terça-feira, 1 de novembro de 2011

AS BRECHAS QUE A ESQUERDA FEZ PARA A DIREITA CULTURAL


A ARMA QUE A DIREITA CULTURAL USOU PARA IMOBILIZAR AS ESQUERDAS: UM CHOPE E UMA BOA CONVERSA.


Por Alexandre Figueiredo

A intelectualidade de esquerda havia esquecido que um dia existiu o Centro Popular de Cultura da UNE, que, com suas imperfeições, procurou estabelecer o diálogo entre a intelectualidade de classe média e as classes populares. Não era um projeto acabado, do contrário que pregaram os revisionistas das últimas décadas - vários deles integrados ao PSDB - , e muito do que poderia fazer e corrigir foi impossibilitado pelo golpe de 1964 e pela ditadura conseguinte.

Hoje a intelectualidade de esquerda está procurando compreender a cultura das classes populares. Uns até a conhecem a fundo, mas outros, mais jovens - geralmente de 50 anos de idade para menos - , carecem de uma compreensão melhor.

A incompreensão é tanta que vários intelectuais ingenuamente pensavam que o povo das favelas só ouvia, quando muito, hip hop, isso quando não consome o intragável brega-popularesco (sobretudo "funk carioca").

Isso criou brechas para que a direita cultural, ensaiando uma falsa dissidência dos salões da imprensa golpista, se infiltrasse nas esquerdas para impor os valores do neoliberalismo cultural, travestidos de "cultura das periferias".

A centro-direita cultural acaba por seduzir a intelectualidade de esquerda até mesmo através de um chope e um bom papo. Nem o PiG propriamente dito tem essa sutileza de tamanha "negociação".

A falta de uma perspectiva de esquerda para a cultura popular permitiu, assim, que a direita impusesse um continuísmo do mesmo mercadão popularesco veiculado e patrocinado, até de forma escancarada, pela velha grande mídia. Pior: por mais explícito que o apoio da velha mídia golpista fosse dado ao brega-popularesco, seus ideólogos ainda tinham o cinismo de dizer que seus ídolos "não tinham espaço na grande mídia".

MENTIRAS, INVERDADES E DESINFORMAÇÕES

Os ideólogos do brega-popularesco, direitistas que se tornaram "amigos das esquerdas", começaram então seu discurso traiçoeiro, definindo os mesmos ídolos bregas e neo-bregas que já controlam o establishment do entretenimento como "coitadinhos vítimas de preconceito".

São os mesmos ídolos que tomaram quase todos os espaços mercadológicos, e que, querendo alguma reserva de mercado na MPB, posam-se de "vítimas de preconceito" e inventam um dramalhão que pegou a intelectualidade quase toda desprevenida. Convenceu-se pelo sentimentalismo, apesar da roupagem intelectual de toda a campanha ideológica.

São mentiras e inverdades que são lançadas, como aquela do funqueiro Mr. Catra, que mesmo depois de ter entrado nas Organizações Globo pela porta da frente, foi tido como "invisível aos olhos das corporações da grande mídia".

Essa mentira se estendeu para o tecnobrega do Pará, tido como "discriminado pela grande mídia" mas entusiasmadamente defendido por ela, a partir até mesmo da imprensa local, aliás pela maior corporação da mídia paraense, o grupo O Liberal, da famiglia Maiorana, cuja emissora de TV é afiliada da Rede Globo.

É só ver a Folha, o Estadão, O Globo, a Rede Globo - com direito ao aval do cronista do Jornal da Globo, Nelson Motta, integrado à cúpula do Instituto Millenium - para ver o apoio que a velha grande mídia deu para o tecnobrega. E não foi porque a mídia foi "ameaçada" pelo "fenômeno", mas por puro gosto mesmo. E até a Veja, que parece odiar a tudo e a todos, gostou da Beyoncé do Pará.

Por outro lado, não custa repetir que o jornalista progressista Lúcio Flávio Pinto, que sozinho peita a máfia midiática do Pará com seu Jornal Pessoal, simplesmente definiu o tecnobrega com uma só palavra: lixo.

A direita cultural seduz com seu discurso meloso, sentimental, falsamente bondoso com o povo pobre. Faz a intelectualidade de esquerda ser sua refém quando o assunto é cultura.

Os direitistas culturais - cujo astro maior é o crítico musical Pedro Alexandre Sanches, amestrado pelo mesmo Projeto Folha que causou horror a José Arbex Jr. - ficam sempre se desculpando, dizendo que "não são direita", que "também são coitadinhos", todo mundo com seu dramalhão e suas infinitas desculpas. Pedro Alexandre Sanches na Caros Amigos e Fórum fala igualzinho a Fernando Henrique Cardoso nas palestras de Paris. É só comparar.

