, por pouco, não geraram tragédias, e outros gerando tragédias envolvendo ídolos mais obscuros ou membros das equipes técnicas.

Tudo isso ocorre depois da onda de "discos ao vivo" que praticamente congelou as carreiras desses "artistas", contrariando a imagem publicitária que eles vendem de "criadores da música contemporânea". Em certos casos, os cantores não emplacam um grande sucesso musical há mais de cinco anos, mas estão sempre presentes na mídia como se fossem "artistas contemporâneos".

Há, pasmem, quem os vê, ainda, como se fossem a "expressão do novo", enquanto suas músicas já ganham o gosto de coisa mofada depois de um ano de execução nas rádios. Até o novato cantor Luan Santana hoje soa uma coisa velha e ultrapassada.

A intelectualidade "comprada" pelos barões do entretenimento tenta, desesperadamente, desvincular o brega-popularesco da velha grande mídia. É um processo que lembra o dos velhos corsários que, quando veem seus navios bombardeados, tentam salvar seus estoques de material contrabandeado.

Mas a crise dessa suposta "cultura popular" é a mesma crise da velha mídia. Não há como desvincular uma e outra. O caju não vai falar mal do cajueiro. A goiaba não vai dizer que boboalegremente era um fruto da goiabeira. A manga não diz que rompeu com a mangueira. A laranja não vai dizer que segue invisível aos olhos da laranjeira. Mas o brega-popularesco, cria da velha mídia, insiste em se desvencilhar dela, como o diabo foge da cruz.

Há pânico nos bastidores da intelectualidade, há insônia e inquietação. De repente aquela velha argumentação de "vítimas de preconceito" não cola mais, e não há como definir como "discriminado pela grande mídia" ídolos que aparecem no Domingão do Faustão para milhões de telespectadores em todo o país.

Faz-se de tudo, até publicar inverdades, para salvar o brega-popularesco. Inventa-se que seus ídolos aparecem na grande mídia como invasão conspiratória, enquanto os mesmos aparecem felizes abraçados aos mestres-de-cerimônia da velha mídia.

Pedro Alexandre Sanches até se embolou, quando tentou descrever seu passado na Folha de São Paulo. Contraditoriamente, ele disse que a Folha de São Paulo era "higienista" (o que, a saber da visão dele, era como se a visão de "cultura popular" do periódico se limitasse a Heitor Villa-Lobos, Tom Jobim e a turma do Biscoito Fino), mas disse também que a FSP apoiava a axé-music para combater FHC, quando a axé-music era claramente patrocinada pelo "painho" que se aliava ao presidente-sociólogo, ACM.

O desgaste do brega-popularesco deixa a indústria cultural em pânico. Nem mesmo a mais empenhada campanha consegue reabilitar seus ídolos como um todo. Paulo César Araújo, com todo o lobby do seu livro Eu Não Sou Cachorro, Não, não conseguiu reativar a antiga popularidade dos ídolos cafonas, que, uma vez "homenageados", voltavam para o ostracismo.

Agora, é a crise do brega-popularesco. Se por um lado ainda aparecem "grandes eventos" que variam da festa de Barretos ao Carnaval baiano - há muito distante da criatividade original e entregue ao império mercantilista dos blocos da axé-music - , ou outros que vão do Rio Parada Funk do Largo da Carioca à festa da FM O Dia no Vibe Show, galpão mega show do Grande Rio, por outro há indícios de que mesmo esses eventos de celebração da hegemonia brega-popularesca já mostram algum ranço de coisa rotineira e repetitiva.

As musas "popozudas" também cansam com sua exibição viciada de "roupas curtas". Em nenhum momento elas desafiam o moralismo "mostrando-se demais" e sua pretensa sensualidade é muito oca para que represente algum feminismo ou alguma "liberdade do corpo". E a crise já mostrou também que essas musas, que de "desejadas" só tem a imagem publicitária, também são bastante temperamentais. É só tirar uma dessas "musas" dos ensaios para o Carnaval 2012 que ela vai ficar uma fera.

O desgaste não se dá de forma explícita. Como também a crise do Oriente Médio não se culmina da noite para o dia. Neste caso, admite-se que as forças da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) tenham se precipitado no desfecho da ditadura da Líbia, assassinando o ditador Muammar Kadafi, quando a natural pressão popular poderia ter até derrubado antes, mas teria o mantido vivo para um futuro julgamento por crimes de guerra e contra os direitos humanos.

Claro, o brega-popularesco, aparentemente, está em alta nas ruas das cidades. Mas nota-se que seu declínio começa a surgir nos bastidores. A crise da indústria fonográfica acaba atingindo seus ídolos duplamente. O comércio pirata de CDs lhes dá maior visibilidade e favorece o sucesso, mas não lhes dá dinheiro. Perdendo dinheiro, não conseguem sustentar suas carreiras. E o mercado entra em colapso, tanto pelo comércio ilegal quanto pelo desgaste dos ídolos brega-popularescos.

O próprio colapso do rádio FM, entregue ao comercialismo fácil da Aemização - quando a programação "de FM" não inclui música, seguindo uma lógica de arremedo de rádio AM - e do proselitismo religioso, não favorece os brega-popularescos.

Daí que, com o jabaculê radiofônico cada vez mais voltado, não para a música, mas para o noticiário político e, acima de tudo, para o futebol, os ídolos brega-popularescos tentam outro foco de "divulgação", que é o respaldo intelectual, com base no fato de que muitos cenários sociais e políticos se fortaleceram com a pregação ideológica de intelectuais envolvidos. O IPES já produziu muitas "paçocas" que contribuíram para derrubar Jango e instalar o neoliberalismo pelo longo caminho político do regime militar.

Conservador na sua essência, o brega-popularesco tenta ser "moderno" e "arrojado" na sua forma. No seu último desespero de evitar seu perecimento, ele se serve de tecnologia de ponta, de muita iluminação e cenografia sofisticada, de vestuário modernoso, de marketing arrojado, de "musas" que são mães solteiras, e de toda pose de vítima de seus ídolos que parecem ignorar o próprio sucesso.

Tudo isso para diluir em "grande coisa" a mediocrização sócio-cultural que há muito faz a apologia da pobreza, impedindo a evolução social das classes populares, limitando-a à emancipação parcial do consumismo sem cidadania, que garante os lucros exorbitantes dos barões do entretenimento e da grande mídia.

Última herança do conservadorismo ideológico da velha grande mídia, o brega-popularesco ainda dá seus urros fortes. Mas começa a se mostrar como um leão ferido, que faz toda a fauna que o apoia apelar para os últimos socorros.

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