sábado, 1 de outubro de 2011

QUANDO DISCÍPULOS RENEGAM MESTRES, MAS SEGUEM SUAS LIÇÕES


AÉCIO NEVES andou se estranhando com JOSÉ SERRA, mas nem por isso o tucano mineiro virou marxista-leninista-guevarista.

Por Alexandre Figueiredo

Existem dois tipos de relações entre discípulos e mestres que podem nos fazer refletir sobre a herança intelectual destes sobre aqueles.

Uma é quando o discípulo bajula seu mestre, o elogia bastante e o diz seu seguidor, mas, no entanto, esquece de seguir até mesmo as lições mais básicas.

Outra é quando o discípulo rompe formalmente com seu mestre, passa a falar mal dele para os outros, mas segue fielmente todas as suas lições.

Muitos acreditam que o discípulo torna-se fiel ao seu mestre no primeiro caso, enquanto no segundo há uma ruptura entre os dois. Todavia, é justamente o segundo caso, quando o discípulo rompe formalmente com seu mestre, mas, mesmo brigado com ele, segue fielmente suas lições.

Isso se explica porque neste caso a missão do mestre se cumpriu no discípulo, mesmo com as relações rompidas.

É o que vemos na pseudo-esquerda brasileira, detentora de ideias, valores, padrões e procedimentos herdados tanto de certos projetos do regime militar quanto de práticas vigentes durante governos conservadores como os de José Sarney, Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso.

É notório o caso do professor mineiro Eugênio Arantes Raggi, ou apenas Eugênio Raggi. Reacionário, ele no entanto tentava impressionar os outros criticando, em várias de suas mensagens, desde figuras como Cabo Anselmo quanto ACM e Sarney e até mesmo a Rede Globo ele criticava, apesar dele feliz da vida participar do portal Globo Esporte.Com.

Recentemente, teve outro caso, o de Pedro Alexandre Sanches, "filhote" da Folha de São Paulo, que no texto "A Bahia plural é filha da axé-music", publicada na Caros Amigos deste mês, chamou o jornal de "cracolândia" e ainda fez críticas a ACM e FHC.

No entanto, Sanches, em vários de seus textos, provou que ele mantém intata a herança ideológica da FSP. Seus artigos mostram, claramente, ecos de Francis Fukuyama, Auguste Comte, Fernando Henrique Cardoso (Teoria da Dependência) e até do país-fantasia de Ali Kamel. Isso apesar de Pedro Sanches "plantar" referenciais de esquerda para enfeitar seus textos e ocultar qualquer ranço de sua visão neoliberal sobre o tema cultura popular.

Chega a ser engraçado quando esses pensadores do brega-popularesco dizem que ninguém é obrigado a gostar desses ídolos da pseudo-cultura "popular", mas é obrigado a reconhecer sua "genialidade" (sic). Em contrapartida, dissemos que ninguém é obrigado a gostar dos mestres da direita, mas se seguem suas lições, são de todo modo seus seguidores e herdeiros.

Cabo Anselmo também "criticava" o imperialismo quando, em 1964, surgiu do nada com seu esquerdismo de fachada, seduzindo os colegas da Marinha brasileira que o ouviam, naquela revolta dos sargentos no Rio de Janeiro, naqueles idos de março. Só depois se descobriu que de esquerdista Cabo Anselmo nada tinha, e ele andava muito bem de mãos dadas com o "imperialismo" que tanto dizia condenar.

Em muitos casos, criticar os mestres é uma forma de forçar a barra de certas pessoas em dados oportunismos. Nos últimos dez anos, o pseudo-esquerdismo pegou a todos de surpresa, porque na véspera muitos dos pseudo-esquerdistas estavam felizes apoiando o grupo tucano-pefelista de então.

Mas como Lula foi eleito, muitos vieram na carona do presidente bonachão e, depois, com Dilma Rousseff em campanha, na carona da primeira presidenta do país. Mantém conservadinhos, no seu freezer existencial, seus ideais neoliberais bem guardados, mas usados eventualmente como quem tira a garrafa de água da geladeira quando se está com sede num dia quente.

"Falem mal, mas falem de mim", disse certa vez Getúlio Vargas. Mas a frase poderia ser aplicada, num outro contexto, para demotucanos diante da aparente repulsa dos pseudo-esquerdistas de ocasião, pouco seguros em desmentir qualquer direitismo latente ou mesmo explícito em suas ideias, mas impulsionados a falar mal dos antigos mestres pela boca pequena, pelo palavreado frágil.

Talvez nem admitam que FHC, ACM, Collor, Sarney, Kamel, os Frias, os Marinho e os Civita sejam seus mestres. Ou Fukuyama, Comte, Eugênio Gudin, Roberto Campos. E, por outro lado, queiram adular de Antonio Gramsci a Emir Sader, mesmo quando, no fundo, discordam violentamente de suas ideias.

Tudo pelo agrado dos outros. No próximo julgamento, os pseudo-esquerdistas apenas dirão que "são contraditórios" e que "a contradição é inerente à natureza humana". Pode ser, mas a contradição não é desculpa para o triunfo da incoerência e da insensatez.

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