domingo, 2 de outubro de 2011

SE OS ENGENHOS CONTROLASSEM SENZALAS E QUILOMBOS



Por Alexandre Figueiredo

Hoje temos uma intelectualidade viciada que, boboalegremente, acredita que essa pseudo-cultura "popular", trabalhada pela grande mídia, é a "verdadeira cultura das periferias".

A cultura popular é escravizada pelo deus mercado e pela visão estereotipada da grande mídia nacional e regional, que apenas "diferencia" as mercadorias "culturais" resultantes em cada localidade.

Mas somos induzidos a acreditar que esse mercado "não existe" e que o povo que se torna marionete da grande mídia "tem vontade própria". E ainda por cima muitos intelectuais endeusam seus ídolos-coitadinhos do momento, podendo ser o falecido Waldick Soriano como pode ser Tati Quebra-Barraco, Zezé di Camargo & Luciano ou Leandro Lehart.

É muito complicado um blogue como este, que não tem a visibilidade de colonistas-paçocas, historiadores do brega e similares, questionar uma visão que, com suas incoerências, no entanto torna-se dominante e quase unânime. A intelectualidade, boboalegremente, prefere se contentar em ser "contraditória", misturando "pós-modernamente" conceitos de direita com falsas abordagens esquerdistas.

A direita cultural se aproveita disso e tenta fazer a mídia golpista renascer na sua visão de cultura popular que em tese tenta se desvincular da mesma mídia. A herança não assumida por uma intelectualidade esquerdista só pode lembrar o acanhado iluminismo de ativistas brasileiros do século XIX.

Estes "iluministas de engenho" enchiam os peitos para falar de Revolução Francesa. Gabavam-se em se achar a florescente vanguarda do pensamento humanista. Com muito orgulho, citavam filósofos como Voltaire e Rousseau como seus mestres. Rejeitavam o feudalismo no discurso, até com certa pose de nojo.

No entanto, na prática, defendiam com unhas e dentes o regime escravocrata. Viam com horror a hipótese de estender o direito de cidadania a índios, negros ou mesmo mulheres. Os índios e as mulheres eram "melhores" quando idealizados imaginariamente pela poesia cantada por esses "iluministas". Ou por um passado histórico que permitisse que eles fossem heróis de ontem, mas nunca batalhadores do hoje. Todavia, os negros não tinham direito sequer a isso.

Alguns desses ativistas eram também fazendeiros, ou então tinham fazendeiros em sua base de apoio. E lidavam com escravos, vários deles. Na melhor das hipóteses, as relações desses "iluministas de engenho" com seus escravos se assemelhava justamente ao feudalismo que eles tanto diziam sentir horror e condenar com veemência.

"É A DEMAGOGIA, ESTÚPIDO!"

Nos dias de hoje, a intelectualidade "militante", salvo exceções, comete, boboalegremente, os mesmos pecados dos "iluministas de engenho" de outrora. Se o mainstream da intelectualidade desejava uma "Revolução Francesa" à brasileira, mantendo a escravidão, o mainstream da intelectualidade brasileira quer uma "Revolução Cubana" que mantenha a escravidão midiática da domesticação cultural das classes pobres.

Da mesma forma que os intelectuais do passado achavam lindo ver as manifestações populares de fora, mas sentiam horror em vê-las ocorrendo no Brasil, os do presente pensam a mesma coisa.

E se os intelectuais de outrora possuíram escravos, os de hoje possuem outros subordinados. Empregadas domésticas, faxineiros, porteiros de prédio, garis e feirantes, membros das classes populares que estabelecem um contato direto com esses intelectuais paternalistas.

Só que hoje o discurso é bem mais enrustido. E até mentiroso. Afinal, são pessoas "sem preconceitos", mas bastante preconceituosas. Possuem convicções de classe.

Mas sentem horror em ver gente pobre discutindo política, fazendo cultura de fibra, porque vai contra aquela "gostosa felicidade", tão tola e infantil "sem ser tola e infantil" - "É a demagogia, estúpido!" - das populações pobres.

Para que, por exemplo, um idoso pobre ir ao dentista e colocar implantes dentários, se para a intelectualidade festiva é tão bonito ver o pobre desdentado sorrindo de forma pueril?

