quarta-feira, 30 de novembro de 2011

AO "POVÃO", AS MIGALHAS CULTURAIS



Por Alexandre Figueiredo

Ninguém percebeu por que realmente a intelectualidade etnocêntrica, essa claque animada da direita cultural que quer impor seus pontos de vista para as esquerdas, quer mesmo com a defesa intransigente do brega-popularesco, definido sob o eufemismo de "cultura das periferias", sendo "periferia" um jargão retirado explicitamente da Teoria da Dependência do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

É a classe média alta, abastada, com medo do avanço dos movimentos populares, que faz com que ela se aproprie do antigo acervo cultural das classes populares, além de se apropriar de todo artista vindo das classes pobres que faça música com inteligência e criatividade que apareça na mídia.

Para isso, ela reserva, para as classes populares, o "povão" e a "ralé" que o politicamente correto rotula com o eufemístico termo de "periferia", o medíocre e intragável brega-popularesco sem pé e nem cabeça.

Integrar o brega-popularesco à MPB não resolve essa disparidade de um povo desprovido de seu próprio passado cultural, diante das elites abastecidas de todo o rico acervo cultural de nosso país, confinado nos museus ou nas estantes dos seus melhores apartamentos de luxo.

Isso porque o ídolo brega ou neo-brega, quando desfilado ao lado de um intelectual de nome ou de um artista de MPB ou de Rock Brasil, é tratado como se fosse uma mascote. Ele nunca seria visto, de fato, como um artista superior que ele nunca é nem se esforçou em ser.

Por outro lado, a gravação do cancioneiro de MPB por ídolos bregas e neo-bregas não os faz mais criadores. Pelo contrário, reduzem-se eles a crooners de algo que, claramente, é superior a eles, afinal trata-se de um mero recurso, banal e fácil demais, de um cantor medíocre usar uma canção, alheia, de melhor qualidade, para tentar alguma associação mais nobre.

As elites intelectuais até tentam argumentar, dizendo que o povo pobre "é capaz" de ser "mais criativo" ao "recriar" músicas alheias ou influências de fora. Balelas. Mera bajulação elitista de uma classe abastada que havia descoberto que o povo pobre outrora fazia coisas geniais e hoje está entregue à escravidão das rádios FM controladas por oligarquias regionais.

Ponha-se terno e gravata em cantores, duplas e grupos de "sertanejo" e "pagode romântico". Tente-se uma associação, tendenciosa e falsa, do tecnobrega e do "funk carioca" a um caleidoscópio de referências musicais e historiográficas. Encha-se seus palcos de luz. Trabalha-se os seus ídolos com um marketing e uma assessoria de comunicação de ponta. Nada disso irá confirmá-los como legítima cultura popular. Por quê?

Porque tudo isso só serve para expressar o pretenso assistencialismo da intelectualidade etnocêntrica e "divinizada", "santificada" pelos internautas médios, beneficiada pela aparente unanimidade dos textos, vídeos e palestras produzidos por seus pensadores ideólogos.

E esse pretenso assistencialismo expressa o caráter paternalista dessa intelectualidade que, demonstrando uma aparente cordialidade, trata como "movimentos sócio-culturais" o passivo entretenimento brega-popularesco para evitar que os verdadeiros movimentos sócio-culturais venham à tona.

Daí, até um Salvador Fest da vida é creditado, falsamente, como o nosso "Ocupar Wall Street", pela intelectualidade que só faz falar mas é "santificada" a todo custo. Não há busca do Google que apresente, fora este blogue e outros poucos, outros textos que ponham em xeque a "santidade" de um Paulo César Araújo ou Pedro Alexandre Sanches da vida.

Para essa intelectualidade, no fundo a serviço dos barões da velha mídia, por mais que aparentemente se volte contra esta, atribui-se um Salvador Fest, uma "aparelhagem", um Rio Parada Funk da vida, como "nosso Ocupar Wall Street", para que não haja um verdadeiro equivalente do Ocupar Wall Street nas ruas brasileiras.

Para os intelectuais de elite, o povo pobre tem que fazer o papel de bobo-da-corte de suas vaidades culturais. O entretenimento brega-popularesco é "divertido" para as elites intelectuais não porque elas gostam realmente dele, e elas próprias falam que "não é preciso gostar dele". Mas é a miséria transformada em espetáculo, as classes populares reduzidas a micos de realejos, enquanto as elites intelectuais, esnobes, dizem que "tudo é lindo e maravilhoso", bajulando o "povão" atribuindo-lhe no discurso uma falsa "luminosidade cultural".

O "povão" tem que ficar resignado, ficar na sua indigência cultural, definida, por eufemismo, como "autossuficiência das periferias". E é estarrecedor que esses intelectuais, encharcados de ideias de Fernando Henrique Cardoso, ainda tenham que, ainda que timidamente, atacar o ex-presidente. Mas, evidentemente, eles não criticam o ex-presidente por extenso, apenas combatem a sigla FHC, para não causar problemas com seu mestre maior.

O "povão" é tratado pela intelectualidade "santificada" como um bando de vira-latas, de "bons selvagens". A intelectualidade roubou dele o legado dos antigos sambistas, sanfoneiros, violeiros etc, jogando no seu lugar a mediocridade de sub-produtos do jabaculê radiofônico, que produzem sambregas (falsos sambistas), breganejos (falsos violeiros), forrozeiros-bregas (falsos sanfoneiros que nem sanfona têm mais, enquanto se servem de mil dançarinas), axézeiros (falsos afrobaianos) e até bregas antigos (falsos seresteiros) e funqueiros.

O estelionato cultural faz com que essa indigência cultural do rádio oligárquico seja visto como "expressão das periferias", quando, na verdade, se existe algum "criador" nessa suposta "cultura das periferias", esse "criador" é o programador de rádio, ou o editor de revistas - no caso de promover musas "popozudas" - , que na prática é uma espécie de capataz do latifúndio cultural da velha grande mídia.

A intelectualidade elitista, ao elogiar o brega-popularesco, na verdade quer impor sua superioridade decisória na avaliação da cultura popular. O povo não decide coisa alguma, só "possui" a voz da mídia popularesca tida como "sua", mas é a voz dos "coronéis", dos políticos carreiristas, dos capatazes e ex-jagunços convertidos em barões do entretenimento.

A classe média alta é que agora "entende" de Cartola, Nelson Cavaquinho, Luís Gonzaga, que pesquisa tudo e todos, que faz um discurso dócil. E que chora quando alguém descobre que eles falam a mesma língua dos "urubólogos" e "calunistas" da velha mídia, apenas diferem no modo com que trabalham esse discurso.

O "povão", subordinado, é enganado quando dizem que o cardápio midiático de música brega ou neo-brega, musas "popozudas" e imprensa brucutu é a "moderna cultura popular". Ela nem pode ter esse rótulo, porque nada contribui para a evolução das classes populares. Ela apenas glamouriza a pobreza e contribui ainda mais para a acomodação e o anestesiamento cultural das periferias.

Ao "povão", se jogam as migalhas culturais e os "restos" de nossa riqueza cultural que as elites não precisam mais ou que permitem que o povo pobre usufrua.

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