segunda-feira, 17 de outubro de 2011

A VULGARIDADE DA FALSA LIBERDADE DO CORPO


ARYANE STEINKOPF - Nova paniquete para o saturado mercado das mulheres-objetos do país.

Por Alexandre Figueiredo

A direita cultural adota um discurso de esquerda para defender ideias de direita. Isso é batata. Mas como seus porta-vozes conquistam as esquerdas pelo chopinho, tudo bem.

Daí este blogue, Mingau de Aço, ser considerado "chato" no trato de certos assuntos. É porque mostra as feridas de um país culturalmente sem referências, afinal o "furacão" de governos ditatoriais ou neoliberais, que varreram todos os projetos progressistas do país pré-1964, causou reflexos também no âmbito cultural.

Não será o entretenimento "popular" patrocinado pelas mesmas emissoras de rádio e TV que apoiam o capital estrangeiro e o latifúndio e que "acidentalmente" são elogiados pela Rede Globo e pela Folha de São Paulo, que representaria uma "reação" a esse empastelamento sócio-cultural tramado pela direita brasileira.

Pelo contrário, essa suposta "rebelião" aparece feliz nos cenários midiáticos mais conservadores, ela reafirma o poder que seus intelectuais ideólogos dizem estar combatendo com sua "revolução do mau gosto".

As mulheres-objetos são parte desse "alegre" entretenimento do mau gosto, com seu mercado de glúteos siliconados e exagerados. Claro, a "cultura" do brega-popularesco é "saudável" porque ela não ladra nem faz cara feia, se tudo é "positivo", tudo é "maravilhoso".

É essa a armadilha cultural da direita. Se a cultura de direita foge da oratória "negativista" de urubólogos e calunistas, ela é "de esquerda".

Afinal, as paniquetes - espécie de resposta brega às brasileiras da Victoria's Secret - , as "musas" do Pânico na TV, são inseridas dentro do processo "positivo" de domesticação das classes pobres, que transformam o público das classes D e E numa multidão de gente resignada com sua própria miséria, conformada com sua relativa inclusão social no mercado do consumo pleno.

Portanto, isso é que deixa a intelectualidade etnocêntrica feliz. Nenhuma paniquete é esposa de jogador de futebol americano, elas apenas "inocentemente" vão para noitadas, para a praia, ensaios de escolas de samba, mostrando seus glúteos "infantilmente".

Mas o grande problema é que elas, tidas como a "face cor-de-rosa" de um pretenso "feminismo popular", são na verdade a mesma expressão de um machismo mercantilista e cruel, que vende tais musas como se fossem "ideais de mulheres" para as jovens trabalhadoras das periferias.

O insuspeito apoio do portal Ego, reduto das celebridades da famiglia Marinho, não nos deixa mentir. A própria grande mídia, machista, reacionária e mercantilista, apoia abertamente essas pretensas musas.

O problema não é a exibição do corpo. O problema é que essas "musas" exprimem o superficialismo de suas personalidades. Não falam outra coisa a não ser ninharias sexuais, chiliques amorosos e outras banalidades. Não trazem alguma ideia interessante, ou, quando tentam alguma associação, é da maneira mais tola possível.

Como foi o caso de Solange Gomes, que poderia ao menos não ter falado de José Saramago. Mas ela falou, numa verdadeira demonstração de "urubologia calipígia", dizendo que odeia ler livros e que nunca ouviu falar do eminente escritor.

Ironicamente, Solange teve que participar do desfile da escola de samba Porto da Pedra, cujo desfile deste ano homenageou a autora Maria Clara Machado, que foi uma das maiores defensoras da leitura de livros.

Recentemente, foi a ver da "mulher-maçã" Gracy Kelly dizer que "adora" Steve Jobs só porque ele fundou uma empresa chamada Apple ("maçã", em inglês). E chegou a dizer que o apelido "mulher-maçã" vem da adolescência, da convivência de amigos e colegas. Fala sério.

A saturação do mercado dessas "musas" chega mesmo a ser cruel, porque elas podem ter mais de 35 anos e vão fazer a mesma coisa. Podem romper a marca dos 40 anos que essas "musas" farão o mesmo, sem qualquer juízo. Tudo na mesma, tudo o mesmo espetáculo da mesmice que não é mais do que mais do mesmo.

É sempre a mesma exibição do corpo, o que nada tem a ver com liberdade, porque não há um propósito cultural, nem sua atitude, em nível comportamental, assusta a urubologia reinante. Antes contasse com o apoio desta.

Não pode haver "liberdade do corpo" nesse processo porque não há liberdade da alma. Além disso, os glúteos não representam diferencial algum em mulheres que não possuem qualquer diferencial.

Até porque existem muitas mulheres muito mais inteligentes e com muito a nos dizer que também possuem um corpo bonito. Aliás, muito mais bonito do que muitas popozudas, paniquetes e mulheres-frutas que mais parecem bonecas de borracha com seu excesso de silicone.

Mas como essas "musas" não representam o negativismo urubólogo das modelos de classe que gravam comerciais machistas, deixa passar. Para a intelectualidade etnocêntrica, melhor seria uma Solange Gomes posando de freira ou enfermeira e "ensinando" o povo a não ler livros do que uma Gisele Bündchen fazendo papel de "brinquedo sexual" nos comerciais de TV.

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