Para que os pobres terem alguma ocupação se é tão bonito para a intelectualidade festiva ver os pobres balbuciando tolices quando se embriagam com aquele aguardente da pesada?

Para que tirar mulheres da prostituição, dando-lhes escola e formação profissional, se elas podem servir para o recreio sexual de velhos cientistas sociais divorciados?

Para que tirar as populações das favelas se para a visão paternalista da intelectualidade elas são ótimas para a reafirmação do duvidoso mito do "orgulho de ser pobre"?

Essa intelectualidade, tão feliz e "zelosa" pela cultura popular, na verdade está a serviço de todo um processo perverso de controle social que se vale pela domesticação do povo pobre, para o bem do mercado.

Mercado que a intelectualidade festiva e etnocêntrica faz o possível para nos fazer acreditar que está morto e enterrado.

QUEM SÃO OS "SENHORES DE ENGENHO" DE HOJE?

Imagine se a intelectualidade "iluminista" do século XIX, a pretexto de manter a escravidão, dissesse que ela não existe e que a situação inferior dos escravos é fruto de uma "felicidade" que nós simplesmente "não conseguimos compreender"?

Fácil desviar as questões mais delicadas sob este aspecto. Mas a intelectualidade etnocêntrica, que exalta essa pseudo-cultura "popular" imposta pela velha grande mídia - mas já atribuída, pasmem, às "novas e pequenas mídias" - , na medida em que atribui nosso senso crítico a uma "incompreensão da felicidade (?!) alheia", acaba por reafirmar seus preconceitos e omissões que tanto se empenham em desmentir no discurso.

Sabemos que essa pseudo-cultura "popular" é na verdade sustentada e promovida por elites detentoras do poderio econômico que, dependendo do caso, são mascaradas pela intelectualidade etnocêntrica ora como "meros investidores culturais" ou mesmo como "gente da periferia".

No primeiro caso, atribui-se o patrocínio dos barões do entretenimento, da mídia ou das grandes redes de departamentos, nacionais e regionais, como um "coincidente" apoio às "manifestações culturais" que a intelectualidade atribui à pseudo-cultura "popular" midiática.

No segundo caso, atribui-se os empresários do entretenimento, que controlam gravadoras "pequenas", casas noturnas e os próprios "artistas" envolvidos, como "pessoas ainda pobres", ou, quando muito, "pessoas que se enriquecem por seus méritos naturais e seu suor".

Ou seja, camufla-se os "senhores de engenho" atuais como se eles fossem os "inocentes" chefes de senzalas e quilombos dos dias atuais. E a intelectualidade investe numa série de mentiras que tentam fazer com que a pseudo-cultura midiática fosse o "nosso folclore contemporâneo".

Duas dessas mentiras surpreendem pelo doce sabor de suas palavras.

Uma é que, se a velha grande mídia (Globo, Folha, Abril) apoiam o brega-popularesco, é porque, no discurso da intelectualidade, são os ídolos "populares" (brega-popularescos) que estão "invadindo" a velha mídia e tomando-a de assalto.

Outra é que o patrocínio do empresariado é apenas uma "inocente maneira" de "viabilizar" as ditas expressões populares representadas pelo brega-popularesco.

São mentiras que logo de cara deixam claro que não mostram a realidade, apesar do discurso sonhador que arrebanha adeptos blogosfera afora. Os ídolos popularescos nunca iriam "invadir" a grande mídia se, quando nela aparecem - ainda que seja uma página de destaque na Ilustrada da Folha de São Paulo - , estão felizes lado a lado com os barões midiáticos.

Da mesma forma, a associação das oligarquias econômicas e políticas com o brega-popularesco nada tem de assistencial ou acidental, mas está dentro dos interesses de controle social que favorecem os privilégios dessas elites.

Vemos empresários-DJs de "funk carioca", das "aparelhagens" do tecnobrega, do forró-brega em geral, das vaquejadas, micaretas, rodeios e tudo o mais, se enriquecerem extraordinariamente, enquanto continuam trabalhando sua falsa imagem de "pobretões" ou "novos ricos por mérito".

Mas está na cara que eles equivalem hoje a uma hipotética parcela do latifundiário escravocrata de outrora se esta "inocentemente" governasse a vida nas senzalas e quilombos.

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