A direita cultural cria um discurso "positivo" que só na aparência difere do discurso "negativista" dos cronistas políticos do mesmo plano ideológico. Por isso a intelectualidade esquerdista fica tranquila. Sonhos e esperanças são vendidos dentro de um dramalhão que transforma os ídolos que dominam o entretenimento brega-popularesco em coitadinhos discriminados.

Esconde-se os louros do sucesso por debaixo do tapete. Os "pagodeiros românticos", funqueiros, bregas veteranos e tantos outros que fizeram sucesso e enriqueceram abraçados aos barões da grande mídia, em vez de comemorar o sucesso conquistado, ficam a lamentar a rejeição que supostamente sofrem.

De repente, eles deixam de prestar atenção às plateias lotadas que acumularam, as apresentações na TV aberta, os sucessos radiofônicos. Tudo porque passaram a se preocupar com os comentários negativos de dois ou três críticos musicais, quando a crítica musical ainda funcionava com neurônios e não pelo jabá (e nem sequer pelo jabá sabor paçoca de hoje em dia).

De repente, não podemos desejar uma cultura melhor, porque somos acusados de "preconceituosos", "moralistas", "higienistas". Isso por conta da intelectualidade de direita que, infiltrada nas esquerdas, as seduz com o método Cabo Anselmo de convencer as pessoas.

Graças a isso, as esquerdas passam a viver um contexto kafkiano de atacar as esquerdas. Critica-se o suposto purismo cultural das esquerdas dos anos 60, preocupadas com o avanço desmoderado da mass culture.

Critica-se os supostos exageros das guerrilhas estudantis, do engajamento de um Chico Buarque, "esculhambado" simplesmente por ser inimitável. Afinal, qual ídolo do "sertanejo" ou "pagode romântico", mesmo os falsamente sofisticados, terá a mesma serena inteligência e lucidez do compositor-intérprete de "Apesar de Você"?

GOLPISMO LATENTE

O elogio ao ditador Médici de Gustavo Alonso, numa entrevista com Pedro Sanches - que não fez o menor questionamento - foi um alerta da direita cultural que se camuflou nas esquerdas. E somente esse comentário, junto a toda a urubologia que Alonso e Sanches fizeram, em plenas páginas e arquivos htm da revista Fórum, pode revelar um golpismo direitista latente.

Afinal, o alvo das críticas, não as críticas saudáveis mas claramente depreciativas, são as esquerdas de 1967-1968, hostilizadas pelos dois, entrevistador e entrevistado, pelos seus "excessos". Alonso compara a "popularidade" do general Médici a Lula, disse que a ditadura militar foi "espontaneamente popular" e Sanches assina embaixo.

O que significa isso? Significa o apoio ao pior período da ditadura militar brasileira. Só essa postura boboalegremente veiculada pela revista Fórum faz o que mil revistas Veja não conseguem fazer.

Não é preciso dizer que o governo Médici foi o período em que as guerrilhas de esquerda intensificaram suas ações. Entre elas, uma mocinha universitária que não é mais do que a atual chefe do Executivo nacional, Dilma Rousseff, remanescente daquela geração dizimada sem dó por conta da fúria do DOI-CODI.

Não há um questionamento sobre se a "popularidade espontânea e enorme" do general Médici, condicionado por toda uma máquina midiática, a mesma que hoje identificamos pelos descendentes dos antigos barões da mídia de então: os clãs dos Marinho, dos Frias, dos Mesquita, dos Civita, do condomínio dos Associados.

Ou seja, é uma situação tipicamente kafkiana. Ou, sendo mais brasileiros, digna de um Febeapá. É vergonhoso que muitos de nós aplaudamos as movimentações sociais e análises esquerdistas vindas de fora, do Oriente Médio, dos EUA, da Europa. Lindo é um linguista como Noam Chomsky ter se convertido em um importante cronista político de valiosa contribuição.

Mas aqui, não podemos fazer o mesmo. A intelectualidade que boboalegremente dá ouvidos a Pedro Alex Sanches, contaminado com o vírus da Folha de São Paulo, segue Emir Sader no discurso, mas na prática acaba crendo no Brasil de meitirinha de Ali Kamel. Quer uma regulação de mídia que apenas expulse comentaristas políticos mal-humorados, mas deixe intata quase toda a baixaria televisiva, na esperança dos mesmos grotescos de hoje bancarem os certinhos do dia seguinte.

Isso porque o entretenimento brega-popularesco - que tão falsamente se atribui como "cultura das periferias" - é um mercado que movimenta milhões de reais no país inteiro. E que conta com o patrocínio de multinacionais e até do latifúndio do interior do Brasil.

Se observarmos bem, essa pseudo-cultura "popular" nada tem que possa ser apreciada, ainda que boboalegremente, pelas esquerdas.

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