sábado, 26 de novembro de 2011

BETH CARVALHO DÁ A SENHA PARA QUESTÃO DO BREGA-POPULARESCO



Por Alexandre Figueiredo

A sambista Beth Carvalho, presidente de honra do PDT, deu a senha para uma questão bastante complexa sobre a cultura brasileira, que boa parte da intelectualidade tem muita dificuldade de perceber (ou talvez seja desinteresse mesmo).

Sobre a ameaça que os EUA faz do samba, ela comentou o seguinte: "A CIA quer acabar com o samba. É uma luta contra a cultura brasileira. Os Estados Unidos querem dominar o mundo através da cultura".

Isso cai como uma bomba para aqueles que acreditam que o neoliberalismo só manipula a opinião pública através do noticiário político. Hoje é a cultura o elemento cada vez mais usado pelas elites neoliberais para manipulação das classes populares.

INTERPRETAÇÃO REQUER CAUTELA

Certamente interpretar a declaração de Beth Carvalho requer cautela. A intelectualidade da direita cultural que defende o brega-popularesco pode usar seus ídolos - que claramente representam o mercado de entretenimento da velha grande mídia - para justificar a falsa solidariedade com a cantora.

Afinal, o que Beth quer dizer não é que a CIA quer combater literalmente a cultura brasileira, mas sutilmente. A questão é muito mais complexa para colocarmos o problema no âmbito do maniqueísmo.

É por isso que os funqueiros - que cada vez mais provam estar associados à direita midiática, embora não admitam no discurso - , por exemplo, tentam puxar a brasa para seu jabá e dizer que "estão do lado do samba", quando na verdade querem tomar sua reserva de mercado, deixando o samba autêntico apenas para redutos fechados da classe média alta intelectualizada.

Afinal, o brega-popularesco (no qual inserem funqueiros, "sertanejos" e "pagodeiros românticos") se serve da diluição dos ritmos populares, transformados em caricaturas, estereótipos e linhas de montagem "artísticas", que em vez de fortalecer a cultura brasileira, a enfraquece por reduzir-se a clichês de mero entretenimento, sem algo que acrescente culturalmente ao povo brasileiro.

BREGA-POPULARESCO: APENAS "CULTURA MEIO BRASILEIRA"

O brega-popularesco, como mero fenômeno mercadológico, é apenas uma "cultura meio brasileira". Seus ídolos são manipuláveis pelo mercado, e se submetem facilmente ao tendenciosismo, já que não possuem uma visão realmente crítica do mundo em sua volta.

Além disso, sua música é mais um arremedo dos ritmos regionais do que uma suposta "modernização" dos mesmos. Esqueçamos delírios modernosos do discurso pós-moderno e pós-tropicalista, mais preocupados em louvar o "deus mercado" da chamada "cultura pop" do que de zelar por qualquer valor sócio-cultural autêntico.

No brega-popularesco, os elementos nacionais são expressos de forma superficial e os elementos estrangeiros assimilados de forma submissa. Os "valores culturais" não são transmitidos pelo contato social da comunidade, mas através das rádios e TVs controladas pelos donos do poder.

O próprio patrocínio suspeitamente entusiasmado da velha mídia e das multinacionais, com um apetite que lembra o amplo apoio empresarial ao IPES-IBAD (os "institutos" golpistas dos anos 60, ancestrais do Instituto Millenium), mostra o quando o brega-popularesco, em que pese a facilidade quase automática de atrair o grande público, está longe de representar, de fato, a verdadeira cultura popular.

APOIO DOS EUA

O apoio dos EUA a essa verdadeira deturpação da cultura brasileira, com ídolos sem muito talento relevante, mas feitos produtos midiáticos destinados ao sucesso estrondoso e interminável, pode não ser direto. E certamente não é, o que pode fazer com que seus ideólogos chamem qualquer um de "paranóico" se afirmar esse apoio, independente de que forma seja.

Pois o apoio ao brega-popularesco não se dá nos gabinetes da Casa Branca nem nos escritórios de Hollywood. Ele se dá da forma mais sutil, pelas multinacionais instaladas no Brasil ou pelas "parcerias" que se faz quando se tenta levar ídolos bregas e neo-bregas para o exterior, seja a "aventura americana" de Alexandre Pires junto a um casal de exilados cubanos anti-castristas, seja a "histórica" apresentação de Ivete Sangalo no Madison Square Garden. Isso para não dizer de turnês européias que envolvem até mesmo muitos funqueiros surgidos do nada.

