sábado, 19 de novembro de 2011

BARÕES DO ENTRETENIMENTO PODEM ESTAR SUBORNANDO INTELECTUAIS


BOLSAS DE PESQUISA PODEM ESTAR SENDO PATROCINADAS PELOS EMPRESÁRIOS DO ENTRETENIMENTO LIGADOS À VELHA MÍDIA.

Por Alexandre Figueiredo

A ditadura midiática faz seu golpe silencioso que é dificilmente percebido por mentes pouco críticas. Enquanto aparentemente os "calunistas" e "urubólogos", como são conhecidos os cronistas políticos mais reacionários, aparentemente se resignam com os muitos ataques que recebem de parte da opinião pública, a maior herança da velha grande mídia pode estar sendo reciclada pelo respaldo da mesma intelectualidade que diz repudiar o mesmo império midiático.

Trata-se da ideologia brega-popularesca, a "cultura popular" da velha grande mídia, cujo mercado fortaleceu tanto que seus empresários e patrocinadores já se constituem numa elite tão conservadora quanto à velha imprensa reacionária.

Essa elite, composta de verdadeiros barões do entretenimento - donos de casas noturnas, agências de talentos, emissoras de rádio e equipes de som associados aos barões do atacado e varejo, latifundiários e políticos "fisiológicos" - , pode estar por trás do apoio que quase toda a intelectualidade, sobretudo cientistas sociais e críticos musicais, pode estar dando às tendências do brega-popularesco, sobretudo o brega setentista, o "funk carioca" e o tecnobrega.

De repente, é só fulano fazer um curso de mestrado para ele, da noite para o dia, dizer mil elogios ao "funk carioca", ao tecnobrega, ao brega "de raiz", a "fenômenos" como É O Tchan e tudo o mais.

JABACULÊ ACADÊMICO

O que faz a intelectualidade preferir a defesa fácil de tendências puramente mercadológicas, em vez de zelar por valores realmente culturais, a princípio é um grande mistério, mas tudo indica que pode haver um esquema de "jabaculê acadêmico" por trás.

Mas até agora é preciso uma investigação jornalística para saber como se dá esse esquema de propina. Sabe-se que as verbas federais para pesquisas de extensão e pós-graduação são difíceis de serem obtidas, e é muito provável que tenham sido feitas brechas para que a indústria do entretenimento, pouco afeita aos valores culturais, no entanto intervenha no financiamento de bolsas de pós-graduação, praticamente "comprando" o apoio de quase toda a intelectualidade.

Resta saber como se dá realmente esse processo, como vem o "patrocínio" do establishment do entretenimento à intelectualidade. Mas que esse processo dá indícios de existência, dá. E tais indícios se expressam da seguinte forma:

1) Muitos dos livros de pós-graduação são sobre fenômenos do brega-popularesco, lançados pouco depois desses mesmos fenômenos serem condenados ao ostracismo;

2) As argumentações que os intelectuais que defendem o brega-popularesco são rigorosamente as mesmas: "vítimas de preconceitos", "cultura das periferias", "expressão das pequenas (sic) mídias regionais" etc.

Em vez de resgatar valores sócio-culturais antigos, prefere-se promover, sob o verniz "científico", os mesmos modismos brega-popularescos dos últimos 20, 40 anos. Modismos cujo valor artístico e cultural é bastante duvidoso, mas ér associado, muitas vezes de forma tendenciosa, às classes populares, acabam levando a melhor nas pautas das pós-graduações, dos artigos acadêmicos, dos livros, documentários e das resenhas culturais levados ao público.

DISCURSO CONFUSO

A intelectualidade que se envolve na defesa do brega-popularesco - com ênfase, sobretudo, no "funk carioca", mas envolvendo outros estilos da Música de Cabresto Brasileira - , além de usar as mesmas argumentações, realiza um discurso muito confuso, que, em que pese a habilidosa construção argumentativa e o emaranhado de referências das mais diversas, não obstante vai até mesmo contra as regras acadêmicas de trabalhos científicos.

São monografias, documentários, artigos e resenhas que geralmente fazem as mesmas defesas do brega-popularesco - "vítimas de preconceito" etc - , com argumentações que mesclam retóricas monográficas com campanha publicitária, às vezes com ataques verbais sutis a quem critica os fenômenos "estudados".

A inclusão de referências e alusões é muitas vezes falsa, e vale tudo, até mesmo creditar as grosserias do "funk carioca" à poesia de Gregório de Mattos. De repente, os "culpados" pelas acusações de todo e qualquer defeito dos ídolos brega-popularescos passam a ser de Gregório de Mattos e Antônio Conselheiro até Oswald de Andrade, Andy Wahrol e até mesmo Malcolm McLaren.

PRECONCEITOS "SEM PRECONCEITOS"

A retórica investe no que há de mais arrojado na retórica textual da atualidade. Há o uso e abuso de recursos como o Novo Jornalismo (New Journalism), ou seja, a técnica de reportagem feita com narrativa de romance ou até mesmo de um diário juvenil.