A qualidade artístico-cultural duvidosa e a própria personalidade submissa e subserviente dos ídolos brega-popularescos, sempre capazes de serem remodulados a cada modismo, mostra o quanto essa "verdadeira (sic) cultura popular" tem por fim estabelecer o controle social pelo entretenimento.

A associação de seus fenômenos com cenários sócio-políticos conservadores - seja o Waldick Soriano durante a ditadura militar, os "sertanejos" da Era Collor e a "maturidade" da geração 1990 durante a Era FHC - deixa muito claro seu caráter conservador. E mesmo a intelectualidade "de esquerda" que os defende não deixa de vir encharcada de ideias neoliberais de toda espécie.

Afinal, essa intelectualidade, tal como Ali Kamel (o "senhor das trevas" da grande imprensa), pensa que "não existem problemas" no Brasil. "Não somos cafonas", "não somos medíocres", diz ela.

Como Francis Fukuyama, a intelectualidade etnocêntrica anuncia o Fim da História da MPB, sigla "caduca", "restritiva" e "discriminatória".

Como Leandro Narloch, a intelectualidade etnocêntrica incrimina o esquerdismo de Chico Buarque, enquanto aplaude o direitismo de um Benito di Paula, por exemplo.

E como Fernando Henrique Cardoso, na sua Teoria da Dependência, a intelectualidade quer que a cultura brasileira se desenvolva subordinada à indústria cultural das rádios FM e da TV aberta, e não mais pelo convívio social das comunidades.

Por isso, o alerta de Beth Carvalho deve ser analisado sem interpretações deturpadas. Não dá para analisarmos a validade da cultura brasileira pelo uso ou desuso da guitarra elétrica, essa questão está mais que superada e hoje qualquer bandinha da Opus Dei toca hinos católicos com guitarra elétrica. Como também é impossível ver a questão da brasilidade pela simples presença ou não de elementos estrangeiros.

Porque o que está em jogo não é a cultura apenas se fechar ou abrir para o que é de fora, mas pelo nível de conhecimento tanto da cultura nacional quanto da cultura estrangeira.

Se em ambos os casos, o conhecimento é superficial, pela via midiática das rádios e TVs, então a cultura se torna fraca, porque não conhece bem seus próprios valores, e é muito menos capaz de compreender os valores de fora e adaptá-los aqui.

"LINHA DE MONTAGEM"

No caso do samba, os "pagodeiros românticos", por mais que tentem algum esforço de parecer "mais sambistas" com o tempo, desconhecem a própria história do samba, ou, quando muito, só a tornam a conhecer na última hora, e mesmo assim como aprendizes apressados e pedantes justamente quando chegam a quinze, vinte anos de carreira.

Pois são "sambistas" doentes do pé, ruins da cabeça, que apenas fazem uma linha de montagem que "progride" conforme os ventos do mercado. Geralmente começam como uma versão caricata da soul music norte-americana tocada com pandeiro e cavaquinho. Tentam soar ao mesmo tempo como os Isley Brothers e o Fundo de Quintal, mas não conseguem se nivelar a um nem a outro, sendo muitas vezes imitações desastrosamente caricatas.

Depois eles começam a fazer um samba de gafieira malfeito, sem saber direito a diferença entre maxixe e lundu. E, só na última hora se "estabilizam" naquilo que podemos apelidar de "imitasamba", copiando apenas os clichês mais manjados de nomes como Fundo de Quintal, Jorge Aragão, Arlindo Cruz e, sobretudo, Zeca Pagodinho.

Isso é como se o Restart, no seu vigésimo CD de carreira, fosse imitar "corretamente" os Dead Kennedys. Mas é uma imitação apenas burocrática, uma cópia de clichês técnicos, sem alma e sem espontaneidade. É algo só para justificar o longo tempo de carreira ou o tendenciosismo de mercado.

Portanto, a verdadeira cultura brasileira não está nas mãos desse pessoal que lota plateias e puxa o sucesso da mídia. Eles são apenas produtos, e mesmo a "evolução musical" deles é medida pelos modismos e pela demanda. Como artistas, eles são incapazes de se aperfeiçoar de forma espontânea e criativa, apenas se aproximando da MPB mais acessível pela mera imitação de seus clichês mais conhecidos.

E essa suposta "verdadeira cultura popular" só serve mesmo para alimentar o mercado conservador da velha mídia e das multinacionais, na medida em que seus ídolos não têm as veias crítica, criativa e artística autênticas, e pouco têm consciência do que realmente fazem para a cultura brasileira.

É justamente essa "cultura popular" midiática o instrumento de controle que o capitalismo dos EUA usa para controlar e submeter as classes populares ao domínio do "deus mercado". E é justamente isso que está latente no recado de uma de nossas maiores sambistas.

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