Há, da mesma forma, o recurso da História das Mentalidades, que é a abordagem da História da humanidade privilegiando personagens anônimos e semi-anônimos. No caso do "funk carioca", o recurso é usado sobretudo para mostrar a casa e os familiares de ídolos funqueiros ou mesmo de fãs do "funk carioca" abordados por uma reportagem.

Mas a atenção se chama sobretudo quando os referenciais culturais nobres são usados para reforçar a "validade" dos ídolos brega-popularescos. Como no texto "A índia negra branca do Pará", que Pedro Alexandre Sanches escreveu sobre o cenário tecnobrega na revista Fórum, em março de 2010.

A comparação, bastante tendenciosa, do tecnobrega com a antropofagia cultural pensada por Oswald de Andrade, é falsa e só existe na fértil imaginação do crítico musical. Não passa pela mente de pessoa alguma ligada ao tecnobrega a "combativa façanha" de se apoiar no escritor modernista para promover seu sucesso. Até porque ninguém do tecnobrega deve conhecer quem é "esse tal de seu Osvaldo e o que ele faz (sic) na vida". Detalhe: Oswald faleceu há 57 anos.

Tratam-se de preconceitos "positivos" trabalhados por uma intelectualidade "sem preconceitos". Pois os ricos referenciais que se vê, por exemplo, nas apologias ao "funk carioca" e no tecnobrega, só existem nas mentes dos intelectuais que as descrevem.

Os próprios estilos brega-popularescos desconhecem essas referências, sua única referência é o cardápio "cultural" das emissoras de TV aberta e rádio FM de maior audiência. A propósito, alguém viu um filme da nouvelle vague dos anos 1950 passando na Sessão da Tarde da Rede Globo? Nem a Rede Record se encoraja a tal feito!

Mas se o antropólogo de plantão quiser enfiar Jean-Luc Godard na sua monografia sobre o Calcinha Preta, por exemplo, ele pode e aí os integrantes do Calcinha Preta, que nunca ouviram falar de nouvelle vague na vida, terão sua imagem associada tendenciosamente ao movimento cinematográfico vanguardista, e, no máximo, o empresário do grupo irá manobrá-los para criar um simulacro dessa associação, muito falsa e sem sentido real na prática.

DISCURSO NÃO ROMPE COM VELHA MÍDIA

O discurso da intelectualidade que defende os fenômenos brega-popularescos não expressa qualquer ruptura com os valores retrógrados da velha mídia. Apenas difere dos "calunistas" e "urubólogos" quanto à forma que esse discurso é trabalhado.

Enquanto os cronistas políticos reacionários fazem um discurso negativista, a retórica de defesa do brega-popularesco faz um discurso "positivo". Mas essa diferença é apenas superficial, porque ambos os discursos trabalham pelos interesses de controle social da velha grande mídia.

Afinal, enquanto os cronistas políticos reacionários partem para o ataque aos movimentos sociais, em prol de seus interesses de classe dominante, os intelectuais pró-brega-popularesco usurpam os movimentos sociais e os enfraquecem, reduzindo as classes populares a uma mera massa consumidora de fenômenos "populares" trabalhados pela velha grande mídia junto aos barões do entretenimento.

Apenas existem artifícios que dificultam ao analista médio a associação direta do brega-popularesco ao âmbito da velha grande mídia, apesar de ser praticamente evidente que se trata de um modelo de "cultura popular" respaldado pelos barões da grande mídia.

O primeiro artifício é a própria associação de barões do entretenimento a setores "heterodoxos" da direita brasileira. Embora haja a associação, em muitos momentos, com os veículos da mesma velha mídia - Organizações Globo, Grupo Abril e Grupo Folha - , a ênfase se dá em espaços flexíveis como a Rede Record, a Rede TV! e rádios como a Nativa FM e a carioca FM O Dia.

Politicamente, os barões do entretenimento hoje evitam ligações explícitas com o trio PSDB-DEM-PPS, preferindo a direita "flexível" do PP, PSC, PRB, PR e o próprio PMDB, isso quando não se infiltra em partidos como PDT, PSOL, PSB, PTB, PC do B e o próprio PT.

Mas a associação de intelectuais com os barões do entretenimento vai dar o que falar. O tendenciosismo intelectual existiu até nos regimes fascistas da Itália e da Alemanha, quando os interesses políticos usavam cientistas e jornalistas para reafirmar os propósitos de seus regimes.

O que faz a intelectualidade se vender a esse esquema é algo que virá à tona quando alguém se encorajar em furar a "panelinha cultural" e investigar quem financia essas monografias, documentários, artigos, resenhas etc.

Sabe-se, no entanto, que, em que pese a veiculação desses mesmos argumentos na imprensa esquerdista (sobretudo Caros Amigos e Fórum), são valores que se adequam e agradam muito bem aos interesses das famiglias Frias, Marinho e Civita.

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